
João Vieira Lopes
Global Imagens/Diana Quintela
O presidente da Confederação do Comércio e Serviços entende que a ideia de que a reindustrialização vai relançar a economia é «um mito».
A reindustrialização defendida pelo Governo não passa de «um mito».
A opinião é do presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal.
Entrevistado na TSF e Dinheiro Vivo, João Vieira Lopes considera que «Toda a estruturação da programação da política económica vive em torno do mito da reindustrialização» e acrescenta que «Portugal nunca foi um país com grande poder industrial. Aliás, mesmo no pico dos anos 60, que são utilizados como grande paradigma, a nossa produção per capita nunca chegou a metade do que se passava na Europa».
O anterior ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, lançou a Estratégia para o Fomento Industrial e Pires de Lima deu-lhe continuidade mas Vieira Lopes diz ter «sérias dúvidas» que seja através da reindustrialização «que se possa fazer o relançamento».
«Exportar mais não significa nada»
A ideia de que a indústria pode virar-se para o mercado externo e aumentar as exportações, relançando a economia, também é criticada por Vieira Lopes.
O presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal a ideia de exportar mais, sem maior definição quanto à forma de o fazer, pouco significa: «"Exportar mais" não é nada. É tudo e não é nada», afirma.
A análise da decomposição das exportações, na opinião de Vieira Lopes, é da maior importância: «É preciso ver qual é a componente importada. O que acontece é que nos serviços a componente importada anda pelos 20% a 30%, porque os serviços importam algum material e pouco mais. Na indústria anda pelos 49%. Nos combustíveis está nos 82%. Defender um modelo exportador em abstrato é errado. O que é importante é definir que modelo exportador queremos».
Aumento do Salário Mínimo possível se planeado
Nesta entrevista o presidente da CCP, que tem assento na concertação social e representa o comércio e serviços, que dão emprego a quase 3 milhões de pessoas, confirma que a generalidade das empresas filiadas nas associações que compõem a CCP mostraram abertura para subir o salário mínimo, desde que o Governo dê tempo às empresas para se prepararem para esse custo adicional.
Vieira Lopes assegura que «desde que o salário mínimo entre em vigor universalmente e seja negociado com antecedência não há problema».
O presidente da CCP falou diretamente com vários setores sobre essa possibilidade, e garante que esses setores mostraram abertura para subir o salário desde que exista essa previsibilidade.
Vieira Lopes ilustra essa necessidade de previsibilidade com um exemplo: «uma empresa de serviços de limpeza tem um contrato e renova-o no último trimestre para o próximo ano. Precisa de saber com antecedência. Não pode correr o risco de em Março subirem o salário mínimo, porque tem uma grande percentagem de trabalhadores com o salário mínimo».
«Não sou grande fã» do Impulso Jovem
Quanto aos muitos programas lançados pelo Governo para promover o emprego (iniciativas como o impulso jovem ou os incentivos à contratação de maiores de 45 anos), Vieira Lopes reconhece que poderão ter uma utilidade marginal mas confessa que não é «grande fã» desses programas. «A economia cresce ou não cresce. O acréscimo que as empresas têm em termos de contratação é limitado. Se tenho mercado, contrato. Se não tenho mercado, não contrato».
Ainda assim, reconhece que «esses programas acabam por ser úteis porque as empresas baixam os custos, mas agora faz-se um programa para os jovens; depois faz-se um programa para os maiores de 45 anos. Andamos a deslocar o desemprego de um segmento etário para outro».