
Face ao ambiente geopolítico internacional, a presidente do BCE considera crucial o apelo da Comissão Europeia, para que os governos dos estados membros priorizem as finanças públicas sustentáveis, o investimento estratégico e as reformas estruturais que impulsionem o crescimento, mas também considera que é vital uma maior integração do mercado de capitais, concluindo a União Bancária, da Poupança, dos Investimentos, dentro de um calendário ambicioso, bem como, adoptar rapidamente o regulamento do euro digital.
Christine Lagarde diz estar ciente que o ambiente atual é desafiante para o comércio global e no final do último Conselho de Governadores do BCE de 2025, afirmou que a incerteza "irá provavelmente continuar a ser um entrave ao crescimento na zona euro este ano e no próximo". Por isso, realça a necessidade urgente de reforçar a economia da "Eurolândia" no actual contexto geopolítico.
Saúda o apelo da Comissão Europeia para que os governos priorizem as finanças públicas sustentáveis, o investimento estratégico e as reformas estruturais que impulsionem o crescimento, mas agora, considera que é crucial, desbloquear todo o potencial do mercado único.
Considera vital que a UE promova uma maior integração do mercado de capitais, concluindo a União de Poupança e Investimentos, a União Bancária (dentro de um calendário ambicioso) e adoptando rapidamente o regulamento para entrada em vigor do euro digital.
Na avaliação de riscos realçou que apesar da diminuição das tensões comerciais, o ambiente internacional ainda é instável e pode perturbar as cadeias de abastecimento, prejudicar as exportações e afetar o consumo e o investimento.
"Uma deterioração do sentimento do mercado financeiro global pode levar a condições de financiamento mais restritivas, a uma maior aversão ao risco e a um crescimento mais fraco."
Mensagens que fez passar na conferência de imprensa desta quinta-feira em que explicou a decisão do conselho de governadores do BCE, de manter as taxas de juro de referência inalteradas, com base nos últimos dados que confiram a estabilização da inflação nos 2% a médio prazo, destacou a importância do crescimento europeu.
As projeções para a zona Euro mostram uma inflação na ordem dos 2,1% em 2025, com descida para 1,9% em 2026 e ligeira queda para1,8% em 2027 e que deverá ficar nos 2% em 2028, excluindo a energia e alimentos e justifica que os valores foram revistos para 2026, porque estima que os valores da inflação relativa aos serviços decline mais lentamente.
Já sobre o crescimento económico, espera que seja mais forte do que nas projeções de setembro, especialmente impulsionado pela procura doméstica, apontando para 1,4% em 2025, 1,2% em 2026 e 1,4% em 2027 e esperado permanecer em 1,4% em 2028.
A presidente do Banco Central Europeu voltou a afirmar que o conselho de governadores está determinado em garantir que a inflação estabilize no seu objetivo de 2% no medio prazo, mas teve que levar em consideração na sua avaliação das condições atuais de mercado, dinâmica económica, mas também os riscos. " Levamos em conta a avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos e não nos podemos comprometer antecipadamente com uma trajetória específica para as taxas de juro."
A economia da zona euro deu sinais de crescimento de 0,3% no terceiro trimestre, refletindo sobretudo o aumento do consumo e do investimento e as exportações também aumentaram, com um contributo significativo do sector químico e dos serviços, enquanto a actividade na indústria e na construção civil se manteve estável.
Lagarde acrescentou que "a economia europeia está a beneficiar de um mercado de trabalho robusto. O desemprego, nos 6,4% em outubro, está perto do seu mínimo histórico e o emprego cresceu 0,2% no terceiro trimestre, mas ao mesmo tempo, a procura de mão-de-obra arrefeceu, com a taxa de vagas de emprego no seu nível mais baixo desde a pandemia."
As projeções da equipa do BCE indicam que a procura interna vai ser o principal motor do crescimento nos próximos anos. O rendimento real deverá aumentar ainda mais, e a taxa de poupança deverá descer gradualmente do seu nível ainda elevado, sustentando o consumo e o investimento empresarial, bem como, os gastos governamentais em infra-estruturas e defesa devem sustentar cada vez mais a economia.
A remuneração por trabalhador aumentou a uma taxa anual de 4%. Este valor foi superior ao esperado nas projeções de setembro e deveu-se a pagamentos acima dos salários negociados. Indicadores prospetivos, como o rastreador salarial do BCE e os inquéritos sobre as expectativas, sugerem que o crescimento dos salários irá abrandar, antes de estabilizar um pouco abaixo dos 3% no final de 2026.
A presidente do BCE aponta mesmo as tensões geopolíticas, em particular a guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia, como uma grande fonte de incerteza atual e num exercício de medir o que mais pesa na balança do risco. Por outro lado, aponta os gastos planeados com a defesa e as infraestruturas, juntamente com as reformas que aumentam a produtividade e podem impulsionar o crescimento mais do que o esperado. "Uma melhoria da confiança pode estimular os gastos privados", acrescenta, embora a perspetiva para a inflação continue a ser mais incerta do que o normal devido ao ambiente internacional ainda volátil.
Lagarde adiantou que a inflação poderá ser mais baixa, se o aumento das tarifas dos EUA reduzir a procura de exportações da zona euro e se os países com excesso de capacidade aumentarem as suas exportações para a zona euro. Além disso, um euro mais forte poderá reduzir a inflação ainda mais do que o esperado e um aumento da volatilidade e da aversão ao risco nos mercados financeiros poderá afectar a procura e, consequentemente, também reduzir a inflação.
No outro prato da balança, indica que a inflação poderia ser mais elevada, se as cadeias de abastecimento globais mais fragmentadas, elevassem os preços das importações, restringissem o fornecimento de matérias-primas essenciais e aumentassem as restrições de capacidade na economia da zona euro. "Uma redução mais lenta das pressões salariais poderá atrasar a queda da inflação dos serviços e um aumento das despesas com defesa e infraestruturas também poderá elevar a inflação no médio prazo", justificou.
Quanto a riscos climáticos, "as condições meteorológicas extremas e os eventos climáticos extremos, bem como a própria crise climática e ambiental agora em curso e de forma mais ampla, poderão fazer subir os preços dos alimentos mais do que o esperado."
Já sobre condições financeiras e monetárias, deu conta que as taxas de mercado aumentaram nos últimos dois meses. As taxas de empréstimo bancário às empresas têm-se mantido amplamente estáveis desde o verão, depois de terem caído em resposta aos nossos cortes na taxa de juro diretora nos anos anteriores. Em outubro, mantiveram-se nos 3,5%, inalteradas face a setembro. O custo de emissão de dívida baseada no mercado foi de 3,4%, também próximo do seu nível de setembro e a taxa de juro média para novas hipotecas manteve-se estável em 3,3% em outubro.
Já os empréstimos bancários às empresas cresceram 2,9% em termos homólogos em outubro, inalterados face a setembro. A emissão de obrigações de empresas aumentou 3,2%, também praticamente inalterada. O crédito à habitação fortaleceu para 2,8%, após o registo de 2,6% em setembro.
Face a este quadro, o Conselho de Governo considera que os bancos da área euro estão resilientes e apoiados por rácios de capital e liquidez fortes, mas a incerteza geopolítica e a possibilidade de uma reparação de preços nos mercados financeiros globais pairam como riscos para a estabilidade financeira na área euro e há que manter a política macroprudencial na primeira linha de defesa contra a construção de vulnerabilidades financeiras, garantiu Lagarde - "Não estamos em posição de determinar qual o caminho específico dos preços, mas estamos prontos a ajustar todos os nossos instrumentos dentro do nosso mandato para garantir que a inflação estabilize de forma sustentável no nosso objetivo de médio prazo, para preservar o funcionamento suave da transmissão da política monetária. "
Mesmo assim, a líder do BCE assegurou que, sobre taxas de referência "reconfirmamos que estamos num bom lugar, o que não significa que estamos estáticos. Houve uma decisão unânime tomada hoje, quanto à sua manutenção, mas também há uma visão unânime, de que todas as opções devem permanecer em cima da mesa."
Para a próxima reunião do Conselho de Governadores do BCE adianta que serão analisados dossiers como o relatório de supervisão, o monitor fiscal, a revisão dos instrumentos de suporte à decisão, para ir um pouco mais longe, numa altura em que existem algumas mudanças nas economias, com a chegada da IA - Inteligência Artificial e aumento da capacidade computacional em sectores como as telecomunicações, com impactos vários, incluindo no investimento adicional em capex intangível.
Para Lagarde o que surpreendeu nesta reta final do ano foi o comportamento das exportações, porque o BCE antecipava impactos nos últimos meses, após a decisão dos EUA sobre o aumento das tarifas e a resiliência reveladas pelas empresas, prometendo continuar atenta, para ver se é o crescimento sustentável, ou se haverá impactos negativos mais à frente - " uma coisa que não mudou muito é a incerteza e incerteza não é uma posição confortável para ninguém".
Há mais de um mês que anda a falar sobre o futuro sucessor de Christine Lagarde aos comandos do BCE, após a reunião do Eurogrupo que abriu o processo e definiu o calendário, mas esta quinta-feira confrontada com nomes como Isabel Schnabel e Joachim Nagel, assegura que "não tem nenhum candidato favorito, porque no sei entender existem muitos bons candidatos. Tenho a certeza que haverá mais no futuro, porque não?O que me deixa terrívelmente satisfeita, por, de certa forma, existirem tantas pessoas que querem vir a ter meu lugar e é um trabalho ótimo, por sentirmos que podemos afetar a vida das pessoas, ao conduzir as politicas da moeda única, agora sobre qual vai ser a nacionalidade do meu sucessor? Não tenho nada a dizer sobre isso. Será uma tarefa para o Conselho Europeu e uma decisão tomada, fora desta linda instituição que é o BCE."
Se acredita que os esforços dos EUA e UE vão resultar numa solução aceitável para pôr fim à guerra da Russia contra regime de Kiev e se os ativos russos não podem mesmo ser usados para a reconstrução da Ucrania. Lagarde assegura que há muito trabalho em curso, neste momento, mas que essa não é uma tarefa sob a alçada do Banco Central Europeu e caberá aos líderes decidir.
No entanto, a presidente do BCE face à importância da questão e do que está em causa, diz estar plenamente confiante de que encontrarão uma solução: "pode ser à maneira europeia habitual, dando voltas e mais voltas, consumindo tempo e gerando muita especulação sobre se funcionará, ou não funcionará, mas haverá uma maneira. Estou confiante de que encontrarão uma solução, porque é muito importante."
Já sobre a possibilidade da UE recorrer aos ativos russos congelados para financiar a reconstrução da Ucrânia, Lagarde sublinha que " somos uma região do mundo que se orgulha de respeitar o Estado de Direito, e esta é uma das características da nossa democracia. Estou certa de que haverão soluções que podem ser debatidas e discutidas, e há propostas em construção que podem vir a ser elaboradas. Não cabe ao Banco Central Europeu incentivar, ou apoiar um mecanismo, através do qual, seríamos obrigados a violar o artigo 123.º do tratado. Como sabem, o financiamento monetário não é permitido pelo tratado. Não podem esperar que eu valide antecipadamente um mecanismo que permita o financiamento monetário. Isto é bastante óbvio. "
Christine Lagarde terminou este encontro com jornalistas em Frankfurt, a desejar a determinação necessária para em 2026 fazer cumprir o seu mandato e atingir os seus objetivos, sendo que a primeira reunião do Conselho de Governadores do BCE no novo ano, está já marcada para 5 de Fevereiro.