A Vida do Dinheiro

"Compra da Media Capital pela Altice é má para a democracia"

O presidente executivo da Vodafone, Mário Vaz, não poupa críticas à intenção de compra da Media Capital pela Altice.

A Vodafone viu as receitas crescerem 4,2% no primeiro semestre (ano fiscal de abril a setembro) para 513 milhões de euros. O que explica estes resultados?

Explica que os clientes confiam na oferta da Vodafone, significa também que a nossa estratégia é correta. O resultado para o qual mais olhamos, até do crescimento das receitas de serviço, que é esse que vem substancializar a utilização dos serviços por parte dos nossos clientes, é que crescemos 5,7%. Isto claramente prova que era correta a estratégia de há cinco anos, quando iniciámos a nossa aposta na convergência, quando muitos acreditavam que a Vodafone ficaria fora do jogo e não teria capacidade de resposta. Hoje chegamos a 2,7 milhões de casas e empresas com fibra em Portugal, chegamos com 4G à esmagadora maioria da população portuguesa, com qualidade de serviço, com diferenciação de serviço, e os clientes reconhecem isso.

Há uma nova campanha de marketing da Vodafone. Qual o objetivo deste investimento?

É um investimento significativo, mas temos por prática não divulgar o valor que colocamos em cada uma das campanhas. É uma campanha expressiva, por isso se fala nela, porque tem tido bastante divulgação nos diferentes formatos. O momento em que fazemos esta alteração de posicionamento de marca é para tirar partido daquele que é o momento que atravessamos. Fala-se muito dos desafios do digital que aí vêm, fala-se muito dos medos e receios que podem advir das novas tecnologias. Aliás, há bem pouco tempo em Portugal tivemos um acontecimento de divulgação pública dos grandes temas da tecnologia e o que vai acontecer com a robotização e o big data, os riscos que isso pode ter para a sociedade. Nós que andamos cá há 25 anos e que passamos por várias etapas de evolução tecnológica somos otimistas. A mensagem que temos de passar é que o futuro é incrível. Por isso é que a tecnologia pode trazer benefícios para a sociedade, nas áreas da saúde, do entretenimento, da informação, da cultura e do incremento dos níveis de educação para todos, da democratização do acesso às fontes de informação. A tecnologia vai trazer desafios quando falamos sobre a força de trabalho, mas será diferente. Haverá novas oportunidades, outras formas de trabalhar. Vamos conviver com robôs em benefício da sociedade. Convidamos os clientes a estarem prontos para aqueles que são os bons desafios da tecnologia. Do nosso lado, investimos muito em tecnologia em favor dos clientes e dos serviços para os clientes. É um convite que fazemos, para se juntarem a nós nesta nova etapa, com otimismo.

Muito se tem falado da aposta nos conteúdos, tão defendida por alguns concorrentes. Essa aposta faz parte da estratégia da Vodafone ou não é por aí que quer ir?

A aposta nos conteúdos é, acima de tudo, garantir aos clientes que podem ver o que querem ver, onde querem ver. É para isso que investimos em tecnologia, em 4G, em fibra, em tecnologias do futuro. No móvel, há bem pouco tempo, experimentámos e já disponibilizamos velocidades muito significativas no 4G, a que chamamos 4,5G. Fomos a primeira operadora em Portugal a testar o 5G. Esta tecnologia de futuro e a fibra que temos em 2,7 milhões de casas, e que vamos chegar aos 4 milhões, fruto de um acordo [com a NOS] recente que anunciámos, é para garantir que os clientes têm a melhor tecnologia para verem aquilo que bem entenderem. Não defendemos que os clientes devem estar associados a um operador por ser ele o único que disponibiliza um conteúdo, não. O que defendemos é que os clientes devem estar associados pela qualidade dos serviços prestados, pela competitividade da sua oferta e pela capacidade de a tecnologia poder aceder aos conteúdos que bem entendem. Por isso defendemos a universalidade dos conteúdos desde sempre.

É o conceito Netflix?

A Vodafone foi o primeiro operador em Portugal a integrar o Netflix na sua box e no seu serviço de televisão, mais uma vez na ótica da simplificação da utilização do serviço. O cliente, com um só comando e sem necessidade de mudar a porta de entrada do sinal da sua televisão, consegue aceder ao Netflix. O Netflix é o que se chama o OTT, que é um conteúdo que está por cima da conectividade da internet, por isso qualquer cliente em Portugal pode ter acesso à Netflix. Se for cliente Vodafone TV tem o benefício adicional de isso estar integrado no seu serviço. ...

A Vodafone tem dito que os conteúdos não são estratégicos, ao contrário de outros concorrentes. Há uns tempos, a Vodafone dizia que a rede fixa não era estratégica e agora já é. Pode sofrer alterações a estratégia que tem ao nível dos conteúdos?

Na Vodafone, como um todo, a sua afirmação é correta. A Vodafone entendia que o negócio fixo não era prioritário. A Vodafone Portugal, e mesmo nos tempos da Telecel, sempre defendeu que o fixo era estratégico. Fomos o operador que aproveitou a liberalização do negócio fixo para entrarmos. Lançámos o Netcetera, onde voámos onde outros navegavam. Sempre entendemos que o fixo tinha um papel nas famílias e nas empresas. Sempre foi estratégico, mas uma estratégia diferente da que foi adotada por outros, no sentido da convergência, de utilizar o fixo como elemento de pressão para retirar papel relevante da Vodafone no mercado e para descontar a oferta móvel. Desse ponto de vista, a nossa visão do fixo era diferente: era de convergência, de benefício para o cliente, mas na vertente de convergência de serviços e não apenas de um mero desconto de pacote.

A estratégia dos conteúdos não terá nenhuma alteração?

A nossa estratégia hoje é esta e sempre foi nos conteúdos, não mudamos aqui nada e continuamos a defender que a estratégia é de liberdade de escolha dos clientes e de universalidade de acesso. Dependendo do contexto, se formos obrigados a tomar uma outra decisão, tomaremos, mas não é por nossa vontade que o faremos.

"Se forem obrigados." Isso tem que ver com a atual circunstância de a Altice estar a tentar comprar a Media Capital e isso poder obrigar a Vodafone a mudar de estratégia?

A posição da Vodafone é muito clara sobre o negócio da Media Capital, já que o traz aqui à mesa. Aliás, não poderia deixar de ser porque é um tema de atualidade. A posição da Vodafone é conhecida: é mau para o país porque é mau para o setor das telecomunicações, é mau para a democracia, é mau para a pluralidade dos órgãos de informação. Para nós o tema está resolvido porque a decisão está tomada e é não avançar. Há dois reguladores que já tomaram uma decisão, alinhada com a nossa visão, felizmente e ainda bem para o país. Por um lado foi a Anacom, cuja decisão não tem caráter vinculativo, e a ERC. No caso da ERC, a nossa visão é clara: é uma decisão válida e vinculativa. A ERC, ao contrário de outros reguladores, tem o conforto da sua presença na nossa Constituição, é obrigada a tomar decisões. Do ponto de vista legislativo, a verdade é que uma decisão qualificada de maioria é aquela que é exigida para a ERC, os três membros em exercício estiveram na reunião e dois deles votaram contra a aquisição. Para nós esta decisão é válida. Bem sei que há uma visão que diz que era exigida unanimidade. A unanimidade, a nosso ver, não é constitucionalmente aceite para esta decisão e ela tem de ser a decisão da maioria, fosse ela relativa. Mas mesmo se entendermos que teria de ser maioria qualificada, dois em três é qualificada. A decisão existe, está tomada, é válida e tem caráter vinculativo. Neste momento a decisão está chumbada.

O que espera da decisão da Autoridade da Concorrência (AdC)?

Na nossa visão nem haveria já necessidade de intervenção da Autoridade da Concorrência. A decisão da ERC é vinculativa, porque a Constituição impõe que a ERC tem de intervir em tudo o que tenha que ver com a comunicação social.

Alguém não está a cumprir a lei?

A AdC tem de se pronunciar. Pode ter uma leitura diferente da nossa. Estou a dar a nossa visão. A Autoridade da Concorrência pode ter uma leitura diferente, pode considerar que não tem necessidade de decidir, porque a decisão da ERC é vinculativa. Na nossa ótica era dispensável a intervenção da Autoridade da Concorrência, porque a decisão já está tomada. Mesmo assim, estou plenamente confiante, pelas duas decisões já tomadas, que não tem outro caminho senão subscrever a decisão dos dois anteriores órgãos.

E não admite ser surpreendido?

Acredito que os reguladores não são passíveis de influência política, são independentes. Já estamos a jogar no campo teórico porque para mim a decisão está tomada, mas nada me surpreenderia que houvesse uma decisão contrária. Se ela vier a ser tomada pela Autoridade da Concorrência, como digo sem prejuízo de medidas que possamos tomar, surpreender-me-ia que fosse contrária a esta, porque os efeitos são muito nefastos. Percebo e já li alguns comentários de que aqueles que mais se opõem têm interesses nessa oposição. Porque estão a defender o seu negócio...

É disso que o acusam?

Já li que os que aparecem a emitir uma opinião contrária a esta aquisição o fazem na defesa do seu interesse, do seu negócio, e isso não pode ser visto dessa forma. É preciso desligar e olhar para os factos. Ainda agora estamos a ver nos EUA a decisão do Departamento de Justiça sobre a aquisição da AT&T com a fusão de um produto de conteúdos, onde a decisão foi de desinvestimento, não foi de remédios comportamentais, que é o que se defende como possibilidade. Já se viu que na administração Obama houve uma aprovação de uma aquisição deste género com comportamentos que não resultaram, e por isso muitos produtores de pequena escala estão a queixar-se do que isso significou para eles. Sempre dissemos que remédios não são solução, porque o potencial de furar os remédios é muito elevado neste campo. Tem de ser uma aprovação sujeita a remédios estruturais. Isto só para dar um exemplo. Em Portugal, diria que é muito perigoso porque significaria que os clientes deixariam de ter liberdade de escolha. O cliente que quiser ver o conteúdo que hoje é líder de audiências naquele que é o operador líder em termos de clientes vê-se obrigado a estar com esse operador independentemente da qualidade do serviço; é pelo conteúdo e isso não faz qualquer sentido. Põe em risco o investimento que é crucial para o desenvolvimento do país. Do ponto de vista da pluralidade dos órgãos de informação, é mais do que evidente, e não vou repetir as respostas que foram dadas nos pareceres da ERC e da Anacom. Tudo o que tenha que ver com órgãos de comunicação social tem que ver com a democracia. Que democracia queremos, que poder queremos com o controlo dos órgãos de comunicação social? Vários senadores escreveram, a propósito deste tema, da necessidade de evitar que uma entidade com significativo poder económico controlasse de forma tão expressiva órgãos de comunicação social.

A entrevista a Mário Vaz vai para o ar este sábado, às 13h, na TSF. É também publicada na edição em papel do Dinheiro Vivo deste sábado, que sai com o Diário de Notícias e com o Jornal de Notícias.

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