imobiliário

Os "abutres" descobriram as casas portuguesas

Os fundos de investimento internacional (conhecidos como "abutres") estão a tomar conta do mercado da habitação em Portugal.

Esta é uma das conclusões do 4º Relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas que é apresentado esta terça-feira em Lisboa. Na análise que o grupo de investigadores do Centro de Estudos Sociais (CES) faz à "questão da habitação", fica a ideia de que existe uma procura transnacional dirigida ao imobiliário português.

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O coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas, José Reis, revela à TSF que existem novas questões descobertas pelos investigadores.

"A principal questão nova é que, nos últimos tempos, a habitação está também a tornar-se num ativo financeiro", explica José Reis.

Assim, foi identificada a presença de novos atores, como é o caso dos fundos de investimento, e estes fundos associados à procura internacional transformam o perfil de um mercado até agora assente na procura de habitação própria com acesso ao crédito.

O relatório diz mesmo que "a habitação vem sendo assim transformada num ativo financeiro transacionável, permitindo que agentes de uma qualquer parte extraiam as rendas fundiárias associadas, não necessitando de manter com o país qualquer tipo de ligação relacional de longo prazo, ao mesmo tempo que os rendimentos dos seus residentes se tornam cada vez mais insuficientes para satisfazer esta necessidade fundamental".

Os últimos dados da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) são ilustrativos deste movimento. "Em junho de 2018, estavam ativos 108 fundos de investimento imobiliário (FII), 95 fundos especiais de investimento imobiliário (FEII), três fundos de gestão de património imobiliário (FUNGEPI), e 11 fundos de investimento imobiliário de arrendamento habitacional (FIIAH), que geriam um valor global de cerca de 11 milhões de euros. A Interfundos (14,7%), a Norfin (11,8%) e a GNB (9,8%) detinham as quotas de mercado mais elevadas".

Para o investigador José Reis, esta nova realidade vem mesmo alterar as relações que estão instaladas. "Por exemplo, a tradicional relação entre senhorio e inquilino, que era uma relação cara a cara, provavelmente vai ser muito influenciada por esta presença" dos fundos imobiliários - o que acarreta riscos.

José Reis sublinha que, "em pouco tempo, o preço da habitação em Portugal subiu 38%, o que quer dizer que é razoável pensarmos que possamos estar a ver uma bolha imobiliária a formar-se", o que pode trazer problema ligados à exposição bancária, mas, também, à desvalorização do património das pessoas.

Por fim, o estudo sugere utilizar a política de habitação como um fator de povoamento do país. "O país afluente, que coexiste com um país em esforço, onde subsiste capacidade produtiva, e com um país em perda, marcado por intensa regressão demográfica e produtiva."

Daí que, para José Reis, se tenha que pensar "no país inteiro - e não apenas na dinâmica lisboeta".

O 4.º Relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas, intitulado "A nova questão da habitação em Portugal analisa a evolução recente da habitação em Portugal", é apresentado esta terça-feira, às 17h00, na Fundação Calouste Gulbenkian.

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