Ricardo Salgado diz que não sacudiu água do capote. Seria "inumano" centralizar tudo

Quase cinco anos depois do colapso do BES, Ricardo Salgado conta à TSF como viveu o impacto com a justiça, a resolução do banco e a prisão domiciliária.

A culpa disto tudo é do Banco de Portugal, pelo menos é essa a convicção de Ricardo Salgado. Quase cinco anos depois do colapso do BES, o banqueiro continua a defender que a resolução foi um erro colossal, com motivações políticas. Assume que cometeu erros de julgamento, mas não de princípio. "Eu?! Centralizar tudo? É completamente impensável", garante, em entrevista à TSF.

Como foi o último dia que passou no Banco?

Foi muito mau. Foi no dia 13 de julho, num fim de semana. Estava o banco numa situação muito difícil, havia uma enorme fuga de depósitos. No dia 12 enviei uma carta ao senhor governador do Banco de Portugal a propor-lhe medidas de emergência, na sequência de outras que já tinha proposto antes. Tive que sair, naturalmente. Era o que estava combinado, num processo inicialmente estabelecido de sucessão normal, sem acidentes. Fui para casa e estive à espera de ver evoluir a situação.

Não estava ninguém no banco?

Havia equipas a trabalhar nas medidas de emergência.

Foi um dia emocionalmente complicado para si?

As emoções já tinham começado antes, com o processo de sucessão ordenado, que foi desordenado pelo Banco de Portugal. Cheguei a propor o nome de três membros da Comissão Executiva: o Amílcar Morais Pires, Ana Rita Barrosa e Isabel Almeida. Inicialmente, por aquilo que o Governador me disse, estavam aceites, para se ter que, de repente, encontrar uma alternativa, imposta pelo Governador. Foi convidado o Victor Bento, que o Moreira Rato e o Honório. Essas três pessoas, por mais ilustres e com qualificações profissionais, não conheciam o Banco Espírito Santo. Caíram no banco de paraquedas. Victor Bento é reconhecidamente um grande economista, mas, não era um banqueiro.

Este é um verão que o expõe a situações em que nunca se tinha visto. Como viveu o primeiro confronto com a Justiça?

O primeiro confronto com a justiça foi em 2011. Por motu proprio pedi ao Procurador Rosário Teixeira para me receber, para lhe explicar o que tinha acontecido com a liberalidade do José Guilherme e uma situação bancária na Suíça complicada, que deu origem, depois, a investigações. Dei as explicações que tinha que dar ao senhor Procurador e acredito que ele ficou satisfeito porque saí de lá na condição de testemunha.

Mais tarde, em julho de 2014, é, pela primeira vez, detido para interrogatório. Como é que foi ver-se naquela situação?

É muito difícil, mas, oiça, eu tive muitas experiências difíceis na vida. É bom recordar que em março de 1975 a banca foi nacionalizada. Houve prisões. Eu não fui preso. Ainda fiquei, até ao fim de abril, a trabalhar no banco, já nacionalizado. Procurei ajudar a resolver os problemas dos meus familiares que estavam detidos, mas não consegui. E então ausentei-me do país com a minha família. Tive uma filha que teve uma ameaça de rapto. Momentos difíceis na vida tive vários. Esse foi particularmente [difícil] atendendo ao impacto mediático que teve e que depois continuou.

E também devido às suspeitas que levantava sobre si.

Sim, senhora. Sempre procurei, quando fui interrogado, colaborar com a justiça. A última vez que me pediram para ir depor foi no processo dos CMECs e da EDP. Foi a primeira vez que eu disse que, em função daquilo que tinha acontecido com o meu depoimento no caso Marquês, não iria responder. Tinha esse direito de ficar calado. Porque o meu depoimento foi gravado e passado nos meios mediáticos, quase como uma novela. Achei isso um escândalo que rompia todos os princípios de equidade.

Tem hoje uma visão mais crítica do sistema judicial português?

Ai, não vou fazer comentários. Eu sempre disse que acreditava na Justiça, e continuo a dizer. Mas temos todos assistido às vicissitudes que o sistema judicial tem evoluído.

Foi apanhado de surpresa pela resolução?

Enquanto estive no banco, até 13 de julho, nunca se tinha falado em resolução alguma. Apareceu como um balde de água fria, de repente. Havia outras soluções para salvar o Banco Espírito Santo. Uma das coisas que me leva a pensar que não houve vontade política foi o facto de o senhor Governador e o Banco de Portugal terem recusado três hipóteses de recapitalização do banco. É preciso ter em conta que quando começam fugas de depósitos é uma quebra brutal de confiança numa instituição financeira. E só há outra forma de corrigir isso: injetar confiança. Era preciso haver um novo aumento de capital. Já com a nova administração, chegámos ao fim de julho e foram dadas 48 horas para que se apresentasse um programa, que incluiria um novo aumento de capital, que era completamente impossível. Havia uma pressão enorme para uma solução que acabasse com o Banco Espírito Santo.

Qual seria o interesse do Banco de Portugal em fazer isso?

Isso eu não sei. Não faço ideia de qual era o interesse. Mas o que lhe posso dizer é que a resolução foi um erro monumental. Um erro gravíssimo. Porque não há memória de ter havido outras resoluções de bancos com o peso que o Banco Espírito Santo tinha na economia nacional. As resoluções foram aplicadas a pequeníssimos bancos na Grécia e em Itália.

E aqui ao Banif.

Veja, ainda hoje há um problema que parece complicado, na Alemanha e estão a falar da fusão do Deutsche Bank com o Commerzbank. Em Espanha, o Banco Popular foi adquirido pelo Banco Santander e, não houve resolução. E noutros países. O caso mais semelhante, em termos da dimensão e do peso sistémico na economia de um país, em relação ao Banco Espírito Santo, foi o Monte di Paschi na Itália, em que se chegou a falar de resolução, mas o governo italiano da altura fugiu dela como o diabo da cruz. Foi recapitalizado pelo Estado. Portanto, não vejo qual foi a motivação que levou a aplicar uma resolução.

Terá pesado nisso o fato de já haver o caso BPN atrás?

Não lhe sei dizer. Mas a comparação do BPN com o Banco Espírito Santo não tem nada a ver. O Banco Espírito Santo tinha 20% do mercado português, em média. Tinha dois milhões de clientes. O BPN era um banco virado para operações imobiliárias, e portanto, num setor muito restrito e especializado. O Banco Espírito Santo era o maior banco de empresas em Portugal. Cerca de 73% da carteira de créditos estava destinada às empresas. A quota média de mercado nas PME, que representam cerca de 90% do emprego do país, era 67%.

Aponta sempre responsabilidade ao Banco de Portugal e, concretamente, ao Governador. Qual é a parte da responsabilidade que cabe à equipa de gestão do BES e do GES?

Não sacudi a água do capote e quando fui à Comissão Parlamentar de Inquérito, disse com certeza que houve erros que foram praticados, 22 anos sem qualquer erro é impossível. Mas erros que, quanto a mim, considero de julgamento. Não são erros de princípios. Houve escolhas de quadros que foram ocupar posições importantes, que provavelmente foram erradas. Provavelmente não, hoje em dia tenho a certeza de que foram erradas, nomeadamente aqueles que foram para Angola.

Está a falar de Álvaro Sobrinho?

Sim, sim. E não só. O [Hélder] Bataglia, também. Aliás, foi o Bataglia que propôs o Álvaro Sobrinho para vir trabalhar para Angola, como presidente do banco. Mas houve outras coisas que se passaram e que configuram erros de julgamento.

Lendo as suas declarações, tanto na Comissão Parlamentar de Inquérito como em declarações públicas e entrevistas que foi dando, fica a ideia de que para cada um dos dossiês mais complexos o senhor consegue eleger um responsável. Que parte da responsabilidade foi sua?

Peço que não interpretem isso como uma fuga à responsabilidade. Porque eu era o presidente da Comissão Executiva do banco, coordenava a Comissão Executiva, que tinha 10 membros, três [dos quais] do grupo Espírito Santo: o doutor Manuel Espírito Santo, o José Maria Ricciardi e eu. Os outros eram profissionais independentes. Alguns que já lá estavam quando o banco foi reprivatizado. E havia 22 membros do Conselho de Administração, entre os quais cinco do Crédit Agricole. O Crédit Agricole é um dos maiores bancos do mundo. Essa imagem que quiseram fazer passar, de que aquilo era um grupo de bandidos à solta, é uma imagem completamente inconcebível. Como é que alguém poderia pensar que um banco com a dimensão do Crédit Agricole poderia aceitar ficar os 22 anos no Banco Espírito Santo tendo conhecimento de práticas irregulares? Isso foi uma ficção.

Portanto, quando na Comissão de Inquérito ouvimos alguns dos seus colaboradores mais próximos e alguns membros da sua família dizer que era o doutor que concentrava toda a informação e que as outras pessoas não sabiam de nada, isso é errado?

Isso é totalmente impensável. Basta ler as atas da Comissão Executiva, está lá tudo. E o Banco de Portugal tinha acesso às atas todas. Eu, centralizar tudo? É completamente impensável, é inumano. Uma pessoa não pode, ainda por cima um banco daquela dimensão, ser responsável por aquilo que me atribuíram. Sou responsável, sim, pela coordenação da Comissão Executiva. Depois, aqueles que estavam desconfortáveis com a situação também me atiraram...

Está a falar de quem?

Não vou falar de nomes, se não se importa. Atiraram-me - são conhecidos, porque já tem vindo nos jornais - a responsabilidade da área não financeira. O que é uma coisa inqualificável.

De um momento para o outro, o maior banqueiro do país vê-se na condição de arguido em quatro processos judiciais e com outros cinco no Tribunal da Supervisão. Que mudanças é que isto causou na sua vida?

Causou mudanças abruptas, porque tenho que mergulhar nos processos de defesa. Tive que passar a dedicar as minhas horas de trabalho à analise jurídica.

O que é que mudou na sua rotina diária, quando saiu do banco?

Continuo a trabalhar intensamente na minha defesa. Estou a escrever as minhas memórias.

Eram para estar prontas no ano passado.

Sim, mas, como estão sempre a suceder factos novos, que me obrigam a reler outras matérias. Ficarão para mais tarde, mas hão de aparecer. Não são sobre a atividade bancária, são sobre a minha vida. Começam no dia em que nasci. Como me foram oferecidos três jornais desse dia - o Herald Tribune, o Times de Londres, e o Diário de Notícias - quis começar a partir daí para relatar o que se passava no mundo naquela altura.

Quando esteve em prisão domiciliária como era o seu dia a dia?

O impacto foi horrível. Mas, ficando preso em casa sempre é mais confortável. Tinha que me apresentar regularmente. Quando estava em Cascais na polícia de Cascais, quando estava na Comporta na polícia na Comporta. Fui sempre tratado impecavelmente e com respeito. Muitos amigos me vieram visitar. Tive demonstrações de amizades extraordinárias.

Desapareceram muitos?

Não, não desapareceram, mas, de facto, quando uma pessoa entra numa situação destas, não é confortável para as outras pessoas e amigos. Ajudaram-me muito as visitas que fui tendo, dos meus amigos verdadeiros.

Quem é que o visitou sempre?

Isso, se não se importa, vai ficar para as minhas memórias.

Uma parte significativa dos seus bens está arrestada. Na gestão do dia a dia isso tem influência?

Começa logo por ter uma influência psicológica brutal. É terrível quando uma pessoa é completamente arrestada. Até a pensão foi arrestada. Mas eu continuo a lutar para provar a bondade do meu comportamento e espero que [a situação] se possa vir a resolver no futuro.

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