Economia

"Se os italianos querem seguir o exemplo português, que olhem para os números"

Em entrevista à TSF, o Comissário Europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici, fala sobre Portugal, Itália e o futuro do Euro.

O presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças português convidou os Estados-membros a apresentarem medidas adicionais para lidarem com os riscos identificados pela Comissão Europeia, mas a verdade é que Portugal é um dos cinco países em risco. Está satisfeito com o Orçamento português?

Em primeiro lugar há notícias muito boas na economia portuguesa. O crescimento ainda é muito sólido e o desemprego diminuiu 10 pontos em relação ao pico da crise, e o défice está abaixo de 1%. São bons resultados e é preciso cumprimentar as autoridades e o povo portugueses. Fico muito feliz que este país que sofreu tanto com a crise esteja agora a crescer. No Orçamento identificámos uma diferença no esforço estrutural entre as nossas estimativas e a do governo português. Parece-nos um pouco insuficiente, eles dizem que é melhor. Teremos de olhar para a execução do orçamento. O risco não está confirmado, e precisamos de verificar isso juntos. Tenho de dizer que nos anos recentes não é a primeira vez que tivemos esse tipo de risco e fomos sempre desmentidos pela realidade. O meu amigo António Costa gosta muito de tweetar que estava certo contra a Comissão, e desejo-lhe, e a Portugal, que ele possa tweetar isso outra vez.

Está preocupado com o lado da despesa estrutural do Orçamento português?

Temos várias estimativas, mas francamente não estou muito preocupado. Confio na força da economia portuguesa e em finanças públicas saudáveis, mas o nosso papel é dizer que nas nossas estimativas não é suficiente.

Qual é o principal risco?

O risco é o de não respeitar as regras sobre o défice estrutural, mas claro que quando olhamos para o défice nominal a margem é enorme: o limite é 3% e Portugal está abaixo de 1%, por isso não há risco de procedimentos nem de uma crise. O risco é mínimo, mas temos de sublinhá-lo.

Está a falar de Portugal quase como sendo um exemplo para outros estados-membros. É assim mesmo?

Julgo que sim, porque se olharmos para a crise em Portugal há alguns anos, e para os esforços feitos durante o resgate, a saída do resgate, vemos que se fizermos as escolhas políticas certas, podemos ao mesmo tempo estar dentro do enquadramento europeu e liderar políticas boas para o crescimento e a inclusão social. Não falo em exemplo porque um exemplo é algo que se pode imitar, e cada país tem o seu modelo. Não acredito que haja um modelo que seja bom para todos os países. Mas o facto é que é um sucesso, há um caminho português que até agora é um sucesso. Espero que isto continue. E é também por isso que temos de identificar riscos, não para haver sanções, ou entrar num novo programa - isso está fora de questão -, mas para dizer que temos de continuar este caminho de sucesso, que é o das políticas orçamentais saudáveis mas que ao mesmo tempo são pró-crescimento e inclusão social.

E é um exemplo que pode ser mostrado a Itália?

Para aqueles que em Itália acreditam que Portugal é o exemplo a seguir, ok, porque não? Mas também devem lembrar-se que o défice português está a cair, está bem abaixo de 1%. A dívida portuguesa caiu 10 pontos nos últimos anos, enquanto a italiana, na melhor das hipóteses está estável. Por isso, se os italianos querem seguir o exemplo português, peço que olhem para os números, reduzam o défice e a dívida, e ao mesmo tempo tomem medidas pró-crescimento e pró-inclusão. Isto não é impossível. Mas neste momento não parece ser o que os italianos estão fazer.

Leia aqui a segunda parte da entrevista:

- "Quero evitar uma crise entre a União Europeia e Itália. Seria absurdo"

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