A noite dos sorrisos rasgados e do "apelo ao diálogo no exercício da governação"

José Sena Goulão/Lusa
Numa noite longa, mas sem direito a reações eufóricas por parte dos principais responsáveis da coligação de direita, "Portugal!" foi a palavra de ordem que mais se ouviu no "quartel general" onde marcaram presença vários membros do governo.
A desejada maioria absoluta esteve na calha e a possibilidade de a obter era comentada nos corredores, mas o objetivo da coligação acabou por não ser alcançado.
Interrompido várias vezes por aplausos bem sonoros, mantendo um sorriso discreto mas indesmentível, Pedro Passos Coelho concluiu o discurso de vitória (que não teve direito a perguntas dos jornalistas) adiantando que aguardam o país - e a coligação - "tempos desafiantes", cuja tarefa mais urgente é a dotação de um Orçamento do Estado para Portugal.
No decurso da noite, falava-se nos corredores da possibilidade de PSD e CDS-PP alcançarem a maioria absoluta, mas, como esse cenário não se veio a confirmar, ministros, secretários de estado e dirigentes políticos optaram por não falar depois de Passos Coelho. A máxima de Paulo Portas parecia ter pegado: "amanhã (5 de outubro) é dia de trabalho. Lá estaremos a trabalhar!".
A noite em que a coligação PSD/CDS-PP festejou a vitória nas eleições legislativas foi vivida num hotel no centro de Lisboa com muito entusiasmo e promessas para o futuro. Na declaração de encerramento da festa azul e laranja, Pedro Passos Coelho defendeu que "a maioria seria a forma mais segura de governar", mas garantiu que a coligação vai "respeitar a vontade dos portugueses" e "procurar o diálogo no exercício da governação", num claro desafio ao PS.
"Tomarei a iniciativa de contactar o PS para procurar os entendimentos indispensáveis para fazer reformas importantes e estruturais", disse Passos Coelho, referindo em particular a reforma da Segurança Social.
O líder do PSD anunciou que, nos próximos dias, os órgãos dos dois partidos vão formalizar um acordo de governo e que ele próprio comunicará ao presidente da República que está "disponível para formar governo". O líder da coligação adiantou ter "a expectativa" de que o Partido Socialista "estará disponível" para possibilitar essas "reformas importantes" no quadro da União Europeia.
Na mesma linha, Paulo Portas defendeu que "sem maioria absoluta", "a coligação vai manter espírito responsável de abertura e compromisso" que tem caracterizado o seu percurso, sublinhando, no entanto, que o PS sofreu "uma derrota inabalável".
"Não é possível transformar uma derrota nas urnas numa vitória de secretaria", sublinhou depois, num aviso claro ao partido liderado por António Costa, acrescentando: "o povo falou, saberemos certamente honrar o que o povo disse".
Portas lembrou que a "larga maioria do parlamento é formada pelos partidos do arco da governabilidade" e que estando o CDS "em condições de por si só ou em ex aequo" ser o terceiro grupo parlamentar, concluindo que "não vale a pena apelar a qualquer insurreição". Numa clara alusão ao Bloco de Esquerda e ao PCP, Portas recusa, como fez durante toda a campanha, qualquer "cedência ao radicalismo".