"Precisamos de confiança para mudar a atmosfera política da Europa"

Satisfeita com o debate que juntou em Bruxelas os candidatos à presidência da Comissão Europeia, a mulher que aplicou multas astronómicas à Google e Apple e inspirou a série televisiva Borgen, fala com a TSF e aposta numa Europa onde a igualdade de género seja real: "Mostrar a mudança faz a mudança".

É uma das mulheres mais poderosas da política europeia. É Comissária Europeia da Concorrência. Só de ouvirem o seu nome, as empresas gigantes tecnológicas começam logo a fazer contas, tal tem sido a dimensão (aos vários mil milhões) das multas que tem aplicado às práticas anticoncorrenciais de algumas empresas, nomeadamente norte-americanas, a atuar em território europeu.

Acredita que além da importância de terem abordado assuntos com a substância e importância do desemprego jovem e a luta contra as alterações climáticas, o ultimo debate entre os candidatos ao lugar de Jean Claude Juncker mostrou que "a União Europeia é um lugar onde as pessoas trabalham juntas; e isso é um dado muito importante, porque com todos os desafios que temos pela frente, se não trabalharmos em conjunto, não os resolveremos". Vestager assinala também o facto de o debate organizado pelo Parlamento Europeu ter mostrado "força, confiança, um sinal de que estamos a construir algo para mudar a atmosfera política da Europa. Precisamos dessa confiança".

Para a antiga vice-primeira-ministra da Dinamarca, a questão das políticas levadas a cabo contra o abuso de posição e práticas desleais dos gigantes tecnológicos, não pode ser dissociada das eleições da próxima semana: "as eleições desempenham aqui um papel muito importante. Isto está no centro das preocupações de muita gente. Porque não é justo. Se trabalhas no teu negócio, se como toda a gente lutas para conseguir ter lucros, pagas os teus impostos e depois vês o teu concorrente a aumentar capital, a contratar os quadros mais qualificados, a competir pelos mesmos clientes e a não pagar sequer metade dos impostos que tu pagas. Isto diz respeito ás eleições nacionais em cada país e os políticos querem este impulso para resolver as coisas. Eu penso que é absolutamente legítimo que os países, individualmente, tenham o seu próprio sistema fiscal, na ausência de uma solução europeia. Mas o impulso para uma solução europeia está em cima da mesa, que, por sua vez, pode impulsionar uma solução global que, obviamente, será o melhor".

Questionada pela TSF sobre o seu nível de europeísmo e se ele se alimenta e reforça com as pesadas multas que aprova contra os gigantes tecnológicos, Margarethe Vestager fica largos segundos em silêncio antes de admitir: "Não lhe sei responder a essa pergunta". Mas, após mais uma pausa, explica: "O que sei é que temos tantas startups na Europa, há tanta gente com ambição e ótimas ideias, que criam empresas e lutam opara entrar no mercado. Quando aplicamos multas a quem faz concorrência desleal e lhes dizemos para pararem com esse tipo de comportamento ilegal, estamos a criar condições e espaço para que todas as empresas possam, de um modo justo, ter um espaço no mercado. E isso é muito importante, porque a Europa é um ambiente de pequenas e médias empresas que criam emprego, pagam os seus impostos e apresentam ótimas ideias".

A poderosa política da Aliança dos Liberais e Democratas (ALDE, grupo do qual faz parte atualmente o eurodeputado António Marinho e Pinto mas que, na propaganda oficial para as Europeias, de Portugal apenas refere Ricardo Arroja, da Iniciativa Liberal), confia num bom resultado eleitoral: "há muita ambição", além de "muitas ideias em comum e muita familiaridade" com o Republique En Marche de Emmanuel Macron, com quem contam para reforçar o peso da terceira maior família política em Bruxelas/Estrasburgo. Mas também reconhece que na próxima legislatura "as coisas vão mudar, o grupo ALDE também vai mudar para algo distinto, para mim é positivo que possamos incluir outros grupos, o que também reflete que de alguma forma possamos ter uma perspetiva diferente sobre alguns assuntos, em relação á que tínhamos anteriormente". Foi notória, por exemplo, a proximidade de posições entre Liberais, Verdes e Socialistas europeus, no debate de quarta-feira, sobre o combate às alterações climáticas. Apesar de admitir que as prioridades da próxima Comissão Europeia "vão ser muitas", Vestager diz à TSF que "a primeira coisa a fazer é mostrar que somos diferentes e ter uma Comissão completamente paritária em matéria de género e que os cargos mais elevados sejam atribuídos tanto a homens como a mulheres e penso que isso é muito importante porque se mostrarmos mudança, estamos a fazer mudança".

*Diretor Adjunto e Editor de política Internacional da TSF.

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