Os russos dizem que Vénus lhes pertence. Tudo por causa do que aconteceu há 50 anos
Venera 7

Os russos dizem que Vénus lhes pertence. Tudo por causa do que aconteceu há 50 anos

Se os primeiros a chegar a um planeta pudessem declará-lo seu, tal como os conquistadores da circum-navegação quando descobriam o Novo Mundo, Vénus seria soviético.

Para o diretor-geral da Roscosmos, a Agência Espacial Russa, é mesmo assim. "Vénus é um planeta russo", disse em setembro Dmitry Rogozin, à margem de uma exposição de helicópteros, em Moscovo. "O nosso país foi o primeiro, e o único, a pousar com sucesso em Vénus."

Foi neste dia há 50 anos, após quase uma década de tentativas falhadas. A 15 de dezembro de 1970 a soviética Venera 7 tornou-se a primeira sonda a chegar à superfície de outro planeta, em plena corrida ao Espaço.

Não, os russos não podem reclamar um planeta como seu só porque chegaram lá primeiro, diz à TSF Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. "Quando embarcamos numa aventura destas é em nome do conhecimento humano, não em nome da colonização."

O nosso vizinho planetário mais próximo era a meta dos soviéticos desde 1961 - a data que marca o lançamento da Venera 1 (Vénus em russo), sonda que nem sequer conseguiu deixar a órbita da Terra.

A Venera 2 passou ao lado de Vénus e desapareceu sem deixar rasto depois de ter sobreaquecido, enquanto a Venera 3 renovou a esperança dos soviéticos: conseguiu penetrar a atmosfera, mas despenhou-se contra o solo rochoso do planeta no dia 1 de março de 1966. Podia a ter sido a primeira a conquistar Vénus, se tivesse chegado inteira.

Em russo, à sétima é de vez

Antes de voltar a arriscar uma aterragem era preciso estudar as complexidades da atmosfera venusiana, cem vezes mais densa do que a da Terra. Era esta a única missão da Venera 4 que, em 1967, detetou a presença de dióxido de carbono na aproximação ao planeta.

Tanto a Venera 5 (em 1968) como a Venera 6 (em 1969) enviaram também dados sobre a composição da atmosfera de Vénus, que parecia cada vez mais propícia à existência de vida, mas só a 15 de dezembro de 1970 os soviéticos puderam clamar vitória.

Com a Venera 7, os responsáveis pelo programa espacial soviético quiseram corrigir os erros cometidos na primeira tentativa de aterragem e apostaram em reforçar a estrutura da sonda, com um design mais moderno - sem costuras, soldas ou fendas - capaz de resistir a temperatura e pressão elevadas.

A viagem para o planeta vizinho, entre 17 de agosto e 15 de dezembro de 1970, decorreu sem sobressaltos, assim como a difícil entrada na atmosfera. E quando parecia que tudo ia correr como planeado, o paraquedas rompeu-se e a sonda de 490 quilos caiu na superfície de Vénus com mais força do que o suposto, a 61 quilómetros por hora.

Ainda assim, graças ao revestimento de titânio e materiais desenhados para absorver o impacto, a Venera 7 resistiu à queda e fez história: pousou com estrondo, mas antes dela nenhum objeto criado pelo Homem chegou a outro planeta e sobreviveu para contar a história.

"O nosso gémeo terrível"

Apesar de com um sinal mais fraco do que na descida, durante 23 minutos, a Venera 7 conseguiu enviar para a Terra medições à superfície que retratavam um mundo mais hostil do que se calculava. A temperatura do solo era de 475 graus Celsius e a pressão de 92 bares (o equivalente à registada a quase um quilómetro de profundidade debaixo de água). Apenas o vento parecia soprar ameno, a nove quilómetros por hora.

Informações que ainda são úteis meio século depois. "Confesso que ainda hoje uso os dados dessa missão", conta à TSF o professor do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço Pedro Machado, especialista em Vénus, que nos últimos anos tem vindo a colaborar com a equipa da Agência Espacial Japonesa responsável pelo satélite Akatsuki, o único que se mantém na órbita de Vénus. "São dados inestimáveis (...) de uma raridade incrível."

Por ser um planeta telúrico, semelhante quanto ao tamanho, massa e composição da Terra, havia grandes esperanças que Vénus fosse uma espécie de "irmão". Graças à Venera 7, os soviéticos descobriram que estava longe disso.

Se é um irmão, é como se fosse "o nosso gémeo terrível", uma verdadeira "incineradora", explica Pedro Machado. O planeta nomeado em homenagem à deusa romana do amor e da beleza, aquele que é objeto mais brilhante do céu noturno depois da Lua, revelava-se, afinal, um "inferno". Assim o descrevia o famoso astrofísico Carl Sagan, com base nas descobertas das missões Venera.

Antes, os cientistas imaginavam Vénus "como uma espécie de paraíso no cosmos" e na ficção científica das décadas de 1950 e 1960 "surgia com florestas equatoriais, praias lindíssimas e pessoas vestidas com muito pouca roupa".

"Este sonho de idílio caiu com a realidade" por causa das missões Venera. Além da pressão e temperaturas incomportavelmente elevadas, "chove ácido sulfúrico" em Vénus. "Há sítios mais simpáticos onde passar férias", brinca o investigador.

Postais de Vénus, com amor

Os soviéticos continuaram ao longo de vários anos a missão de descobrir o 'seu' planeta. Com a Venera 8 comprovaram que seria possível enviar câmaras fotográficas, e as sondas de 9 a 12, regressaram a Vénus entre 1975 e 1978 para mostrar ao mundo as primeiras imagens do planeta vizinho.

Para ver a paisagem de Vénus em todo o seu esplendor, e a cores, foi preciso esperar pelas Venera 13 e 14, ambas lançadas em 1981, as últimas a pousar no planeta.

As rochas de Vénus têm uma cor acinzentada, mas a luz solar filtrada pela densa atmosfera fá-las parecer amarelas, explica a Academia de Ciências da URSS, da Universidade Brown.

Depois das missões da Venera 15 e 16 para recolher mais dados (a viagem à Lua já estava realizada), Vénus passou para segundo plano e todas as atenções se voltaram para Marte, o que pode mudar nos próximos anos.

À procura de vida

Estão previstas novas missões a Vénus no programa de exploração espacial da Rússia para 2021-2030 e regressar ao planeta vizinho "está na agenda", assegura o diretor-geral da Agência Espacial Russa.

"Vénus perdeu protagonismo durante algum tempo", quando tanto os russos como os norte-americanos perceberam que não seria possível visitar o planeta e lá "espetar a bandeirinha", como convinha para a propaganda, nota Pedro Machado.

"Mas ainda há muitas questões em aberto", lembra o professor do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, e o interesse da comunidade científica em estudar Vénus tem vindo a crescer. Especialmente agora que se descobriu que Vénus pode não ser tão infernal como se pensava. Não é uma casa acolhedora para seres humanos, mas tal não significa que não possa acolher vida.

Segundo um estudo publicado em setembro deste ano na revista Nature Astronomy, um grupo de investigadores confirmou a "presença aparente" de fosfina nas nuvens carregadas de ácido sulfúrico de Vénus, um gás existente na atmosfera da Terra (produzido naturalmente por bactérias), cuja origem pode dever-se a uma forma de vida desconhecida.

É preciso mais observações para validar esta deteção e o trabalho do satélite Akatsuki, tal como de Pedro Machado, vai também passar por aí. "Há novos episódios que se adivinham", promete.

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