Eduardo Freire Rodrigues, médico que criou a startup UpHill, responsável pelo desenvolvimento de um software
Ciência e Tecnologia

São uma "seleção nacional" de especialistas do coração. E estão armados com tecnologia

Sessenta jovens médicos, que trabalham em hospitais de Norte a Sul do país, decidiram reunir-se num projeto com ADN totalmente português. Através da tecnologia, ajudam outros médicos a encontrar o melhor tratamento para cada paciente.

E se a um jovem médico, cheio de vontade de mudar o mundo, juntarmos inovadoras habilidades de programação informática? Qual o resultado? Eduardo Rodrigues é a pessoa indicada para responder.

Sempre quis ser médico. Quando chegou a altura, entrou na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa para tirar o curso de Medicina. Na passagem da sala de aula para os corredores dos hospitais, reparou que havia muitas coisas com potencial para serem melhoradas.

"Durante os estágios, víamos nos hospitais que havia alguma dificuldade de acesso a informação, muito pouco tempo para a atualização científica e iniciativas hospitalares que podiam ser potenciadas pela tecnologia", começa por explicar Eduardo, hoje com 28 anos.

Foi aí que se juntou a alguns amigos, também eles estudantes de Medicina, e decidiram aliar o seu talento informático ao talento médico. "Como tínhamos este passado na programação, construímos uma solução e desenvolvemos o protótipo de um software que permite simular a prática clínica."

O protótipo acabaria por dar lugar à UpHill, uma startup que cria tecnologia inovadora que agora é usada numa série de instituições de saúde nacionais.

"A UpHill nasceu em 2015, como produto de uma tese de mestrado", conta Eduardo. "É uma startup de software que desenvolve produtos para treino clínico avançado e melhoria da qualidade dos hospitais."

Tecnologia como a UpSim , um produto que ajuda os profissionais de saúde a adotarem "as melhores práticas médicas para uma doença".

"O que o nosso software permite é que os profissionais de saúde experimentem a sua prática clínica habitual e o simulador compara-a com aquilo que é a melhor prática internacional baseada na evidência científica. Depois, num curto espaço de tempo - cerca de 20 a 30 minutos - entrega ao profissional de saúde um relatório sobre quais são os pontos de melhoria que ele pode fazer no diagnóstico, no tratamento e na definição do prognóstico", detalha Eduardo Rodrigues.

"Jovens são a força do SNS"

Para tornar o projeto da UpSim real, Eduardo e os colegas contaram com a colaboração de 60 jovens médicos, de hospitais de Norte a Sul do país. "Jovens médicos que são a força motriz dos serviços hospitalares e que acabam por ser um ponto-chave de inovação para o Serviço Nacional de Saúde", frisa Eduardo.

Inês Fonseca, médica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, é uma entre os 60 jovens selecionados para o projeto. Conta à TSF que o principal fator que a fez querer entrar nesta experiência foram as lacunas que a própria sentiu durante a sua formação médica.

"Quando era aluna de Medicina, a coisa que mais detestava nas aulas práticas era quando eu ficava encostada a uma parede, à espera que chegasse o sr. professor para me ensinar coisas", recorda Inês, que se queixa de que "existe muito pouca simulação médica", nas universidades portuguesas, além "dos tais bonecos de suporte básico de vida e tal".

Inês contesta que os jovens médicos passem automaticamente de um ponto "em que é estudar papel e sublinhar esquizofrenicamente" para outro em que lhes põem "um doente à frente e têm de saber o que fazer". "É terrível, a pessoa não vai a lado nenhum."

Foi por isso que não hesitou duas vezes antes de aderir, quando soube do projeto da UpSim. "A ideia passa por melhorar aquilo que é a educação médica", sublinha. "É uma forma incrível de nos adequarmos nas áreas em que não temos tanta experiência e de conseguirmos ter um conhecimento mais transversal daquilo que envolve as diferentes patologias."

"A ideia é trazer um caso, discuti-lo, e tentar perceber quais são os sinais e sintomas que um médico não pode deixar de procurar, a terapêutica farmacológica e os exames complementares que não pode deixar de aplicar àquele doente", descreve Inês. "Assim, quando formos tratar o doente, já temos um conjunto de ferramentas muito maior e uma capacidade de atuar que, tecnicamente, é muito melhor do que aquele "ah, é assim porque sempre se fez assim"", nota.

O projeto arrancou com esta "seleção nacional" de 60 médicos, mas Eduardo garante que pretendem alargar a iniciativa: "O objetivo é, até ao final de 2019, duplicarmos o número de utilizadores."

"Insuficiência cardíaca é pior do que muitos cancros"

Mas desengane-se quem pense que a tecnologia é uma coisa exclusiva dos mais novos. Estes médicos querem envolver profissionais de todas as idades na experiência. "Estudantes de medicina, médicos, qualquer pessoa! Em boa verdade, eu acho que um médico está sempre em formação, portanto, qualquer médico deveria ter acesso a esta ferramenta", aponta Inês.

"Chegar aos médicos mais velhos não é, de todo, impossível. É um desafio muito exequível. Tivemos nestas atividades vários especialistas já de uma faixa etária média e a adesão foi igualmente boa", acrescenta Eduardo.

Os planos passam por alargar a tecnologia a mais áreas da saúde, mas, para já, o foco da UpSim está no tratamento das doenças cardíacas - um fenómeno de "altíssima prevalência" em Portugal e "um fator muito relevante de internamento nos hospitais do setor público".

"As pessoas não têm noção, mas o prognóstico da insuficiência cardíaca é pior do que o de muitos cancros", alerta Inês.

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