"A liberdade está ameaçada." Leia a entrevista a Fernando Haddad na íntegra

Três meses depois da derrota nas presidenciais do Brasil, Fernando Haddad deu uma entrevista à TSF.

Candidato presidencial no Brasil com 47 milhões de votos, ex-ministro da Educação e antigo autarca de São Paulo, Fernando Haddad vê no governo Bolsonaro ameaças às liberdades, perda de direitos, alinhamento cego com os Estados Unidos e peso excessivo dos militares.

Em entrevista à TSF, Fernando Haddad sublinha que a liberdade está ameaçada tanto no Brasil, como no resto do mundo.

TSF: Fernando Haddad, ex-ministro da educação no Brasil, ex-prefeito da câmara de S. Paulo, ex-candidato presidencial derrotado por Jair Bolsonaro a 28 de outubro, professor Universitário, aqui já não é ex. Vai voltar a dar aulas?

Fernando Haddad (FH): Agora dia 11 de fevereiro recomeço as aulas.

TSF: Aulas de administração e gestão pública. Ainda lhe pesa muito saber que não está a tratar de assuntos de gestão pública a partir do palácio do Planalto?

FH: Obviamente que eu gostaria de ter ganho a eleição, mas eu sinto-me confortável, muito confortável na posição que eu ocupo. O meu ofício é o de Professor, a função pública é uma excecionalidade, a minha profissão é professor.

TSF: O facto de estar aqui em Portugal significa que o futuro da liderança do Partido dos Trabalhadores passa por si?

FH: Significa dizer que como cidadão, estou muito preocupado com a ascensão da Extrema-Direita. Nós entendemos que há um risco real de crescimento da intolerância no mundo e do crescimento das desigualdades económicas, o que não é bom para ninguém. Nós que temos apreço pela liberdade, sabemos que a liberdade depende dessas duas condições. Mais igualdade económica e mais diversidade cultural, essas são as bases da liberdade. E a liberdade está ameaçada, inclusive na Europa estive agora recentemente, vim da Espanha, acompanhado do Ex-Ministro Tarso Genro, que me acompanha aqui também em Portugal. E o crescimento, por exemplo, de um partido como o VOX, inclusive com financiamento externo, saiu uma reportagem recente no El Pais, sobre o financiamento externo do VOX, causa apreensão, em função do apreço que temos pela democracia.

TSF: Portanto, em nome desses valores está disponível para ser um dos protagonistas da oposição ao atual governo do Brasil?

FH: Claramente!

TSF: Sendo assim, o que se faz com 47 milhões de votos?

FH: Nós temos que ser melhores que o Governo, o governo tem uma agenda regressiva do nosso ponto de vista. Tanto do ponto de vista dos direitos civis e políticos, quanto do ponto de vista dos direitos sociais e ambientais, o retrocesso que já há no Brasil, no desmonte de estruturas que defendem os cidadãos mais vulneráveis, ou valores importantes como é o caso do futuro do meio ambiente, isso revela que há muito para a oposição atuar. E nós queremos atuar exatamente no que diz respeito à expansão e ampliação dos direitos. Os indígenas estão ameaçados, as lideranças sociais do movimento popular, estão ameaçadas, inclusive por uma legislação que equipara os líderes dos movimentos populares a terroristas, por exemplo.

TSF: Está a falar do caso do Movimento dos Sem Terra...

FH: Sem terra, sem teto. A liberalização da posse de armas coloca em risco as mulheres num país onde a violência doméstica já é extraordinária.

TSF: O presidente diz que esse decreto, que aprovou a 15 de janeiro, vai permitir às mulheres poderem-se defender melhor dos parceiros abusadores. Vai permitir também aos comerciantes poderem defender melhor as suas propriedades, etc.

FH: Baseado em que evidência científica? Os estudos científicos vão todos na direção oposta. Arma dentro de casa é fonte de violência doméstica, e não fonte de defesa contra invasores. O mesmo vale para o porte de armas, que em geral, nos bares onde há venda de bebida alcoólica, no trânsito, que nas cidade brasileiras é bastante intenso, vai causar mais violência e não mais proteção. O presidente, aliás, o atual presidente, foi assaltado ele próprio, e teve a sua arma roubada e na entrevista que deu depois do assalto, se disse bastante indefeso diante das circunstâncias. Se ele que é um militar reformado, se sente indefeso, mesmo portando uma arma, o que dirá do cidadão comum que não tem destreza para a utilização de uma arma, contra alguém que faz o uso da arma a sua profissão? Então, nós estamos na contramão do que as evidências científicas indicam.

TSF: O presidente Bolsonaro está, a partir de hoje, no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça. Que Brasil pensa o senhor que o presidente Bolsonaro leva na bagagem; que imagem de Brasil?

FH: Essa imagem está-se formando com idas e vindas, não se sabe ainda que fato a presidência do Bolsonaro representa para o Brasil. Quais são as nossas preocupações? Em primeiro lugar, o povo brasileiro rejeita um alinhamento automático e cego com os Estados Unidos, sobretudo em relação a Trump. Trump tem uma política que não dialoga com a tradição diplomática brasileira, por exemplo, no caso da Palestina, no caso do meio ambiente, no caso do pacto de emigração, a nossa tradição diplomática é outra. E, com este governo, o Brasil já saiu do Pacto da Migração, o Brasil ameaçou sair do Acordo de Paris, e vem falando em instalar uma base militar americana em território nacional, já se desmentiu mais que uma vez, mas há uma tensão interna ao governo, que anunciou para data incerta ainda, a transferência da Embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. São coisas que causam apreensão, porque o Brasil sempre foi um instrumento da promoção da paz no mundo, a diplomacia brasileira é largamente reconhecida como uma diplomacia voltada para a construção da paz, e esse atual alinhamento está em dissonância com aquilo que nós imaginamos que deve ser o papel do Brasil no concerto das Nações.

TSF: Acha que as declarações foram feitas ao longo dos tempos pelo atual Ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de alguma forma coloca em causa a credibilidade que foi sendo construída pelos diplomatas do Itamaraty?

FH: Ele está na contramão de toda a diplomacia, e não a diplomacia "petista", não existe diplomacia petista propriamente. O que existe é uma larga tradição diplomática brasileira que avançou muito nos Governos Fernando Henrique, e muito mais ainda no Governo Lula, em que nós ampliámos a nossa atuação do mundo com parcerias, sem desprezo nenhum pelos Estados Unidos e pela Europa. Você sabe muito bem que o Brasil, manteve durante o Governo Lula relações de muita intensidade com a União Europeia, mas sem prejuízo de estabelecer novas relações com a África, Oriente Médio, no âmbito dos BRICS, sem deixar de fortalecer o G20, onde o Lula teve um papel proeminente. Então, a nossa presença no cenário das Nações durante esse período, foi uma presença muito bem recebida pelo mundo desenvolvido, e também, pelos nossos parceiros do Sul.

TSF: Quando houve a mudança política no Brasil alguns analistas disseram que em termos diplomáticos seria recentrar uma imagem diplomática que estava demasiadamente focada na relações Sul-Sul, para uma agenda mais focada nas relações Norte-Sul.

FH: Eu não vejo assim, porque o Brasil, obviamente no casos dos BRICS, em particular, houve naturalmente uma prevalência das nossas relações em função do nosso comércio internacional, a China passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil pelas razões conhecidas, a complementaridade da economia brasileira em relação à economia chinesa. Isso não é nenhum demérito em relação ao Norte, mas é um fato da vida, as nossas relações comerciais passaram a ser mais diversificadas e isso se expressou na política externa brasileira de uma maneira geral. O Brasil ampliou as relações.

TSF: Ainda na política externa, numa entrevista recente ao El País, que criticou a visita política do PT Gleisi a Caracas para a posse de Nicolás Maduro, chegou a dizer "Não sei o que levou Gleisi a Caracas, é preciso cuidar não só do gesto mas da comunicação" Isso quer dizer que se fosse presidente do PT, não teria ido?

FH: Não, quer dizer que eu, independentemente da decisão de ir, eu acho que a comunicação... enfatizei a questão comunicação. Há uma grande apreensão com a Venezuela no mundo.

TSF: Legítima...

FH: Legítima, evidente. É um parceiro importante do Brasil, um vizinho do Brasil, nós não temos conflitos militares há mais de 100 anos no Brasil com os nossos vizinhos. O Brasil tem um papel proeminente na região, o presidente Lula durante a administração Bush, teve um papel fundamental para evitar um conflito militar dos Estados Unidos com a Venezuela na época do Chavez e eu penso que a nossa atuação deve ser nessa mesma medida, de evitar o conflito e buscar ajudar o povo venezuelano a reencontrar o caminho do fortalecimento das instituições democráticas, o que significa manter um distanciamento para que tenhamos legitimidade de, inclusive, conversar com a oposição, no sentido da superação da crise e jamais falar em instaurar base militar americana, jamais falar em conflito armado, que não é a nossa tradição e não é aquilo que o povo brasileiro espera dos seus governantes.

TSF: Mesmo assim... se fosse presidente do Brasil teria ido à tomada de posse do presidente da Venezuela?

FH: É difícil dizer isso assim, depende muito das condições, mas eu acho que nós teríamos de construir uma presença brasileira, independente de ir ou não à posse. Mais importante do que isso, era demonstrar o que é o Brasil e ajudar a Venezuela, o povo venezuelano, a sair da situação em que se encontra. Não é bom para ninguém uma Venezuela em conflito.

TSF: Deixe-me voltar ao Brasil, ainda vê o seu adversário presidencial, como uma ameaça à democracia?

FH: Depende de como você entende democracia. Eu entendo a democracia... eu sou professor de ciência política, a minha compreensão de democracia não é apenas ganhar as eleições e tomar posse. A minha compreensão de democracia é o Estado que garante a cada cidadão, independente da sua posição ideológica, da sua orientação sexual, da sua cor de pele, do género, independente da sua condição, a segurança jurídica que lhe cabe. É nesse sentido que eu penso que há ameaças concretas. Há minorias, e mesmo na questão do negro e da mulher, não está claro qual é que vai ser o papel desse governo na promoção de uma maior igualdade.

TSF: Sei que que são fatos, o Partido dos Trabalhadores foi para a segunda volta com 30% dos votos, chegou ao final da eleição com 45%, sei que me vai falar das Fake News, mas acredita que foi mesmo por isso que perdeu a eleição?

FH: Ora, em primeiro lugar cabe-me registar que se o Brasil tivesse seguido a recomendação das Nações Unidas e permitido ao Presidente Lula disputar a eleição, eu tenho quase certeza que o presidente Lula ganharia as eleições. Isso em primeiro lugar. Eu fiz uma campanha de 40 dias, 20 dias na primeira volta e 20 dias na segunda e, mesmo assim, cheguei a 45% dos votos. Enfrentei a maior onda de Fake News da história do país. O Whatsapp, ontem, disse que vai tomar as providências que foram pedidas antes das eleições, para evitar a disseminação de calúnias pelas redes sociais. Quero dizer, se há seis meses eles não estavam tecnicamente preparados, porque é que estão agora? Disseram às autoridades eleitorais brasileiras que não tinham condições de fazer o que agora fizeram a nível global. Então, veja que houve um prejuízo enorme em relação a isso. E não vou desconsiderar que havia um sentimento antissistema, antipetista, também, mas sobretudo antissistema, que prejudicou o PT, o PSDB, o PMDB, que são os partidos que governaram o país, depois da redemocratização, é verdade que havia esse sentimento. Mas nós teríamos maiores condições de disputa, de vitória, se não houvesse o uso desses expedientes, na minha opinião, completamente não compatíveis com a democracia.

TSF: Eu pude acompanhar o comício da sua campanha no complexo da Maré, na terça-feira anterior à eleição, depois da coletiva que deu para a imprensa em Copacabana, percebi que havia algum entusiasmo nesse comício na Maré, mas, havia também pouca gente. Nessa altura, eram as estruturas do PT que já não acreditavam que era possível a virada, a reviravolta?

FH: Na verdade, o grande ato foi na Lapa, à noite, o grande ato no Rio de Janeiro, a convocação foi para a Lapa, e a Lapa estava lotada de gente, muita gente mesmo. Foi um dos melhores comícios que fizemos.

TSF: Mas um terreno como uma favela na Maré, não seria um terreno mais propício a um candidato do PT?

FH: Não há nem espaço para a aglomeração. Quem conhece as favelas do Rio de Janeiro, sabe que não há sequer espaço para uma grande aglomeração e a convocação deu-se num espaço apropriado para grandes aglomerações, com segurança, que há um problema também de segurança no Rio de Janeiro.

TSF: Esse comício, na Lapa, também ficou marcado pelas palavras de Mano Brown, que fez algumas críticas à forma como o partido tem tratado a sua base de apoio. Acha que é um caminho que o PT vai agora fazer na oposição?

FH: Já na ocasião, eu concordei com Mano Brown no próprio ato, e concordei porquê? Porque de fato, depois de quatro vitórias eleitorais, não digo que isso é natural e desejável, mas é compreensível que algumas instâncias partidárias tenham sido esvaziadas, em função do fato de que os governos absorvem os quadros políticos. A maioria dos quadros políticos do PT acabaram participando dos governos, tanto no plano nacional, como no plano estadual. E isso, às vezes, desconecta. Então, a alternância no poder tem também essa possibilidade de representar uma oportunidade de reconexão, pensando no futuro evidentemente.

TSF: Sei que dá muito valor à ética, até pela sua formação, mas, ao mesmo tempo, tem o líder do partido e seu padrinho político, se me permite a expressão, preso e condenado por corrupção. É possível conviver bem com essa duplicidade? Por um lado defender os valores éticos, e depois ter alguém que é politicamente tão próximo, preso e condenado por corrupção?

FH: Olha, eu sou advogado do Lula. Além de ter sido candidato a presidente, eu fui, durante o período pré-eleitoral, advogado do Lula. E eu li o processo de capa a capa, as peças principais, eu li como advogado e sinceramente não consigo compreender com base em quê o presidente Lula foi condenado. Não consegui ver. Veja você, estamos há uma semana com um escândalo envolvendo o filho do Bolsonaro, o Flávio Bolsonaro. As evidências até agora recolhidas em 20 dias contra ele, são muito mais eloquentes...

TSF: Estamos a falar de património imobiliário, de depósitos na conta dele...

FH: Exatamente. As evidências contra o filho do presidente, em 20 dias, são muito mais eloquentes do que tudo o que se reuniu contra o presidente Lula até agora.

TSF: E agora o ministro da justiça está até à frente do Conselho de Controlo das Atividades Financeira...

FH: Então, para você ver... Não foi por outra razão que as Nações Unidas recomendaram ao Brasil, acolher a atenção para o presidente Lula participar nas eleições. Há muitos juristas que consideram a sentença que foi proferida e confirmada até aqui, muito frágil, do ponto de vista da robustez para condenar uma pessoa. Qualquer pessoa, não falo aqui do Lula como uma pessoa fora do comum. Ele é um político fora do comum, mas tem que ser julgado como uma pessoa comum, e nunca pretendeu um tratamento diferente; mas de fato, até aqui, o que se apurou contra o presidente Lula, é bastante frágil, foi apenas para o tirar da disputa presidencial.

TSF: Acha que Luiz Inácio Lula da Silva vai continuar a ser um valor importante para o PT?

FH: Eu acredito que sim, quem acompanha Lula e segue o seu curso, eu tive manifestação de autoridades espanholas, desejosas de visitá-lo inclusive, em Curitiba. Porque reconhecem o seu valor histórico, e, conforme eu disse, o próprio presidente... o que eu vou dizer aqui foram palavras dele próprio: "O dia em que apresentarem uma prova cabal da minha culpa, onde quer que seja, mas que seja definitiva, uma conta no exterior, uma mala de dinheiro, um áudio gravado, qualquer coisa, que me impute uma responsabilidade, eu vou ser o primeiro a pedir desculpas, e a cumprir a pena que me for aplicada, mas eu não posso concordar" diz o presidente, "com ilações a meu respeito, coisas que eu possa ter feito". De fato Lula, na minha opinião, ao longo da sua vida pública não procurou ser beneficiado pessoalmente, do que quer que seja.

TSF: É possível combater a corrupção no Brasil sem uma reforma do sistema político, ou sem uma reforma do sistema de financiamento das campanhas eleitorais e do modo como as pessoas escolhem os seus apoios, desde a eleição para a prefeitura até aos cargos nos órgãos de soberania do estado?

FH: A proibição pelo Supremo Tribunal Federal, do financiamento empresarial de campanha e a constituição de um fundo público eleitoral de financiamento, penso que são passos extraordinários para corrigir esse tipo de coisas. Depois da crise de 2013 a 2016, eu fiz duas campanhas eleitorais, para a reeleição de prefeito e para presidente da república. E a condição da campanha foi muito melhor justamente em função dessas medidas, tínhamos um ambiente muito mais propício para práticas saudáveis, do ponto de vista político-partidário. Então, houve uma evolução, eu lamento só que nós não tenhamos conseguido fazer essa reforma há muito mais tempo, porque nós estamos pagando o preço, todos nós, todos os partidos políticos pagaram um preço muito alto por um sistema de financiamento, que não é que não possa ser honesto, mas é difícil parecer honesto em função da relação estreita entre o privado e o público, que impede um sistema que fosse o mais transparente e que parecesse o mais adequado pelos propósitos da vida democrática.

TSF: Segundo várias análises que foram sendo feitas, para além da corrupção e da recessão económica no Brasil, a questão da violência pode ter sido um fator determinante para o resultado da eleição. Já aqui falámos na questão das armas... de qualquer forma, os fatos mostram que o Brasil tem conhecido níveis recordes de violência com mais de 60 mil homicídios por ano, mais 300 policias também mortos em 2017. Acha que estes números e o ambiente político deste novo governo, pode provocar uma atuação como menos restrições por parte das forças policiais no combate à criminalidade violenta nas grandes metrópoles do Brasil?

FH: Bom, já há muita liberalidade nesse sentido, e de fato a explosão da violência, sobretudo a violência urbana no Brasil, foi determinante para um discurso político de fácil assimilação. E que tem a ver com uma espécie de privatização do serviço público de segurança, que armar a população não é outra coisa se não tirar o Estado do dever de oferecer o serviço público de segurança aos cidadãos, e eu sou inteiramente contrário a esse tipo de política, mas considero, e o meu programa de governo previa isso, que a União tinha que assumir a responsabilidade por aquilo que a Constituição delega aos governos estaduais. Então, evidentemente, terá que ser feita uma reforma do sistema de segurança pública no País, com uma atuação mais presente do Governo Federal e da Polícia Federal.

TSF: Da Polícia Federal, mas não do Exército...

FH: Não do exército porque não está preparado para isso, não é função do Exército garantir segurança pública.

TSF: O peso do militares no atual governo não pode encaminhar as opções políticas nesse sentido?

FH: Numa crise, sim. Por isso é que não é de bom tom; na minha opinião, a presença de militares no governo não tem nada de mais, mas se ela for excessiva, pode passar uma mensagem.

TSF: E acha que é excessiva?

FH: Está ficando excessiva, e porque, na verdade, o presidente Bolsonaro não tinha equipa, era uma pessoa muito sozinha ao longo desses 28 anos de mandato, é uma pessoa que nem sequer tinha assessoria, é uma pessoa que nem sequer aprovou um projecto de Lei, ao longo de quase 30 anos de mandato. É uma pessoa muito sozinha, então se socorreu dos militares para preenchimento de cargos, porque efetivamente, não tinha uma equipa propriamente dita, para assumir, isso dito por ele próprio, não é uma crítica, é uma constatação.

TSF: Percebendo que é algo que não o angustia muito o fato de haver esse número de militares, em áreas estratégicas do governo, fica mais angustiado e mais preocupado com uma Ministra da Educação e Ministra da Família e ldos Direitos Humanos, com as características da Ministra Damares?

FH: O que nós temos é três núcleos no governo Bolsonaro. Um núcleo obscurantista e fundamentalista diria assim, que é a Ministra da Educação, Relações Exteriores, Família e Meio Ambiente. São quatro áreas que preocupam em função de uma postura anticientífica, muito anticientífica, pré-moderna, eu diria; esse núcleo traz angústia para a comunidade científica, para a comunidade de professores, para as mulheres, para os negros, para a comunidade LGBT, para os ambientalistas em função dessa atitude anticientífica. Têm depois um núcleo neoliberal que é basicamente capitaneado pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes, que é um Chicago Old, come se fala no Brasil, um velho economista formado pela Universidade de Chicago, e tem uma política de basicamente venda de património público, desregulamentação radical de economia, inclusive, da camada de proteção dos trabalhadores, a legislação protetiva dos trabalhadores... e há ainda um núcleo justamente composto pelos militares e o ministro da justiça, que funcionam mais ou menos como um poder tutelar sobre o próprio governo. São esses três núcleos que causam uma certa pressão. Os democratas estão preocupados com os direitos civis, políticos e sociais, ambientais, e é nesse sentido que eu digo que o Centro e o Centro-Esquerda, têm que se unir em torno de um projeto que refreie essa onda conservadora de restrição das liberdade e dos direitos.

TSF: É isso que o PT vai tentar fazer já na Câmara dos Deputados, para tentar evitar a presidência de Rodrigo Maia?

FH: Já está fazendo. Hoje eu li a notícia, não estou acompanhando essa semana porque estou aqui, mas li a notícia já hoje pela manhã que PSOE e PSB, junto com o PT, estão compondo uma frente para apresentar uma alternativa à candidatura de Rodrigo Maia. o que eu concordo plenamente, acho que o PT e a Centro-Esquerda, têm que, efetivamente, aparecer na Câmara como alternativa de projeto para que a oposição possa fazer frente às propostas ultraconservadoras do Governo.

TSF: Fernando Haddad, vai agora regressar às aulas e depois daqui a menos de quatro anos, vai fazer como Lula e como Marina Silva, e voltar a tentar ser presidente?

FH: Isso depende de muita coisa e eu prefiro sempre ver as coisas como oportunidade. Eu tive várias oportunidades políticas que foram um encontro da oportunidade com o trabalho, acho que o que depende de você é trabalhar em proveito de um projeto que você acredita. O que vai ser das oportunidades, não depende só do indivíduo, depende do coletivo. Nunca tive um projeto pessoal, sempre tive um projeto coletivo, sempre me inseri num coletivo, e quem escala é o próprio coletivo, não é a pessoa que, arrogantemente, se apresenta como alternativa, coloca-se à disposição.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de