As eleições que vão ser um 'sim' ou 'não' a Donald Trump

As eleições intercalares de terça-feira nos EUA "tornaram-se num referendo ao Presidente", numa votação que pode ter uma afluência histórica. A opinião é de Damon Wilson, vice-presidente do Conselho Atlântico, uma organização norte-americana de política externa.

O consultor de política externa, que trabalhou com George W. Bush, acredita que as eleições intercalares norte-americanas vão servir para corrigir o sistema político, mas adivinha divisões profundas e maior turbulência entre a América e a Europa. Apaixonado pelas relações transatlânticas, Damon Wilson acredita que apesar das diferenças, os velhos aliados continuam a jogar na "mesma equipa". O actual vice-presidente do Conselho do Atlântico trabalhou na NATO, no Iraque, nos Balcãs, na Ucrânia, na Georgia, China, entre outros países.

"Esta é uma eleição intercalar extraordinária. Normalmente, não é esse o caso, mas esta é realmente a primeira vez que se toma o pulso ao eleitorado. Terá sido a eleição de Donald Trump uma loucura única ou é mesmo um movimento, uma direcção, uma resposta a alguma coisa? O nosso país tem estado muito dividido e o mundo confuso. Estas eleições tornaram-se num referendo ao presidente. Ele colocou-se no centro das atenções e vai ser um verdadeiro teste, saber onde ele se situa para o povo americano, ao fim de dois anos de uma administração que tem sido extraordinária. Por isso, há muito em jogo. Os republicanos têm o controlo total em Washington, com Trump, e estas eleições podem mudar isso.

Quais são as suas expectativas? Acha que os Democratas vão ganhar a Câmara dos Representantes?

Aprendemos que os Americanos gostam de desafiar as expectativas e as convenções tradicionais. Parece óbvio que os Democratas tinham vantagem há cerca de um ano, quando os níveis de popularidade de Donald Trump estavam abaixo dos 30%. Vimos que esses níveis subiram, a economia tornou-se mais forte, apesar das incertezas quanto às tarifas e às guerras comerciais. E vimos muitas pessoas, que não gostavam da retórica do Twitter e da liderança moral de Trump, adoptarem um olhar mais pragmático em relação ao país. Como resultado, as eleições estão mais renhidas. É importante dizer que já se sabe que mais de 40 republicanos não vão voltar ao Congresso. São pessoas que se afastaram ou que decidiram não voltar a concorrer. Algumas já foram derrotadas nas primárias. Portanto, nesta altura os Democratas devem conquistar a Câmara. No Senado, a batalha é mais dura.

Vai ser um passeio para os Democratas?

Não, a corrida está a apertar e vai apertar ainda mais. A lealdade partidária representa um forte sentimento de identidade. Por isso, será um jogo de afluência às urnas.

Espera uma votação elevada?

Acho que vai haver um salto, uma potencial votação histórica, mais elevada do que o habitual nas intercalares. Daí que haja uma espécie de trunfo. A afluência foi a história por trás da vitória de Donald Trump. Ele ganhou a presidência com menos votos do que Mitt Romney. Foi um jogo de votação. Por isso, a questão é quem vai às urnas, mas também acho que quem apoiou Donald Trump vai continuar leal ao presidente. Aliás, uma das coisas relevantes é que aos olhos destes eleitores, o presidente quase não faz nada de errado. Eles perdoam-lhe os pecados, apesar de reconhecerem que são muitos. Ainda assim, vêem estas eleições como uma questão de identidade. Quem somos nós, qual é a nossa tribo, e em algumas comunidades, podem não gostar do que Trump está a dizer. Ele não é o tipo de pessoa que queremos convidar para jantar ou até para ir à igreja, mas ele vai proteger a nossa identidade e comunidade. Ele tem feito isso usando o medo e isso tem sido eficaz para manter a sua base. E acho que também tem sido eficaz na mobilização daqueles que nas últimas eleições, deram o voto como garantido.

Donald Trump afirmou que é nacionalista e tem orgulho isso. Essas palavras afectam a relação entre americanos e europeus?

Claro que sim. Ele é um presidente que adoptou a retórica da "América primeiro". Acredito que ele próprio não gosta disso às vezes, mas é uma linguagem isolacionista que os americanos usavam antes da 2ª Guerra mundial, como argumento para ficarem em casa. Ele próprio pode não conhecer este contexto histórico, mas tem sido um nacionalista. Será que isso teve um impacto nas relações com a Europa? Absolutamente! Ele tem sido claro e usado palavras bastante duras com alguns dos nossos amigos mais próximos.

Então, está a pressionar a Europa?

Ah sim! Ele está a pressionar a Europa de forma dura. Não há dúvida de que vai haver turbulência nas relações transatlânticas. Sou um apaixonado e muito convicto na força e profundidade dessa relação. Acho que é maior do que qualquer personalidade, seja qual for o lado do Atlântico. Acredito nisso porque são sociedades livres e democráticas, que são as grandes democracias mundiais e do Ocidente. Se olharmos para o que está a acontecer, estamos a entrar no século XXI, que vai ser uma verdadeira era de desafios, devido à competição politica e ao desafio de encontrar modelos alternativos ao autoritarismo capitalista e à cleptocracia, como a China e a Rússia. É isso que faz com que a Suécia, Portugal, os Estados Unidos e o Canadá, apesar das diferenças e dos lideres políticos, estejam na mesma equipa, no que toca aos princípios. Donald Trump vai agitar as águas, enfurecer alguns europeus. Vai dizer verdades dolorosas, mas considero que a relação transatlântica vai continuar essencial e quando o presidente pensar como vai lidar com a China ou a Coreia do Norte, ele vai perceber que "ok, se temos de lidar com a China, preciso da Europa e do Japão do meu lado".

Mas as divisões não têm aumentado?

Sim, há divisões profundas e muitas perguntas nas politicas estratégicas. Não é preto e branco, algumas questões levantadas por Donald Trump são motivo de divergência no debate europeu, mas de certa forma, Trump deita lenha para a fogueira e acentua esse debate.

O que espera do dia 7 de Novembro, depois das eleições?

Acho que a 7 de Novembro, todos vão ver que a democracia americana está viva e bem. As nossas instituições são fortes e os maiores receios sobre se Donald Trump está a distorcer o sistema político americano, não vão aguentar. As pessoas vão ver que a democracia americana é saudável, vibrante e forte. Acho que vamos assistir a uma auto-correcção do sistema politico. Se os Democratas ganharem no Congresso, vamos ter mais controlo do presidente, mas vamos também entrar num período de divisões agudas, partidarismos e cotoveladas políticas. Isso será o grande desafio para os próximos dois anos: o que pode Washington fazer com esta divisão politica caseira?

Acha que Donald Trump vai ser mais sensato ou cauteloso, nos próximos dois anos?

Donald Trump não é um homem cauteloso, não está no seu instinto. Em muitos aspectos, acho que ele se tornou mais confiante no seu papel. Ele não estava preparado para ser presidente, na verdade ele não estava a planear ser presidente. Creio que ele se baseou muito na estrutura e nos conselheiros e nos últimos seis meses, é um Donald Trump mais confiante nos seus próprios instintos. Ele não se dobra, não muda de tom. Ele tem uma espécie de instinto politico e acho que Donald Trump não vai ser suavizado."

A autora não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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