Internacional

Travar o Brexit "causaria danos catastróficos à confiança do povo"

Theresa May acredita que há mais hipóteses de os deputados bloquearem o Brexit do que decidirem avançar para uma saída sem acordo.

A primeira-ministra britânica vai esta segunda-feira dizer que o parlamento tem o "dever" de aprovar o acordo de saída do Reino Unido da União Europeia (UE), perante a incerteza em torno do processo e de um possível adiamento da data da saída.

Num discurso em Stoke-on-Street, uma cidade industrial no centro de Inglaterra, que votou maioritariamente a favor da saída no referendo de 2016, Theresa May vai esta manhã tentar aumentar a pressão sobre os deputados, de acordo com alguns trechos já antecipados pelo gabinete da primeira-ministra.

"Temos todos o dever de implementar o resultado do referendo", avisará, advertindo que um fracasso "causaria danos catastróficos à confiança do povo no processo democrático e nos seus líderes políticos".

De acordo com trechos já divulgados, a chefe de governo acredita que "alguns" membros do parlamento querem "adiar ou mesmo parar o Brexit e vão usar todos os meios possíveis para o conseguir".

Segundo o The Guardian, que avança alguns excertos do discurso preparado para esta segunda-feira, May vai ainda afirmar que acredita agora que um "bloqueio ao Brexit é um cenário mais provável do que uma saída sem acordo" com a União Europeia.

May recebeu garantias da UE e vai apresentá-las no parlamento

Theresa May recebeu garantias da União Europeia sobre o acordo para a saída e deverá fazer uma declaração no parlamento esta tarde, anunciou o ministro do Comércio Internacional, Liam Fox.

Em declarações ao programa "Today" da BBC Radio 4, o ministro não especificou quais são as garantias, mas tudo indica que elas estão relacionadas a salvaguarda estabelecida no acordo do Brexit para evitar uma fronteira física entre as duas Irlandas e que está na origem da contestação de muitos deputados.

"A primeira-ministra espera fazer uma declaração esta segunda-feira na Câmara dos Comuns delineando as garantias que recebeu da União Europeia depois de conversas nos últimos dias e espero que os meus colegas as escutem e reconheçam que é melhor apoiar o acordo do governo porque cumpre o resultado do referendo (de 2016) e o faz de forma a minimizar os riscos para a nossa economia", disse Fox à rádio pública britânica.

E se o acordo falhar?

Hoje é a véspera do voto sobre o acordo negociado pelo governo com Bruxelas para garantir uma saída ordenada da UE e um período de transição até ao final de 2020, durante o qual serão negociadas as futuras relações entre as duas partes.

Porém, dezenas dos 317 deputados do partido Conservador e os 10 deputados do Partido Democrata Unionista ameaçaram reprovar o documento devido à insatisfação com a solução de salvaguarda incluída para evitar uma fronteira física entre a região britânica da Irlanda do Norte com a vizinha europeia Irlanda.

O chumbo do documento poderá obrigar o governo britânico a pedir uma extensão do período estipulado pelo artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que foi ativado por Londres em 2017 para formalizar o pedido de saída da UE, para além de dois anos e que termina a 29 de março de 2019.

Embora o governo britânico mantenha como posição oficial que não pretende fazê-lo, o diário The Guardian noticia que a União Europeia está a preparar-se para essa eventualidade, aguardando um pedido "nas próximas semanas".

Citando fontes anónimas da UE em Bruxelas, os 27 estariam preparados para oferecer uma extensão "técnica" até julho, data da tomada de posse dos deputados eleitos em maio para o Parlamento Europeu, para o Reino Unido resolver o impasse.

Na semana passada, o porta-voz do partido Trabalhista para os assuntos internos, Keir Starmer, disse no parlamento que pedir um prolongamento do artigo 50.º e adiar o Brexit "pode ser inevitável" devido à probabilidade elevada de o acordo ser reprovado.

No domingo, o líder do partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, afirmou à BBC que tal seria necessário se a moção de censura que pretende apresentar contra o governo for aprovada e convocadas eleições legislativas.

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