Como Nicolás Maduro se quer eternizar no poder num país mergulhado no caos

O homem que acusou Portugal de estragar o Natal dos venezuelanos inicia hoje o segundo mandato. Assume funções sem o apoio da assembleia venezuelana e de grande parte da comunidade internacional.

No dia em que se prepara para iniciar mais seis anos de mandato, vale a pena recordar como é que Nicolas Maduro Moro chegou à liderança da Venezuela. O sucessor de Hugo Chávez tinha 35 anos quando assumiu funções de relevo no país, mas foi bastante mais cedo que se interessou por política.

Admirador dos britânicos Led Zepellin, este filho de um sindicalista teve como primeiro sonho fazer parte de uma banda rock. Em vez disso, logo no ensino secundário, deu os primeiros passos na politica assumindo a presidência da União de estudantes. Os colegas recordam-no como alguém que tinha uma presença imponente mas conciliatória, e não como um grande líder.

Pouco se sabe sobre a infância de Maduro. Apenas que o pai era um ativo militante de esquerda e que a mãe nasceu numa pequena aldeia colombiana junto à fronteira com a Venezuela. Nicolas tem três irmãs e viveu sempre num bairro pobre dos arredores de Caracas. O atual Presidente tem um filho do primeiro casamento, conhecido como Nicolasito, que já ocupou diversos cargos políticos.

Nos anos 80, o agora chefe de Estado foi trabalhar como motorista da empresa do metropolitano de Caracas, que tem diversas carreiras de autocarros. Foi durante esses anos que decidiu seguir as pisadas do pai e criou um dos primeiros sindicatos informais da companhia - o metropolitano tinha banido todas essas estruturas.

É no inicio da década de 90 que o caminho de Nicolas Maduro se começa a cruzar com o do mentor politico. Adere ao Movimento Bolivariano Revolucionário - 200, o braço civil do movimento de insurreição militar criado por Hugo Chávez.

O antigo Presidente estava detido por liderar uma tentativa de golpe de Estado contra o Governo de Carlos Andrés Pérez. Nos anos que se seguiram Maduro participou em diversas manifestações para exigir a libertação de Chávez. Foi nesse movimento que conheceu a futura mulher, Cilia Flores, uma jovem advogada que fazia parte da equipa legal que defendia o comandante.

Maduro foi-se aproximando de outros elementos do movimento politico chavista, que ia ganhando força, e acabou por ajudar a criar o Movimento da Quinta República que, em 1998, estaria na origem da candidatura vitoriosa de Hugo Chávez à presidência da Venezuela.

Com a chegada do comandante ao poder, a ascensão politica de Maduro manteve-se constante. Fez parte da equipa que escreveu a nova Constituição e assumiu funções como deputado na Câmara Baixa venezuelana até ao ano 2000. Depois ocupou a presidência da Assembleia Nacional.

Em 2006, Chávez nomeou-o para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, onde ficou conhecido por alguma retórica mais incendiária. Um ano depois, numa cimeira regional, acusou a então secretária de Estado norte americana, Condolezza Rice, de ser uma hipócrita e comparou Guantanamo às atrocidades praticadas pelos nazis. Rice tinha criticado Chávez pelo encerramento de uma estação de televisão privada. Ainda como responsável pela politica externa da Venezuela, Maduro desenvolveu contactos próximos com líderes controversos, como Muammar Khadafi, da Líbia, Robert Mugabe, do Zimbabué, e Mahmud Ahmadinejad, do Irão.

Em outubro de 2012, Hugo Chávez, já doente, decide nomeá-lo vice-Presidente e menos de dois meses depois aponta-o como sucessor. O comandante da revolução bolivariana morreu de cancro no dia 5 de março de 2013. Três dias depois Maduro assume funções como Presidente interino. A campanha para as presidenciais começou quase de imediato, e o candidato do regime destaca-se anunciando que Chávez lhe apareceu na forma de um pequeno pássaro para lhe dar a bênção.

Em abril, Maduro vence as eleições com 2% de vantagem sobre o mais direto adversário, Henrique Caprilles Radonski. Quase como primeira medida anuncia a expulsão do país de três diplomatas norte americanos que acusa de estarem envolvidos num apagão que atingiu o país no inicio do mês. Os Estados Unidos são também acusados pelo novo chefe de Estado de terem causado o cancro que vitimou Chávez.

Maduro herdou uma economia afetada pela alta inflação e pelo desemprego, mas apoiada pelas reservas de petróleo. Quase de imediato enfrentou contestação nas ruas, especialmente por parte dos estudantes e da classe média. O regime respondeu detendo diversos críticos, entre eles Leopoldo Lopez, que era o líder de um dos grupos da oposição.

O petróleo representa cerca de 95% do PIB venezuelano e quando os preços caíram a nível mundial a economia do país não mais conseguiu recuperar. A inflação atingiu valores dos mais altos do mundo e até agora o regime foi incapaz de de inverter a situação. O país começou a ter dificuldades em importar todo o tipo de bens, incluindo os de primeira necessidade.

Por causa de toda a situação o caos tem dominado grande parte da presidência de Maduro e ele tem optado por governar por decreto a maior parte do tempo. A contestação e perda de popularidade fez com que perdesse as legislativas de 2015. O partido socialista unido da Venezuela, partido do regime, perdeu a maioria na assembleia nacional.

O Parlamento, com a oposição a dominar, tentou por várias vezes retirá-lo do poder mas Maduro vetou sempre a legislação, contou com o apoio do Supremo Tribunal, da Comissão Nacional de Eleições e dos tribunais. Quando foi necessário, decretou o estado de emergência e enviou os militares para as ruas para travarem os protestos populares.

Tentando ultrapassar a oposição o Presidente decidiu criar, em 2017, a assembleia constituinte com a missão de alterar a constituição. A oposição diz, no entanto, que esta medida tem como objetivo livrar o regime de todos os poderes que não controla, como a Assembleia Nacional e a Procuradoria-Geral da República. Ou seja, dar mais um passo em direção a um estado autoritário.

Composta totalmente por elementos fieis a Maduro a constituinte assumiu o poder de aprovar leis, uma competência que cabia anteriormente ao parlamento dominado pela oposição. A primeira medida tomada foi a destituição da procuradora geral, Luisa Ortega Diaz, que se tinha oposto à criação do organismo alegando ter havido uma rutura da ordem constitucional. Diaz foi substituída por Cilia Flores, mulher do chefe de estado.

Apesar de todas as tentativas, a Venezuela continuou em queda livre, económica e socialmente. No Natal de 2017, a população volta a sair à rua, desta vez para protestar contra o incumprimento de mais uma promessa presidencial. Maduro tinha anunciado a distribuição de pernil pelos venezuelanos no período das festas. Perante o insucesso, o Presidente culpou Portugal e os Estados Unidos, acusando os dois países de terem sabotado a importação do produto.

Em 2018 a situação económica agravou-se e milhares de venezuelanos foram obrigados a fugir do país, entre eles muitos portugueses e luso descendentes. A fome bateu à porta de muitas habitações e nos hospitais começaram a escassear medicamentos até para as doenças mais habituais.

No meio da crise, o Presidente causa polémica ao ser filmado a jantar num dos restaurantes mais caros de Istambul, cidade onde esteve para uma paragem técnica. As imagens correram mundo e foram muito criticadas. Nas redes sociais, um dos opositores de Maduro, agora exilado na Colômbia, Julio Borges, lamenta que enquanto os venezuelanos sofrem, Maduro e Cilia desfrutem de um dos restaurantes mais caros do mundo.

Ainda o ano passado, o chefe de Estado decide antecipar as eleições presidenciais. Numa votação muito contestada e com fraca participação dos eleitores, Maduro foi reeleito com quase 70% dos votos. No país poucos reconheceram o resultado e a comunidade internacional reagiu também com fortes criticas. Cuba, Bolívia e a Nicarágua foram dos poucos países que reconheceram a vitória do "Filho de Chavez", como é conhecido entre os venezuelanos.

Hoje, dia em que inicia o segundo mandato presidencial, Maduro vai prestar juramento perante o Supremo Tribunal já que a Assembleia Nacional, ainda liderada pela oposição, se recusa a reconhecer o mandato. Juan Guaidó, novo presidente do Parlamento defendeu que a partir de agora a presidência do país estará usurpada porque a Venezuela está em ditadura e é tarefa de todos recuperar a democracia.

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