Como os militares podem resolver a crise na Venezuela

Militares venezuelanos no exílio anunciam que não reconhecem Nicolás Maduro como Presidente. Num vídeo colocado online no final da semana passada, soldados e oficiais apelaram à ajuda da comunidade internacional.

São cerca de 30 militares e um deles lê um comunicado, dirigido aos venezuelanos e ao mundo, para garantir que estão a acompanhar a grave crise social, económica e politica do país. Prometem continuar a defender o povo, como prevê a Constituição do país, e por isso deixaram de reconhecer Maduro. Apelam à comunidade internacional para que não se esqueça dos venezuelanos.

Ouvidos pelo jornal Miami Herald, dizem ter contactos com militares no interior da Venezuela que partilham as mesmas opiniões mas que não estão preparados para uma insurreição. Asseguram, no entanto, que também não estão disponíveis para reprimir os protestos populares como fizeram em 2002, 2014 e 2017.

Aos poucos vão-se notando algumas fissuras na lealdade incondicional que as Forças Armadas bolivarianas juraram ao Governo de Nicolás Maduro. Os militares são vistos como os fieis da balança no xadrez político venezuelano.

Para conseguir o apoio militar, Maduro disponibilizou dez ministérios do Governo, alguns deles decisivos como o da Defesa, do Petróleo, Justiça e Energia. O general Vladimir Padrino, Supremo Comandante Militar mas também um superministro a quem todos os outros têm de reportar, garantiu esta noite que as Forças Armadas não reconhecem Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, que se autoproclamou Presidente.

Para além do poder politico, as chefias militares têm também, nesta altura, um forte poder económico. São detentoras de, por exemplo, um canal de televisão, um grupo empresarial de construção civil, um banco e diversos recursos petrolíferos que estão enquadrados na Camimpeg, indústrias militares de gás, mineração, petroquímica e petróleo. São também os militares que gerem a fábrica de armamento do país e as redes de distribuição de comida.

Estas regalias, no entanto, só beneficiam os mais altos cargos militares. São cerca de 150 mil que estão "casados" com Maduro por ideologia politica e interesses pessoais. Muitos dos mais altos graduados temem também ser alvo de processos judiciais pelo que fizeram durante o tempo de Chávez e Maduro e, por isso, mantém a fidelidade.

Entre todos os outros militares o descontentamento tem aumentado e, só em 2018, pelo menos mil soldados desertaram. O colapso da moeda oficial reduziu os salários: um tenente da Força Aérea recebe agora, por exemplo, o equivalente a dez dólares por mês (menos de nove euros).

O sentimento de revolta tem levado ao planeamento de várias tentativas de golpe de Estado. Praticamente todas ficaram no papel porque o regime criou uma unidade de serviços secretos, gerida por cubanos, que conseguiu detetar os revoltosos. A unidade usa infiltrados ou paga a informadores para que denunciem os companheiros.

Este tem sido um fator dissuasor de tentativas de revolta. O outro é a divisão que existe na oposição. Os militares interrogam-se sobre sobre se os civis farão o que é necessário para derrubar Maduro.

Muitos pensam no caso de Óscar Perez. Em 2017, este antigo piloto da policia roubou um helicóptero e disparou contra edifícios governamentais. Depois apareceu em diversos vídeos exigindo o regresso da democracia ao país. No final do ano assaltou um pequeno quartel, roubou todas as armas e apelou à população para ser revoltar. Os lideres da oposição não lhe deram ouvidos e não o apoiaram. Perez acabou por ser morto em janeiro do ano passado, quando tentava render-se.

Uma revolta militar é um dos cenários que Maduro mais teme. Carmen Fonseca, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, defendeu, no entanto, no programa da TSF, Mapa Mundo, que as chefias militares podem ser importantes mas, para já, não vão atuar. Vão esperar para ver como a situação se vai desenvolver. Ela acredita, no entanto, que mesmo se começarem a perceber que podem perder prestigio e poder terão alguma dificuldade em mudar de lado, porque estão muito identificadas com o regime.

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