Religião

"Cristianismo foi o início de uma perseguição feroz. Uma perseguição que ganhou"

Antes de preservar, a Igreja destruiu. Demoliu, vandalizou e derreteu inúmeros monumentos, bibliotecas, obras de arte.

No livro "A Chegada das Trevas: Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico", a jornalista britânica Catherine Nixey investiga a história da destruição que o cristianismo levou a cabo no mundo clássico: na Grécia Antiga, no Império Romano.

O confronto entre a ordem clássica e o cristianismo, quão devastador foi para a herança cultural do mundo?

Pode medir isso mais facilmente pelos livros: 90% dos textos clássicos perderam-se nos séculos seguintes à cristianização, 99% dos textos em latim perderam-se, muitos deles foram queimados. Mas a maior parte foi por uma total falta de interesse e total desprezo por um mundo cujas ideias eram muito diferentes do mundo cristão. Filósofos como Santo Agostinho disseram que estavam deliciados com o facto de a filosofia clássica estar a ser destruída, entendiam que era uma doença contagiosa que deveria ser erradicada. Foi a maior destruição de arte a que a Humanidade já assistiu.

Esta história de violência religiosa, assassinatos e vandalismo que escreveu, de alguma forma estabelece um paralelismo com o que se passa atualmente por exemplo, na Síria?

Eu peço que esse paralelismo seja invocado ao começar a história com a destruição de uma estátua em Palmira, na Síria. A destruição da bela estátua de Athena, que é atacada por homens com espadas, é decapitada, a cabeça a rolar no chão,... isto acontece em Palmira, no ano 385. Em 2016, quando o Estado Islâmico deixou Palmira, foram divulgadas fotos da destruição que eles tinham deixado e a mesma estátua foi de novo destruída. Grosso modo, pelas mesmíssimas razões. Decapitaram e deceparam os braços da estátua que os arqueólogos entretanto tinham recuperado. A destruição foi a mesma, uns e outros disseram que era para conter demónios, pelo menos é a retórica.

A Cristandade atacou todas as outras religiões de uma forma feroz desde o início. No espaço de 100 anos, o cristianismo reclamava ter eliminado completamente todas as outras religiões. A ideia de que o cristianismo foi meigo e brando, com os livros de história a designarem este período pelo fim da perseguição, é algo completamente desprovido de sentido. Foi precisamente o início de uma perseguição absolutamente feroz. Uma perseguição que ganhou.

Os romanos pré-cristianismo também não eram bárbaros?

Repare, ninguém lhes vai dar uma medalha de bom comportamento e simpatia com toda a gente, nem eles pretendiam ser assim. E executaram alguns cristãos sem dúvida, mas nem de longe próximos do mesmo nível da perseguição aos pagãos. O facto de a Europa ser cristã mostra quem foi mais veemente, quem perseguiu melhor, quem sobreviveu. Não foram os pagãos. Pagãos chamamos-lhes agora, os romanos nunca se consideraram assim. Seria insultuoso, mas foi assim que foram colocadas todas as outras religiões, debaixo do mesmo chapéu.

Desde essa altura, o monoteísmo não tem sido usado sobretudo para fins violentos?

Repare, o monoteísmo é uma arma incrivelmente poderosa. Desde o início, religião e violência andaram de mãos dadas. Constantino, o primeiro imperador, entrou nos templos romanos e, porque diziam que os romanos estavam errados, pôde roubar-lhes o ouro. Pôde eliminar pessoas que estavam contra ele.

Cresceu num ambiente bastante religioso. Rompeu com a religião?

Os meus pais fizeram-no antes de mim. A minha mãe era uma freira, o meu pai um monge, ambos católicos. A minha mãe tinha deixado [a vida religiosa] e depois conheceu o meu pai, quando ele ainda era um monge. Apaixonaram-se, ele deixou a igreja e tiveram filhos. Mas tivemos educação católica, fomos batizados, íamos à missa todos os domingos, fazíamos orações antes de cada refeição, mas creio que a fé deles já era bastante fraca há muitos anos, mesmo quando o meu pai ainda era monge. Portanto, para mim, foi uma rutura, mas nunca foi muito dolorosa. Creio que só deixei efetivamente de acreditar quando comecei a pesquisar para este livro, mas, na minha adolescência, a fé já era algo bastante frágil.

O seu livro foi entendido como uma ofensa por parte da hierarquia da Igreja Católica ou da Igreja Protestante Anglicana?

[Risos] Os protestantes anglicanos são demasiado simpáticos para se sentirem ofendidos com o que quer que seja. Através de encontros pessoais, sei que alguns católicos ficaram ofendidos, mas não recebi nada oficial da Igreja. Creio que já é um sítio diferente de quando havia um índice com os livros proibidos.

E, uns milhares de anos depois, não acha estranho que essa mesma Igreja se chame Católica Romana?

Sim, eu sei. Isso faz parte da transformação inteligente. É a ideia que me incutiram na minha educação católica. Elimina-se a ameaça e fica-se com o que se quer, fica-se com os despojos. O triunfo típico.