"Não sei se não voltaria a cuspir em Jair Bolsonaro"

Renunciou ao mandato de deputado e saiu do Brasil por temer pela própria vida. O homem que cuspiu em Jair Bolsonaro, quando o então deputado dava vivas ao torturador Brilhante Ustra, foi convertido em inimigo do novo poder brasileiro. A TSF entrevistou Jean Wyllys no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

O homem que deu vivas ao torturador Brilhante Ustra é hoje Presidente da República do Brasil. Se o encontrar e lhe pudesse dirigir a palavra, o que é que Jean Wyllys teria para dizer hoje a Jair Bolsonaro? O homem que teve de deixar o Brasil em função de repetidas ameaças de morte, suspira longamente antes de responder: "Eu acho que não dirigiria a palavra a esse sujeito. Mas se a isso fosse obrigado, eu dir-lhe-ía que está a destruir o país e que intoxicou o Brasil com o ódio. Não sei se não voltaria a cuspir, depende das circunstâncias. Eu acho que alguém que elogia um torturador publicamente pela televisão, enquanto uma mulher honesta (Dilma Rousseff) é deposta do seu cargo, quando esse mesmo deputado insulta com um insulto homofóbico um colega deputado, eu acho que essa pessoa no mínimo merece levar uma cuspidela na cara."

Camisa ao xadrez vermelha e negro, ar franzino e cansado, cumprimenta-nos com um aperto de mão firme, nas novas instalações do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Está a viver em Berlim, mas tem planos de visitar regularmente Portugal, até por razões académicas. Vai estar em Lisboa a convite da Fundação José Saramago e irá à Assembleia da República na quarta-feira, a convite do Bloco de Esquerda. Mesmo em Portugal, está sempre acompanhado de proteção policial.

Afirma que a marca do atual Governo do Brasil "é uma completa insensibilidade aos trabalhadores" e considera que, além da "mentira e incompetência", o facto mais grave destes quase dois meses de Governo Bolsonaro "é o envolvimento de membros da família com as milícias, as organizações criminosas que controlam territórios do Rio de Janeiro".

No dia em que Jean Wyllys publicou a nota de saída do país, Jair Bolsonaro escreveu "grande dia" no Twitter, enquanto o vice, Hamilton Mourão, lamentou sua saída e escreveu que era um "crime contra a democracia". Essa discrepância entre as duas mais altas figuras do Estado, Jean Wyllys só a vê possível "num país que caiu no abismo, como o Brasil. E é no mínimo curioso que nós achemos hoje que um militar de extrema-direita como o Mourão, alguém mais sensato e moderado que o Presidente da República. Mourão comportou-se como um vice-presidente, lamentou a saída do país de um deputado democraticamente eleito, por conta de ameaças de morte. Um Presidente da República não poderia comemorar essa saída, um Presidente que fosse decente e respeitasse o cargo para o qual foi eleito."

As ameaças de morte contra Jean Wyllys começaram em 2011, mas a perceção de que poderiam efetivamente ser concretizadas, só a teve depois do assassinato da companheira de partido (PSoL), Marielle Franco. "As ameaças de morte, o achincalhamento público, os vídeos difamatórios, houve um volume crescente orquestrado de destruição da minha imagem pública, senti-me muito mais inseguro a partir desse momento". Até porque sobre a vereadora não pesava nenhuma ameaça e acabou "executada com uma rajada de tiros de metralhadora na cara". A partir daí começou a "pensar que poderia ser morto". Para a atividade política, e nas viagens de e para casa, passou a ter segurança providenciada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Algo estava a mudar no Brasil: "Eu fui a primeira cobaia desse laboratório de mentiras que deu a vitória a Jair Bolsonaro". O que o levou a tomar a decisão de sair do país foi a total negligência do Estado após a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) ter pedido "uma medida cautelar por reconhecer que eu vivia grave risco de vida". Conclui que não havia, da parte do Governo brasileiro, na altura ainda liderado por Michel Temer, "uma preocupação em relação à minha vida, mesmo sendo eu um parlamentar eleito".

Com a eleição e posse de Bolsonaro, e a revelação pela imprensa de alegadas "ligações entre familiares de Bolsonaro e os suspeitos do assassínio de Marielle, e tendo-me Bolsonaro convertido em seu inimigo, ele e os seus seguidores, eu estava em risco em qualquer lugar". Fora do Brasil, seja em Berlim ou em Coimbra, onde a TSF o entrevistou, sente-se muitíssimo mais livre, mas admite que não deixa de "ter atenção seja onde for".

Ameaças e recados por parte do partido português PNR, que ameaça organizar protesto em frente ao local onde Jean Wyllys vai estar esta quarta-feira em Coimbra, indignam o ativista pelos direitos LGBT nordestino: "Eu levo a sério porque acho grave que, numa democracia, um líder de um partido possa dizer algo como ele disse a meu respeito". E atira: "Quem é ele? Não conhecia esse sujeito, nunca tinha ouvido falar. É uma figura obscura, sem prestígio, não elegeu ninguém para o Parlamento". Wyllys refere-se a José Pinto Coelho, líder do Partido Nacional Renovador. "Quem é ele para declarar nas redes sociais que eu não sou bem-vindo em Portugal? Não tem autoridade política nem moral para dizer isso. Eu fui convidado por um intelecto de prestígio internacional, que é o Boaventura Sousa Santos, por políticos de prestígio que foram eleitos, como a Mariana Mortágua, Joana Mortágua, José Soeiro e Marisa Matias, quem está convidando é a Fundação José Saramago que foi Nobel da Literatura, os portugueses querem-me bem."

Mesmo depois de ter saído do Brasil, continuam as ameaças contra a família. Terceiro auto-exilado político da era Bolsonaro, após Débora Dinis (intelectual de prestígio no Brasil ameaçada de morte após ter defendido a legalização do aborto) e do escritor Anderson França (que agora vive em Portugal), que denunciou a morte de um pedreiro pela polícia do Rio, Jean Wyllys não concorda com a ideia de que a sua saída signifique que o discurso do ódio venceu, garantindo que ganhou: "Quem deu o xeque-mate, fui eu a eles. A minha saída, além de uma estratégia para preservar a minha vida, o meu gesto, foi um recado político ao mundo do que estava acontecendo no Brasil, pôs os olhos do mundo democrático sobre o Brasil e eles tiveram de explicar isso. Por isso continuam com mentiras."

Lembra o ídolo Cazuza e garante: "Se eles achavam que me estavam derrotando, os dados ainda estão rolando". Promete continuar a atividade política a partir da Europa, mas admite que "precisava ter uma vida, porque viver pela metade não é viver".

Mesmo que um dia regresse ao Brasil tem consciência de que "nada será como antes". É este o título do livro que irá contar a sua vida política e pessoal. "Passei muita fome na minha vida, sou filho de um casal de brasileiros típicos do Brasil profundo, um homem negro pintor de automóveis e uma lavadeira, uma família numerosa de muitos irmãos, sempre estudei em escola pública, gay, com todo esse ambiente contrário à mobilidade social, mas foi o que acabou por acontecer. Acho que essa história precisa ser contada, uma história de resistência, mais do que meritocracia. De como eu resisti à homofobia, à fome, à pobreza, ao racismo, e me tornei deputado e figura pública de expressão naquele país."

Jean Wyllys volta a suspirar quando lhe pergunto qual é o seu maior sonho. "O meu sonho é ver um mundo mais justo, de inclusão, um mundo assim é um mundo em que eu sou mais feliz. Eu sou um homem gay num mundo de dominação masculina, num mundo em que metade da população é oprimida - as mulheres-, num mundo em que os afrodescendentes não têm as mesmas oportunidades que o homem branco. Um mundo que precisa de inclusão e justiça, um mundo em que as pessoas não se matem e não usem as religiões para justificar mortes. A construção desse mundo é o meu sonho."

*Vídeo: Ana António; Sonoplastia Joaquim Pedro

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