Internacional

Um congresso "inspirador" com presenças incómodas? Socialistas aclamam candidato à Comissão Europeia

Os socialistas europeus estão esta sexta-feira e sábado reunidos, em Lisboa, num congresso de aclamação ao nome "consensual" para liderar a lista candidata ao Parlamento Europeu.

A escolha do Partido Socialista europeu recai sobre o holandês Frans Timmermans, como potencial futuro presidente da Comissão Europeia. A TSF conversou em Bruxelas com o eurodeputado socialista Carlos Zorrinho e com o social-democrata Paulo Rangel, para conhecer melhor as forças e as fraquezas do homem que a partir de hoje entra oficialmente na corrida ao lugar de presidente do futuro executivo comunitário.

Carlos Zorrinho considera que Timmermans é um "homem demasiado consensual" e, para ele, essa pode ser a principal fragilidade do atual vice-presidente da Comissão Europeia. Ainda assim "para aquilo que a Europa precisa hoje, esse consenso demasiado pode ser, todo ele, necessário", afirma, admitindo até que a característica de um homem "consensual" já se revelou uma virtude no passado.

"Deve-se a pessoas como [Frans] Timmermans, [Pierre] Moscovici e outros, a possibilidade de Portugal ter podido ter uma política diferente, fora daquilo que é a visão "tecnocrática" e neoliberal desta Comissão Europeia", considerou o socialista, para quem o currículo do holandês joga a favor da experiência que se exige a um presidente da Comissão.

"Foi ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda, ministro dos Assuntos Europeus e primeiro vice-presidente desta Comissão", liderada pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker. Por isso, Carlos Zorrinho entende que Frans Timmermans tem quase todas as condições para vir a ser eleito presidente da Comissão Europeia, embora considere "quase utopia imaginar que ele pudesse ser eleito com maioria absoluta".

Coligação progressista

Carlos Zorrinho sabe que o apoio de Frans Timmermans dentro do Parlamento Europeu terá de ser encontrado no âmbito de "uma boa coligação progressista", sendo necessário medir forças dentro, já que o nome consensual no Partido Socialista Europeu não é bem acolhido pela maior família política da direita europeia.

No Partido Popular Europeu, o social-democrata Paulo Rangel considera que Frans Timmermans não é merecedor do cargo de presidente da Comissão Europeia. Reconhece-lhe "muita competência técnica", mas entende que é preciso ter em conta que "Timmermans era o número dois de Dijsselbloem, o conhecido ministro das Finanças holandês, também com uma visão da reforma da zona euro inaceitável".

"Timmermans é o homem que quer reduzir a União Europeia [e] devolver poderes aos Estados nacionais. Tem um discurso que, eu até diria, é diferente daquilo que é a linha do Partido Socialista Europeu", afirmou à TSF.

Polémica

Paulo Rangel tece ainda duras críticas aos socialistas europeus pela lista confirmada de presenças, nomeadamente por incluir líderes de países em que, têm sido levantadas dúvidas sobre o funcionamento do Estado de Direito.

"A Roménia, a Eslováquia e Malta não estão melhores" do que a Hungria ou a Polónia, afirma Rangel, assumindo-se também como "um crítico da questão húngara e da questão polaca". Mas, lamenta que "o que nós vemos é um duplo padrão".

"Estou à espera que o Partido Socialista português se distancie destas experiências", exige, questionando porque razão "vamos receber o primeiro-ministro da Eslováquia, o primeiro-ministro da Roménia e o primeiro-ministro de Malta num congresso do Partido Socialista Europeu em Portugal?"

"Vamos receber em Portugal os chefes políticos que nem sequer têm cargos, como o [Liviu] Dragnea, politico romeno ou como [Robert] Fico, eslovaco, e não dizemos nada?", questiona novamente, lamentando que no congresso, estejam "três visitantes, que são pessoas, cujas credenciais democráticas deixam muito a desejar".

Respondendo a Paulo Rangel, o socialista Carlos Zorrinho lembra que o membro do PPE, Viktor Orban, "esta semana encerrou a Universidade Europeia de Budapeste".

Sobre a presença dos primeiros-ministros da Roménia, Eslováquia e Malta, sobre os quais recaem suspeitas relativas à sua atuação, em matéria de Estado de Direito, - em dois dos casos envolvendo o assassínio de jornalistas -, Zorrinho espera que o congresso socialista em Lisboa possa ser "inspirador" para aqueles líderes.

Estado de Direito

"[Com] a participação num congresso tão livre, tão aberto e tão diverso como é o congresso do Partido Socialista Europeu, espero que também seja inspirador, para esses primeiros-ministros. Para que, se algumas coisas possam fazer para tornar mais transparente a sua ação, isso possa ser feito", afirmou, reconhecendo que "o primeiro-ministro da Roménia, o primeiro-ministro de Malta [e] o primeiro ministro da Eslováquia foram acusados de algumas práticas menos adequadas".

No entanto, frisou que "sobre eles não foi exercido nenhum artigo pré-sancionatório por parte da União Europeia", fazendo alusão ao "artigo 7.º" do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que foi acionado para os casos da Polónia ou da Hungria de Viktor Orban.

Aliás sobre o controverso membro da família política a que pertence o PSD - o Partido Popular Europeu -, o socialista lamenta que "no congresso do PPE, onde esteve [Orban], na Finlândia, não só não permitiu que ele aprendesse nada, como fez com que ele tivesse expulso [na terça-feira] a Universidade Europeia de Budapeste".

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