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Bem no centro de Serpa, numa das suas esconsas vielas, damos com o lugar que dá pelo nome de O Engrola. Entramos e logo damos com o proprietário, Francisco Engrola, que nos recebe com inestimável alegria. Surpreende sempre sermos assim bem recebidos num lugar por que nem sequer tínhamos dado conta. Da parafernália de excelentes petiscos entradeiros, ficou-me na memória o singelo pastel de bacalhau. Fritura exemplar, conteúdo forte em bacalhau, bem mais do que a vezeira batata. Era capaz de devorar meia dúzia só porque sim.
A vida tem destas coisas. Há sempre queijinho curado fatiado, torresmos e azeitonas temperadas que sabem pela vida, especialmente quando estamos de viagem. A canícula resgata-nos e empurra-nos para este pequeníssimo reduto. No inverno, é o calor humano que nos atrai, abraçando-nos com carinho e calor. Francisco é conhecido como Senhor Chico e tem prazer em receber pessoas vindas dos quatro cantos do mundo.
A sua cozinha serve glórias de raízes e proximidade, a que poucas vezes temos acesso. O bacalhau já lançou o mote com os geniais pastéis, e seguimos-lhe o rasto delícias afora. Há uma maravilhosa açorda de bacalhau, que necessariamente exploramos com colher. E faz-se um excecional grão com bacalhau, a que fazemos frente com docilidade, sabendo que se trata de mantença secular. Tanto o bacalhau como o grão são conservados secos, depois regenerados para nos proporcionar um prato histórico, evocativo dos tempos da míngua. A história de praticamente todo o Alentejo mais a sul. O choco frito em farinha de milho é digno de antologia, Setúbal devia vir aqui aconselhar-se, tal o primor culinário. Gosto muito do feijão com espinafres e pataniscas que a casa faz, é toda uma grande instrução.
Os pratos de carne são de comer e chorar por mais. Faz-se um maravilhoso cozido de grão, trabalho meticuloso de cozeduras e emprego de ervas aromáticas. O arroz de pato é feito como a gente gosta, acabado no forno bem quente. É deliciosa e típica do sul alentejano a tomatada com carne grelhada. Vale a pena colocar na agenda para quando estivermos de novo na época do tomate. Adoro a feijoada de choco do Engrola, configura reconciliação com a vida. E os passarinhos fritos são de comer à dúzia.
Recomendo vivamente o leite creme queimado. É queimado na hora e é feito sem véus nem disfarces, como toda a boa cozinha alentejana. Nem preciso de dizer para voltar muitas vezes, sei o que se sente no Engrola e o quanto nos traz de novo a esta mesa abençoada.