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O restaurante Vila Camões, em Constância, celebra a amizade como arte suprema da expressão do sentimento humano. Era por estas paragens que o nosso poeta maior, Luís Vaz de Camões, passava longos períodos de férias. Era a casa de um dos seus maiores amigos, onde se sentia a pisar chão do seu chão. E onde terá escrito parte dos Lusíadas. É aqui também o ponto onde os rios Zêzere e Tejo se fundem num só, num ponto a que Camões dedicou prosa diversa e rimas inestimáveis. No restaurante em que nos encontramos, respira-se e prova-se cozinha autêntica, de maravilhosa fusão de Tejo, Alentejo e Ribatejo.
Como entradas, dispomos de duas belíssimas sopas, de ervilhas e de cenoura, que nos sossegam a alma e o apetite. Faz-se uma linguiça salteada de grande expressão poética, evocativa da boémia de Luís Vaz e dos seus combates poéticos à mesa. Também gosto muito dos cogumelos salteados com alho e coentros, proporcionam frescura e consolo. E é muito original o folhado de alheira e mel.
Nos pratos de peixe encontramos o inevitável sentido da descoberta. É maravilhosa a bem portuguesa alhada de cação, que ressoa do património alimentar do vizinho Alentejo. São deliciosos os lombinhos de fataça, ou tainha, peixe de rio primorosamente executado e temperado. Parece até peixe maior e, na verdade, é bem maior do que fazem dele. Faz-se um excelente bacalhau no forno, servido em cama de grelos com cebolada e batatas. E é genial a açorda de gambas, feita à moda de Goa, com leite de coco e coentros. Camões tinha ligações de entendimento e coração com os amigos goeses, que felizmente deixou devidamente celebrizadas.
Os pratos de carne celebram a tradição portuguesa em diversas frentes. Temos, por exemplo, presas de porco ibérico grelhadas que nos levam a ver o mundo de cima. São servidas com migas e batatas fritas às rodelas. Há um estufado de javali delicioso, vem com batata frita, arroz e feijão-preto, e evoca paisagens remotas vividas pelo grande poeta. E faz-se um costeletão de vitela grelhado com batata frita, que faz crescer mais água na boca a cada garfada. Maravilhosa epifania, a que acontece neste pedaço ribeirinho de Tejo.
Na etapa final da refeição, adoçamos a boca com o fantástico creme brulé que a cozinha produz. Há uma ótima panacota com frutos vermelhos. É muito bom o pudim de mel e azeite que este templo em Constância produz. E sabe pela vida o incrível coulant de chocolate e gelado da casa. Prometemos a nós próprios o regresso em breve, munidos de um exemplar dos Lusíadas, para a fruição plena.