O processo resultante da intervenção militar da Força de Defesa da África do Sul entre 1986 e 1988 ao longo do rio Lomba, sudoeste de Angola, foi exemplo de paz negociada, disse hoje à Lusa um investigador.
"Julgo que foi um exemplo típico de uma paz negociada e de como a situação militar ao longo do rio Lomba originou um processo negocial e foi nesse processo que os sul-africanos, os russos, os cubanos, os angolanos e os americanos puderam negociar um processo de paz", afirmou à Lusa Abel Esterhuyse, professor de Estudos Estratégicos da Faculdade de Ciência Militar na Universidade de Stellenbosch, no Cabo, África do Sul.
O conflito opôs o exército das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), apoiado por Cuba, e o exército da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com apoio da África do Sul.
O fim da batalha de Cuito Cuanavale, considerada a mais dura batalha da guerra civil angolana, marcou um ponto de viragem decisivo, incentivando, paralelamente, um acordo entre sul-africanos e cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que originaram a aplicação de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial que vigorava na África do Sul.
"Todos sabiam que a guerra não levaria a lado algum e havia chegado o momento de falar de um processo de paz", salientou Abel Esterhuyse.
"Por outro lado, da perspetiva sul-africana, é necessário olhar ainda para as três guerras em que a África do Sul participou nessa altura. Tivemos o envolvimento sul-africano na guerra civil angolana, o envolvimento sul-africano na Namíbia, na guerra contra a SWAPO [partido namibiano Organização do Povo do Sudoeste Africano, que foram duas guerras distintas, e ainda a luta contra o 'apartheid' dentro da África do Sul", explicou.
Para este investigador, a resolução da guerra civil em Angola teve outras consequências.
"Portanto, teve um efeito dominó em criar as condições de paz a partir de Angola, para a Namíbia e a África do Sul (...). Todos beneficiaram desse processo negociado", declarou Abel Esterhuyse.
"No final, todos os participantes nessa guerra puderam cantar vitória ao regressarem a casa. Foi uma situação de igual para igual para qualquer uma das partes envolvidas nesse conflito", afirmou.
Segundo Abel Esterhuyse, a data de 23 de março "não tem significado para a África do Sul", pois "a batalha que se assinala e que se reveste de significado para um pequeno número de sul-africanos que participaram nessa guerra é a batalha de 03 de outubro de 1987".
O académico questionou ainda a participação na guerra civil angolana de elementos do Umkhonto we Sizwe (Lança da Nação), a ala armada do Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês), no poder desde 1994 na África do Sul.
"Depende do que se quer dizer com envolvimento. Ter-se-ão envolvido taticamente? Não encontrei um único investigador sul-africano que tenha visto esse facto e já falei pessoalmente também com vários veteranos do ANC, que são atualmente generais no exército sul-africano, e nenhum deles pode indicar-me que estiveram em Angola na altura e que participaram nas batalhas de Cuito Cuanavale", salientou.
"[O ANC] não esteve envolvido ao nível tático. Estiveram envolvidos a nível estratégico? É óbvio que sim, porque tinham um interesse no resultado final dessa batalha, ou melhor, no resultado do processo de negociações que terminou com essa campanha militar em Angola", adiantou.
Cerca de 32 anos depois do fim das hostilidades ao longo do rio Lomba, a "Guerra de Fronteira" dos sul-africanos com os seus vizinhos do norte passou a fazer parte dos cursos de História no ensino superior.
"A Batalha de Cuito Cuanavale também é estudada, mas ainda aquém do que deveria ser, porque existe muita comoção em torno do tema e, provavelmente, não é analisada da forma que o deveria ser", comentou.
Nos últimos anos, o envolvimento da África do Sul na guerra do sudoeste africano (atual Namíbia) e em Angola, nomeadamente nas batalhas ao longo do rio Lomba, em Cuito Cuanavale, tem sido tema de várias obras literárias publicadas por antigos militares sul-africanos que cumpriram parte do seu serviço militar obrigatório nesses países.
"Mas há já um debate sobre o tema e começa a ser mais fácil falar sobre o assunto, porque aqueles que participaram [na guerra] encontram-se menos envolvidos emocionalmente do ponto de vista objetivo", afirmou Abel Esterhuyse.
O académico considerou, por outro lado, que as batalhas em torno de Cuito Cuanavale têm servido de plataforma de reconciliação entre os vários participantes.
"Sem dúvida, eles [antigos militares] têm vindo a procurar encontrar-se para além das antigas linhas adversárias e animosidade. É inacreditável o que os veteranos estão a fazer para construir novamente pontes com os seus antigos inimigos, os sul-africanos com os angolanos e os russos", acrescentou.