Economia

Investigadores preveem que mineração dos oceanos pode afetar vários ecossistemas

Investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), no Porto, preveem que a exploração dos fundos oceânicos pode vir a "afetar uma grande quantidade de ecossistemas num raio de 190 quilómetros", afirmou hoje uma das investigadoras.

O estudo, desenvolvido no âmbito do projeto "CORAL -- Exploração Sustentável dos Oceanos" e publicado na revista internacional Science of the Total Environment, teve como principal objetivo analisar "o impacto das atividades de mineração no mar profundo".

Em entrevista à Lusa, Isabel Iglesias, uma das investigadoras do estudo, contou que, apesar de "não se saber para quando está prevista a aposta da indústria extrativa na exploração dos fundos oceânicos", a International Seabed Authority (ISA) tem recebido vários pedidos de autorização por parte da indústria extrativa para dar início a atividades em certas áreas.

"A exploração depende sempre do impacto económico, quando os custos da mineração de mar profundo forem inferiores aos benefícios ou quando em terra começarem a escassear alguns recursos, aí, certamente que a indústria vai começar a olhar para o fundo do mar", afirmou a investigadora auxiliar.

Durante o estudo, o grupo de investigadores da área da cenografia física do CIIMAR analisou três fontes hidrotermais (Menez Gwen, Rainbow e Lucky Strike) localizadas na Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa a sudoeste dos Açores e que estão classificadas pela OSPAR Commission, desde 2007, como Zonas Marinhas Protegidas.

Assim, através de modelos numéricos, os investigadores conseguiram "prever os cenários de dispersão dos sedimentos" destas três fontes hidrotermais, que são compostas por "materiais de alto interesse económico" e que estão próximas de ecossistemas "únicos e de grande valor ecológico".

Apesar da variabilidade dos resultados, tendo em conta o tipo de sedimentos, a morfologia das zonas de atuação e a profundidade de libertação dos materiais, o estudo mostrou que as partículas podem "permanecer em movimento por um período variável de 14 horas a 40 dias" e "afetar ecossistemas num raio que pode atingir os 190 quilómetros".

"As partículas conseguem permanecer muito tempo na coluna de água, o que significa que podem afetar durante muito tempo os ecossistemas, visto que os sedimentos de suspensão podem não deixar passar a luz solar, ou ter partículas metálicas, que afetam inevitavelmente os ecossistemas. E quanto maior for a dispersão desses sedimentos, mais áreas eles prejudicam", esclareceu Isabel Iglesias.

Face aos resultados obtidos, a investigadora acredita que "estudos como este são da maior importância", não só para prever o impacto das atividades de mineração, mas também para que a indústria extrativa esteja alerta para esta situação e que "produza o menor impacto nos ecossistemas".

"As áreas costeiras podem vir a ser afetadas, mas não só, também as ilhas ou os próprios ecossistemas e zonas piscatórias. Para preservar a zona marinha convém que as tecnologias utilizadas na mineração produzam o menor tipo de sedimentos e que afetem a menor área possível", acrescentou.

O estudo, designado "Development of physical modelling tools in support of risk scenarios: A new framework focused on deep-sea mining", insere-se no projeto CORAL, um projeto que conta com a colaboração do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e que é apoiado pelo Norte2020 através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.