Retrospetiva, exposição e debate para rever cinema de António Reis e Margarida Cordeiro

O cinema de Margarida Cordeiro e António Reis é alvo de uma retrospetiva que arranca hoje, no festival Porto/Post/Doc, que programou ainda uma exposição sobre o trabalho da dupla e um painel de discussão.

A retrospetiva inclui as obras "Jaime" (1974), "Ana" (1985), "Rosa de Areia" (1989), "Trás-os-Montes" (1976), uma "obra maior do cinema português", num programa dedicado ao casal que inclui também a exposição "Como o sol/como a noite", patente na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP).

No painel do terceiro dia do Fórum do Real, programa paralelo de debates e conferências, os realizadores João Pedro Rodrigues, Manuel Mozos, a atriz e realizadora Marta Mateus e a poetisa Regina Guimarães discutem, pelas 18:30 de sexta-feira, no Teatro Municipal Rivoli, a obra da dupla e o peso na história do cinema português.

Alexandra João Martins, colaboradora do festival, projetou a exposição "Como o sol/como a noite" e vai moderar a conversa no âmbito do Fórum do Real, em que os aspetos teóricos do cinema se relacionam com testemunhos de antigos alunos e parceiros de produção.

"Queríamos combinar uma comunicação mais teórica em torno das ficções do real, o tema do festival este ano, em articulação com a obra da dupla. E, depois, ter o testemunho direto de quem trabalhou com eles, como o João Pedro Rodrigues, aluno do António Reis, e Manuel Mozos, que esteve nas rodagens do que seria o último filme, que não chegaram a realizar", refere Alexandra João Martins à Lusa.

Combinar o lado mais literário, com Regina Guimarães, com o cinema, permite discutir várias dimensões de uma obra que "apesar de bastante elogiada pelos críticos da época, ficou um pouco perdida na história do cinema português".

"É muito importante trazer estes filmes de volta à tela, até da forma como vai acontecer [na retrospetiva], com cópias digitalizadas, à exceção de uma obra. (...) Há esse legado de uma obra que ficou um pouco na sombra, e também a ideia da própria conservação das obras", comentou.

O tema do festival, explica Alexandra João Martins, relaciona-se com a cinematografia da dupla, que sempre "se posicionou à época como um híbrido nesse sentido", um estilo a que "o cinema português vai beber bastante", dando os exemplos de Pedro Costa, João Pedro Rodrigues ou Marta Mateus.

Quanto à exposição coletiva, com obras de Daniel Blaufuks, Catarina Real, Rui Chafes, Maria Capelo ou Mariana Caló, entre outros, o objetivo era precisamente "colocar em diálogo a obra de Margarida Cordeiro e António Reis com cineastas e artistas contemporâneos".

O título são os dois primeiros versos do poema "Como o sol", escrito por António Reis e incluído no livro "Poemas Quotidianos", e a própria mostra foi desenhada para ter "um lado solar, com luz solar ou artificial", e "um lado lunar".

A relação entre estas duas ideias permite dialogar escultura, pintura ou fotografia com 'video art', com destaque para obras criadas especificamente para este momento, da autoria de João Salaviza ou Marta Mateus, além de um livro, uma "estrela encartonada com um texto", da autoria do poeta Manuel de Freitas.

À agência Lusa, o realizador João Pedro Rodrigues destaca a contínua importância dos filmes dos dois cineastas, que "não envelhecem ou passam de moda". "O olhar que tiveram sobre aqueles lugares e pessoas é único", considera.

Também a relação pessoal com o antigo professor, e a "humanidade muito importante" nesse contacto, marcou o cineasta, que tinha "uma maneira de olhar para o cinema um bocadinho ingénua".

"O António fez-me olhar para os filmes como imagens e sons, não só as histórias. A narrativa não era o que mais lhe interessava. Um filme é construído de pessoas, lugares, pedras, atores, tudo tem a mesma importância. Todos estes elementos que constituem imagens e sons não têm hierarquia", aponta.

Rodrigues continua em contacto com Margarida Cordeiro, que o apoiou na escolha de locais para filmar "O Ornitólogo" (2016), que tem o cenário que tem, "de alguma forma por causa de terem feito lá o 'Trás-os-Montes'".

O "olhar quase etnográfico" dos realizadores já levou a outras retrospetivas, como no Harvard Film Archive, em 2012, que incluiu também filmes de realizadores portugueses marcados por essa obra.

Para João Pedro Rodrigues, o mais importante é "editar os filmes, porque são quase impossíveis de ver", fora de circuitos dos festivais, missão para a qual pede "empenho estatal" e fundos, até porque "devia ser uma coisa prioritária, porque são obras fundamentais do cinema português e até mundial".

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