Kira Rudik
Guerra na Ucrânia

"A Rússia tem de colapsar." Kira Rudik está em Kiev e de lá não sai

A deputada e líder do partido da oposição na Ucrânia, Golos, Kira Rudik, avisa a NATO e a UE que a Terceira Guerra Mundial já começou. Em entrevista à TSF, a deputada, que se encontra em Kiev, disse acreditar que a Ucrânia vencerá esta guerra. E está disposta a lutar por isso.

Sentada em casa, com as persianas encerradas e as janelas cobertas de fita-cola em formato borboleta para evitar que em caso de bombas os estilhaços do vidro a atinjam, a deputada e líder do partido da oposição Golos, Kira Rudik, mantém-se na capital, em Kiev, onde decidiu ficar, até ao fim, de arma em punho.

Estamos no 14.º dia desde o início da invasão russa. Consegue ainda recordar-se de como foi o dia anterior à invasão?

Sim. Foi um dia complicado no parlamento. Estávamos a aprovar legislação e a implementar medidas de segurança e a trabalhar outra documentação. Era um dia normal, um dia bastante "stressante" e eu estava a pensar "quinta-feira tenho de ir ao pilates para ter alguma paz interna". Estava desejosa disso.

Porque é que decidiu ficar após a guerra começar?

Lembro-me de como a guerra principiou. Eram cinco da manhã quando comecei a receber mensagens a dizer que Putin tinha declarado guerra. Fomos para o parlamento para votar a lei marcial e depois disso fomos à esquadra da policia para levantar as nossas metralhadoras. E lembro-me de pegar na metralhadora e pensar se simplesmente a teria comigo para uma eventualidade ou se iria realmente usá-la. Depois reuni-me com os membros do meu partido para decidir que tínhamos de fazer o possível e impossível e tomar as decisões mais adequadas para o nosso país. E percebi que eu seria mais útil onde os meus constituintes estão. Portanto decidi ficar, treinar e aprender a usar uma arma.

De que forma se estão a preparar para um possível e iminente ataque por parte das tropas russas em Kiev?

Estamos a preparar-nos para diferentes cenários. A primeira possibilidade é um cerco e para isso estamos a reunir comida, água e medicamentos. A segunda possibilidade é um ataque militar, por isso estou a treinar duas horas por dia como usar uma arma e criei uma equipa de resistência de cerca de 30 membros que está a trabalhar em conjunto com a força militar. A terceira possibilidade é que Kiev será bombardeada com mísseis e se assim for não temos como combater, não há nada que possamos fazer. Há apenas uma coisa que podemos fazer, que é pedir o encerramento do espaço aéreo.

Qual é, neste momento, a maior necessidade em termos militares e de ajuda humanitária?

Em primeiro lugar, precisamos do encerramento do espaço aéreo e do envio de aviões, que esperamos receber da Polónia. É o que realmente necessitamos para continuar a lutar. E, para além disso, precisamos de corredores humanitários. Infelizmente Putin impediu-nos de os estabelecer. Tentamos três vezes em Mariupol. Ele mentiu três vezes.

Espera que os corredores se venham a estabelecer?

Durante os oito anos de guerra aprendemos a não confiar em Putin e aprendemos a não usar os corredores que ele estabelece.

O encerramento do espaço aéreo tem sido um tema controverso, bastante debatido na Europa. Qual considera que deva ser o papel da NATO e da União Europeia nesta guerra?

A NATO e a União Europeia continuam a achar que esta é apenas uma guerra Rússia versus Ucrânia. Contudo, o que estamos a dizer é que se estão com medo da terceira guerra mundial então tenho notícias muito más para vocês, porque a guerra já começou. Temos uma crise humanitária, tantos refugiados a escapar pela Europa enquanto Putin bombardeia centrais nucleares aqui na Ucrânia. Ele encontra-se num ponto em que irá usar armas nucleares. Os países da NATO acreditam que se não interferirem ele não as irá usar, mas ele já foi bastante claro quanto ao seu plano. O próximo país será a Polónia e por aí fora. E estes são países da NATO. Portanto, se a NATO não é capaz de travar Putin agora o que a leva a crer que o poderão fazer quando ele atacar a Polónia? Esta é a minha pergunta principal. E de que forma é que os riscos de um ataque nuclear estão mitigados? Eu não creio que estejam mitigados.

Após 14 dias de bombardeamentos severos e várias mortes de civis, consegue entender porque é que Putin está a travar esta guerra?

Ele quer reconstruir o império russo. Ele foi muito claro sobre isso.

Referiu que treina todos os dias como usar uma arma. Porque decidiu juntar-se ao exército e quantas mulheres fazem parte?

Não somos parte do exército. Esta é uma força de resistência que criamos. Mas estamos a trabalhar com o exército. Comigo estão mais três mulheres. Em termos globais neste momento, 15% do exército é constituído por mulheres.

Muitos estão surpreendidos por ver tantas mulheres juntarem-se ao exército. O que é que vos motiva?

Eu não quero deixar o meu país, eu não quero deixar a minha cidade, eu não quero deixar a minha casa. Além disso, sou responsável pelas pessoas que me elegeram. Portanto, estou a liderar e a mostrar-lhes o caminho a seguir, porque acredito ser a coisa certa a fazer: lutar pelo teu país e cumprir o teu dever enquanto cidadão. E depois de 14 dias a ver dor, sofrimento e injustiça penso que neste momento é a raiva que me motiva. Porque vi tanto que desejava não ter visto. Fui testemunha de tanta coisa que não queria ter testemunhado. Eu não quero que os soldados russos invadam Kiev. Não os quero em nenhuma cidade. A raiva está a motivar-me. Quero-os fora daqui.

O que é que está disposta a fazer para proteger a sua casa, a sua cidade, o seu país?

Estou disposta a lutar e lutarei.

Consegue prever o fim desta guerra?

Julgo que a Rússia tem de colapsar. É a única forma. A NATO vai envolver-se a determinado ponto. Sei-o. Só temo que quando o fizer seja demasiado tarde para a Ucrânia. Mas acredito que venceremos quando a Rússia colapsar. Neste momento, o mundo inteiro está contra a Rússia. As sanções e medidas que estão a ser aplicadas, que estão a transformar a Rússia numa Coreia do Norte, farão com que a determinada altura o ciclo interno de Putin e os cidadãos russos digam que isto não é o que querem. É desta forma que penso que venceremos. Seremos capazes de construir um novo país sem um vizinho inimigo que nos quer destruir. Esta é uma situação de guerra "David versus Golias". A parte mais interessante da história de David, na Bíblia, é o que acontece após a sua vitória. Porque após a sua vitória ele construiu o estado forte de Israel. O ponto importante na história é que ele construiu um estado forte. E é isso que faremos após vencer.

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