EUA são "inimigos" da Europa: ataque à Venezuela é "legitimação" das ações de Putin
Autores: Cláudia Alves Mendes e Manuel Acácio
O ataque dos Estados Unidos da América à Venezuela é entendido como uma forma de "legitimação" do comportamento do Presidente russo no leste europeu. Esta "agressão à ordem internacional" - um "motivo" para que o mundo esteja "preocupado" com o seu futuro - será discutida na reunião do Conselho de Segurança da ONU, onde ficará confirmado se, "para a Europa, está sempre tudo mal se [o conflito] estiver próximo de si, e está sempre tudo razoavelmente bem se estiver em causa um dos seus amigos ou uma potência que receie".
No Fórum TSF desta segunda-feira, a eurodeputada socialista Marta Temido destaca a rapidez da opinião pública europeia em relação às suas próprias instituições, afirmando que a primeira foi mais célere a "perceber o que é que estava em cima da mesa", bem como a esclarecer que, "por muito que Maduro fosse um ditador", as ações norte-americanas na Venezuela representam uma "agressão à ordem Internacional", que "não pode passar sem uma condenação", sob pena de o mesmo destino ser imposto à Gronelândia.
"A União Europeia não pode - e espero que o Parlamento Europeu tenha brevemente uma posição clara sobre o tema - deixar de condenar aquilo que é a ação dos EUA", denuncia, acrescentando que em causa está a "pirataria dos tempos modernos".
Mas, mais do que isso até, Marta Temido entende que existem "motivos" para que todos os países estejam "preocupados" com o seu próprio futuro. E insta, por isso, a União Europeia a reforçar a preparação estratégica dos seus Estados-membros e a deixar cair a "ingenuidade".
"Se esta ação tem uma leitura é a da legitimação daquilo que é a forma como o senhor Putin se tem portado no leste europeu", avisa, completando que a União Europeia "não está preparada" para regressar a um mundo em que "o poder do mais forte" se sobrepõe à "vontade de fazer compromissos".
Marta Temido insta a Europa para ser "racional" e perceber de uma vez por todas que "os Estados Unidos não são aliados", mas antes um "inimigo". As "leituras e sanções" que são feitas à Rússia pela invasão à Ucrânia, diz, devem ser as mesmas em relação aos EUA.
E condena igualmente a reação do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, à notícia das ações norte-americanas contra alvos estratégicos na Venezuela, em que afirmou que "ninguém quer o regresso de Maduro".
"Não me parece possível dizer, como disse o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, o que é que era preferível: ter uma ação militar dos Estados Unidos ou ter o Governo de Maduro. Acho que não estamos em tempo de ter essas dúvidas existenciais", vinca.
Já o eurodeputado socia-democrata Sebastião Bugalho reconhece que as ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, à Gronelândia são "difíceis de acompanhar" e "certamente impossíveis de apoiar", declarando estar ao lado da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.
"Estou totalmente ao lado dela. O espaço e a soberania da Dinamarca, inclusivamente da Gronelândia, têm de ser respeitados e o direito Internacional tem de valer", assinala.
E sublinha que a mesma posição vale para a Ucrânia e a Venezela, rejeitando as críticas de quem fala em duplos critérios. "Aqueles que dizem que [a Europa] não tem [a mesma posição], só querem favorecer aqueles que de facto não têm essa posição", acusa.
Por sua vez, o presidente da associação Venexos - que junta venezuelanos e luso-venezuelanos -, Cristian Ohn, confessa estar "apreensivo" com a situação vivida na Venezuela, sobretudo por temer que Edmundo González não seja reconhecido como Presidente por Donald Trump. A presidência do país foi, por enquanto, assumida por Delcy Rodríguez.
"O nosso Presidente é Edmundo González. Nós nunca reconhecemos Maduro ou [Hugo] Chávez como Presidentes. A Venezuela está capturada há mais de 25 anos numa ditadura e, ultimamente com Maduro, num narco-Estado", defende.
O apelo para o reconhecimento de González como chefe de Estado venezuelano ecoa também junto da associação Venecom, que representa os venezuelanos que vivem na Madeira. Ana Cristina Monteira espera que seja cumprida a "soberania voluntrária do povo", que foi chamado a votos a junho de 2024.
"Sabemos que tudo isto é um processo de transição e, como todos os processos de transição, tem linhas muito ténues que nós devemos observar com muita cautela e, portanto, penso que estamos neste momento neste processo. Ainda não posso dizer que se iniciou um processo de transição como tal, porque ainda nós não vemos que exista uma alteração de facto dentro da linha na Venezuela", ressalva.
O Conselho de Segurança da ONU vai reunir-se esta segunda-feira, dois dias após o ataque dos Estados Unidos da América à Venezuela. O encontro, marcado para as 15h00, foi pedido de urgência por vários Governos, entre eles o de Caracas.
O professor da faculdade de direito da Universidade Católica do Porto Azeredo Lopes revela que não tem grandes expectativas quanto aos resultados desta reunião. O também especialista em questões internacionais nota que qualquer proposta de resolução ou de discussão séria sobre a invasão venezuelana terá o veto certo dos Estados Unidos. A "grande questão", esclarece, está antes relacionada com o sentido de voto da França e do Reino Unido (dois membros permanentes do Conselho de Segurança e, por isso, também eles com poder de veto).
"Aí é como aquela prova definitiva. O nosso problema, como aliás já verificamos tristemente na Palestina e na Ucrânia em confronto com a Rússia, é se vai confirmar definitivamente que, para a Europa, está sempre tudo mal se estiver próximo de si, e está sempre tudo razoavelmente bem se estiver em causa um dos seus amigos ou uma potência que receie", atira.
