Eventual acordo entre EUA e China é "espécie de pausa tática em que as partes procuram recuperar o fôlego"

Andrew Caballero-Reynolds/AFP (arquivo)
"É bom sinal que haja acordo, é um sinal que a diplomacia funciona, mas também é um sinal de que a diplomacia não muda estruturalmente as relações internacionais", explica Pedro Ponte e Sousa à TSF
O professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense Pedro Ponte e Sousa considera que um eventual acordo entre os EUA e a China relativamente às terras raras será uma "espécie de pausa tática em que as partes procuram recuperar o fôlego".
"Havendo algum acordo, é bom sinal que haja acordo, é um sinal que a diplomacia funciona, mas também é um sinal de que a diplomacia não muda estruturalmente as relações internacionais. Estamos apenas no início de uma etapa que vai ser de competição muito séria e que provavelmente vai ser muito prolongada no tempo. É apenas um momento, uma espécie de pausa tática, em que cada uma das partes está a procurar recuperar o fôlego antes do que vem a seguir, sentindo que têm benefícios económicos concretos com estes acordos", avalia Pedro Ponte e Sousa em declarações à TSF.
O especialista em relações internacionais explica: "Nos EUA, por exemplo, há um custo crescente desta guerra económica que os EUA iniciaram. A inflação, a penalização da indústria automóvel, dos produtores a agrícolas, etc. Foi aliás mencionado pelo próprio secretário do Comércio a questão das exportações dos EUA relativamente à soja para a China, que deixou de a comprar aos EUA. E mesmo do lado chinês a perceção de que tem de acentuar ainda mais a estratégia que já tinha de autonomia tecnológica, que tem de acentuar ainda mais a substituição de importações, a liderança do ponto de vista industrial e, sobretudo, para não estar tão dependente de mercados como o americano e o europeu, aprofundar ainda mais o que já vem fazendo nos últimos 15 ou 20 anos que é cada vez mais aliança com o sul global."
O secretário norte-americano do Tesouro, Scott Bessent, disse este domingo que "espera" que o acordo entre os Estados Unidos e a China sobre as exportações de terras raras possa ficar formalmente concluído em dez dias.
"Ainda não finalizámos o acordo", mas "esperamos fazê-lo até ao Dia de Ação de Graças", ou seja, 27 de novembro, declarou Bessent na cadeia televisiva Fox News. O responsável da administração norte-americano pela pasta da Economia também se disse "convencido" de que "a China cumprirá os seus compromissos", mas caso contrário, advertiu, Washington dispõe de "muitos mecanismos" para retaliar.
Esta não é a primeira vez que os EUA procuram obter terras raras, como aconteceu com o acordo com a Ucrânia no início do ano. Pedro Ponte e Sousa demonstra a importância destes minerais.
"Falamos do lítio, do cobalto, de elementos que são decisivos, por exemplo, para as baterias. De outros, por exemplo, decisivos para os semicondutores. Portanto, nós falamos de um conjunto relativamente restrito de minerais, mas que são decisivos para a economia verde e para a economia digital. Por isso, são o elemento mais presente de uma disputa que em tempo já foi por outros recursos, como o petróleo, o gás, como outros recursos minerais. Hoje é por estes e é sobretudo por estes, também porque a China tem um papel muito, muito significativo nestas matérias, nomeadamente relativamente ao acesso a estes minerais críticos e depois à sua transformação. E, pelo contrário, os EUA estão um pouco atrás - a Europa, então, está muito atrás -, e, portanto, sentem uma certa dependência relativamente à China", esclarece.
