
Gordon Brown, antigo primeiro-ministro britânico
Andy Mettler/World Economic Forum
Num artigo de opinião publicado no jornal Guardian, o antigo primeiro-ministro diz que é uma batalha contra a intolerância, xenofobia e desunião. Um combate contra Nigel Farage.
Gordon Brown defende que depois das eleições Europeias "há uma nova linha divisória na política britânica, uma linha que vai muito além do Brexit/Remain que tem marcado o país desde o referendo. O que está em causa agora é muito maior do que o Brexit: é uma batalha contra a intolerância, o preconceito, a xenofobia, a desconfiança e desunião."
O antigo primeiro-ministro critica a atuação dos políticos desde que os britânicos decidiram deixar a União Europeia e culpa-os pelo reaparecimento de Nigel Farage. "Quando devíamos ter debatido a questão maior levantada pelo referendo que é - em que tipo de Grã-Bretanha nos queremos tornar? - os nossos governantes têm estado obcecados por uma questão muito estreita - os termos da saída da União Europeia. Qualquer líder deveria ter visto que tínhamos de ser claros sobre a Grã-Bretanha antes de podermos ser claros sobre o Brexit que estamos a negociar. A frustração em torno deste problema permitiu a Farage reaparecer e ganhar as europeias."
Gordon Brown argumenta que a nova divisão na política britânica é entre a maioria patriótica - tolerante, justa, voltada para o exterior e pragmática - contra os adeptos de Farage que o seguirão para onde quer que vá. "O dogmatismo e a divisão do nacionalismo do eles-contra-nós tem mais em comum com os Le Pens, os Salvinis e os Orbans e, claro, os Trumps e Putins, do que com os valores do povo britânico."
O ex-chefe de governo continua escrevendo que "um olhar atento aos factos mostra que Farage está a tentar roubar o patriotismo britânico. Ele quer criar uma política de divisão e ódio, demonizar e culpar os imigrantes, europeus, muçulmanos e qualquer outra pessoa que possa ser rotulada de "estrangeiro". Ele quer redefinir o nosso país como intolerante, voltado para dentro e xenófobo."
Brown recorda um vídeo que anda a circular na internet e onde se vê Nigel Farage e o antigo conselheiro de Trump, Steve Bannon, a discutirem a criação de uma campanha mundial contra a globalização. Uma campanha com financiamentos estrangeiros a apoiar movimentos nacionalistas. O antigo primeiro-ministro diz que o objetivo é acabar com todas as organizações que tenham as palavras "Europa" ou "Global" no nome.
Gordon Brown chama ainda a atenção para o retrocesso que seria provocado por Farage se este chegasse ao poder. O líder do "Brexit" quer, segundo o antigo dirigente trabalhista, acabar com a legislação que protege as minorias, com a igualdade de género, com a licença de maternidade paga e ainda com o serviço nacional de saúde, substituindo-o por um modelo americano pago pelos seguros privados.
O ex primeiro-ministro mostra-se preocupado com a forma como Nigel Farage está a influenciar a escolha do futuro líder conservador. "Para ele só há um verdadeiro Brexit que é deixar a UE a 31 de outubro, mesmo que não haja acordo. Ao fazê-lo, ele impôs a sua própria definição de verdadeiro patriotismo e está a condicionar os candidatos à sucessão de Theresa May."
Gordon Brown defende por isso a necessidade de curar as feridas do país e fazer com que as pessoas se sintam orgulhosas da mente aberta que sempre foi uma imagem de marca dos britânicos. Para isso é preciso que todas as partes parem de fingir que nenhum acordo é o mesmo que um mau acordo. Depois, para restabelecer a confiança que Farage está a tentar minar, é necessário, diz Brown, enfrentar os problemas muito reais que causaram o voto do Brexit. É preciso lidar com os medos que envolvem a imigração, a soberania, o estado das cidades, a pobreza e a desigualdade crescente na Grã-Bretanha.