Gronelândia. Eurodeputado expressa "preocupação" perante "retórica belicista" de Trump

Créditos: Ina Fassbender/AFP
André Franqueira Rodrigues defende resposta europeia firme e aprofundamento de acordos comerciais como eixo da autonomia estratégica
O eurodeputado André Franqueira Rodrigues critica a "retórica belicista e agressiva" de Donald Trump sobre a Gronelândia, considerando que o discurso do Presidente norte-americano marca "uma mudança" profunda nas relações transatlânticas e levanta preocupações diretas sobre outros territórios estratégicos, como é o caso dos Açores.
Em entrevista ao programa Fontes Europeias, a partir do Parlamento Europeu, em Bruxelas, o eurodeputado socialista considera que atualmente "estamos a viver num novo mundo", resultante de "uma mudança fundamental feita pela administração de Trump", sublinhando que "um político oriundo dos Açores só pode olhar com preocupação para a retórica belicista e agressiva de Donald Trump face à Gronelândia".
Segundo André Franqueira Rodrigues, a situação assume particular gravidade pelo paralelismo estratégico entre a Gronelândia e os Açores, lembrando que "a Gronelândia tem uma base americana tal qual os Açores também têm", o que, no seu entender, inscreve estas declarações num quadro mais vasto de instabilidade no Atlântico Norte.
Gronelândia
O eurodeputado integrou recentemente uma missão do Parlamento Europeu à Gronelândia, onde constatou uma realidade marcada por uma população com forte sentimento identitário. "Encontrei uma realidade de um povo profundamente orgulhoso nas suas origens, nas suas raízes, na sua cultura e também empenhado em fortalecer a relação com a União Europeia", afirmou Franqueira Rodrigues.
Recordando o estatuto particular do território, André Franqueira Rodrigues sublinha que a Gronelândia "faz parte do Reino da Dinamarca" e que, apesar de ter abandonado a então Comunidade Europeia na década de 1980, mantém hoje "uma relação estabilizada e forte" com Bruxelas. A saída, lembra, ficou ligada sobretudo a preocupações com a exploração dos recursos marinhos, num referendo "motivado pela atividade das grandes frotas europeias".
"Julgo que nós temos hoje uma relação estabilizada e forte com a Gronelândia. Aliás, pude constatar isso mesmo nas diferentes reuniões que tive, quer com representantes do Parlamento, quer com o próprio ministro da Gronelândia para as pescas, quer ainda com um conjunto de associações representativas que dão conta desta relação de proximidade e de uma relação forte e coesa com a União Europeia", frisa o deputado.
Ártico
Questionado sobre o papel europeu no Ártico, André Franqueira Rodrigues considera que a União Europeia tem de "recuperar algum tempo perdido" na afirmação da sua presença estratégica. Para o eurodeputado, o contexto internacional atual exige uma maior projeção externa do projeto europeu, num momento em que "as democracias estão a perder terreno" e em que se torna essencial defender valores como os direitos humanos e a democracia.
O eurodeputado destacou a centralidade geopolítica da região, lembrando que se estima que na Gronelândia estejam "cerca de 13% das reservas de petróleo não exploradas do mundo" e "cerca de 30% das reservas de gás natural". André Franqueira Rodrigues salienta ainda que o degelo progressivo poderá reduzir "cerca de 40% o tempo de viagem, criando novas rotas comerciais" e tornando o Ártico um espaço que amplifica os interesses económicos e estratégicos.
Na perspetiva do eurodeputado, estes fatores fazem da região "um "hotspot" para a intensificação de relações e de interesses comerciais", uma realidade que, segundo afirma, já vem tornar-se "bem patente" nos últimos anos.
Estados Unidos da América
Sobre a resposta europeia às pressões de Washington, André Franqueira Rodrigues defende que a União Europeia deve reagir com firmeza, afirmando que "nós não podemos apaziguar um bully", em referência à postura de Donald Trump. O eurodeputado classifica o atual Presidente norte-americano como "um autocrata que foi eleito democraticamente" e que está a "mudar por completo as bases da relação transatlântica".
Na sua perspetiva, a União Europeia deve usar "a única linguagem que um bully percebe, uma linguagem de força", rejeitando "as expressões que são inadmissíveis de Donald Trump" e as ameaças dirigidas não só a um Estado-membro da NATO, mas também a um Estado-membro da União Europeia.
Como exemplo dessa postura, aponta o recuo da administração norte-americana após respostas firmes de outros parceiros internacionais e refere que o simples recurso a instrumentos como o mecanismo anti-coerção europeu já produziu efeitos dissuasores. "É não nos deixarmos encostar às cordas", afirmou, defendendo o "uso dos instrumentos que temos ao nosso dispor para defendermos os nossos interesses".
Comércio
No plano comercial, André Franqueira Rodrigues lamenta o bloqueio ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul, considerando-o particularmente problemático num contexto de crescente instabilidade global. Para o eurodeputado, o acordo permitiria criar "a maior comunidade comercial do mundo" e reforçar a presença europeia numa geografia estratégica.
O envio do texto do acordo para o Tribunal de Justiça da União Europeia, aprovado por uma maioria no Parlamento Europeu, é encarado pelo deputado como um sinal negativo, sobretudo tendo em conta que o processo negocial dura há 25 anos. "Nós não temos, em termos de alternativa, nada a ganhar com a sua suspensão", vinca.
André Franqueira Rodrigues defende ainda que, em paralelo com negociações com a Índia e outros parceiros globais, a União Europeia deve "avançar" e não continuar a "marcar passos", sublinhando que a consolidação de alianças comerciais "é essencial" para reforçar a autonomia estratégica europeia.
NATO
O eurodeputado considera também que Donald Trump representa "uma ameaça à coesão interna da NATO", questionando quem beneficia da instabilidade nas relações transatlânticas. Na sua leitura, os principais beneficiários são "os competidores da União Europeia e os principais rivais estratégicos históricos dos Estados Unidos, nomeadamente a Rússia e a China".
André Franqueira Rodrigues é também muito crítico sobre a atuação do secretário-geral da Aliança Atlântica, considerando que Mark Rutte "tem prestado mau serviço neste momento de crise", ao parecer mais empenhado em ser "um porta-voz do Presidente Trump" do que em salvaguardar os interesses da organização.
Embora reconheça que a Europa "não se defende neste momento sem uma presença forte dos Estados Unidos", sublinhou que a relação é de interdependência. "Também é verdade que os Estados Unidos precisam da Europa e da União Europeia para assegurar os seus interesses estratégicos no mundo", afirma, salientando que "é por isso que a Aliança foi, até hoje, um fator de paz, de estabilidade e de projeção de força no mundo, forças democráticas e moderadas".
Defesa
André Franqueira Rodrigues defende o reforço da autonomia estratégica europeia no domínio da segurança e da defesa, lembrando que os conflitos atuais são compostos por "guerras híbridas que exigem respostas multissetoriais". E, para lá da componente militar, destaca áreas como "energia, infraestruturas e cadeias logísticas" como áreas-chave, que requerem investimento europeu.
André Franqueira Rodrigues considera inevitável um debate mais profundo sobre recursos financeiros, incluindo a possibilidade de novos instrumentos de financiamento europeu, sublinhando que "não é possível realmente fazer mais com menos".