"Havia gente muito desesperada." Júlio, o herói de 16 anos que ajudou a resgatar feridos após choque de comboios em Córdoba

Créditos: TSF
Foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente no domingo e ajudou a resgatar várias pessoas. Na terça-feira, os reis de Espanha agradeceram-lhe pessoalmente o seu compromisso
Júlio Rodriguez tem 16 anos. É alto, franzino e, por estes dias, o centro de atenção de Adamuz, em Córdoba. No domingo, pouco depois do choque entre dois comboios de alta velocidade na localidade, que provocou a morte de cerca de 42 pessoas, foi um dos primeiros chegar ao local. Vinha da pescar com um amigo e a mãe, quando se depararam com o acidente.
"Encontrámos o primeiro comboio, que estava mais ou menos controlado, e depois descobrimos que havia outro muito mais afetado. Fomos até lá a correr e ajudámos em tudo o que pudemos", conta.
No segundo comboio, onde duas das carruagens caíram por um aterro de quatro metros, o cenário era ainda pior. "Havia gente muito desesperada, aos gritos, a pedir ajuda e eu e o meu amigo tentámos fazer tudo o possível", recorda. "Tirámos um miúdo de um vagão e ajudámos muitas pessoas a chegar até aos transportes, porque ali não podiam entrar ambulâncias."
Fizeram os quase 800 metros que separavam os dois comboios várias vezes. Levavam os feridos até às ambulâncias que começavam a chegar e voltavam para continuar a ajudar no resgate. Foi assim até chegarem os profissionais de emergências, bombeiros e Proteção Civil.
Quase três dias depois do acidente, Júlio ainda tem bem presente as imagens daquela noite. "Vi coisas muito desagradáveis, coisas que ninguém gostaria de ver, pessoas falecidas, corpos esquartejados, mas fico com a parte bonita, de ter ajudado tanta gente a sobreviver", diz.
Algumas dessas pessoas já voltaram a falar com o Júlio, para agradecer a sua ajuda, umas em nome próprio, outras em nome dos familiares que o adolescente ajudou a resgatar. "Pude falar com algumas delas e disseram-me que estão bem e que se lembram de mim."
Júlio tem uma timidez que disfarça com um sorriso permanente, mas os olhos sempre cravados no chão revelam que ainda não se habituou aos focos. Na terça-feira, recebeu o agradecimento pessoal da parte dos Reis de Espanha e Júlio não esconde o orgulho, mas prefere lembrar que muitos fizeram o mesmo que ele: "Foi uma honra, mas todos colaborámos, toda a gente de Adamuz fez o que pôde para ajudar."