
O número de mortos na repressão dos protestos já atinge a escala dos milhares
Créditos: Piero Cruciatti/AFP
A República Islâmica diz estar mais preparada do que em junho passado e assegura que o país será defendido "até à última gota de sangue" com consequências "terríveis" para os EUA
O ministro da Defesa iraniano avisou esta terça-feira os Estados Unidos que o Irão responderá "com mais firmeza a qualquer novo ato de agressão" e que o país será defendido "até à última gota de sangue".
Após uma reunião com a Comissão de Segurança Nacional do parlamento, Aziz Nasirzadeh destacou que a República Islâmica está mais preparada do que em junho passado, quando os Estados Unidos se juntaram a Israel nos bombardeamentos contra instalações ligadas ao programa nuclear iraniano.
O ministro e brigadeiro-general disse que o Irão tem "surpresas reservadas" que se revelarão "muito eficazes" em caso de novos ataques, segundo declarações divulgadas pela estação estatal iraniana.
Esta é a resposta do Governo iraniano às últimas ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, que esta terça-feira anunciou o cancelamento do diálogo com as autoridades de Teerão até que "os assassínios cessem", aludindo à repressão dos protestos antigovernamentais que abalam o Irão desde 28 de dezembro.
O líder da Casa Branca disse também que "a ajuda está a caminho" dos manifestantes e que "os assassinos e responsáveis pelos abusos" pagarão "um preço elevado", embora não tenha fornecido qualquer detalhe.
"Se estas ameaças se concretizarem, defenderemos o país com todas as nossas forças e até à última gota de sangue, e a nossa defesa será terrível para eles", declarou o ministro da Defesa iraniano, em resposta a Donald Trump.
O Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.
A taxa de inflação anual é superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos Estados Unidos e da ONU devido ao programa nuclear de Teerão.
As autoridades iranianas receberam inicialmente com compreensão os protestos, mas entretanto endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram entretanto relatos de milhares de detenções e também condenações à pena de morte.
O número de mortos na repressão dos protestos já atinge a escala dos milhares, segundo organizações de direitos humanos iranianas.
A Human Rights Activists Newes Agency (HRANA), com sede nos Estados Unidos, indicou 2003 vítimas, das quais 1850 eram manifestantes, 135 elementos ligados às autoridades, nove menores e outros nove sem envolvimento nos protestos.
A televisão estatal iraniana reconheceu esta terça-feira pela primeira vez um elevado número de mortes, afirmando que foram registados "muitos mártires".
Um apresentador leu uma declaração que dizia que "grupos armados e terroristas" levaram o país "a entregar muitos mártires a Deus", embora sem precisar qualquer número.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, em declarações à estação televisiva Al-Jazeera, disse na noite de segunda-feira que continuava em contacto com o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff.
No entanto, após a mensagem do Presidente norte-americano de hoje, o principal responsável de segurança iraniano, Ali Larijani, afirmou: "Declarámos os nomes dos principais assassinos do povo do Irão: 1- Trump, 2- O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu".
