
Lídia Pereira
Créditos: DR/Parlamento Europeu (arquivo)
Lídia Pereira aponta o comércio e a diversificação de mercados como instrumentos-chave da afirmação europeia num contexto de instabilidade internacional
A eurodeputada Lídia Pereira afirma que a União Europeia deve "ir até às últimas consequências" na resposta às ameaças dos Estados Unidos. Apontando a crescente tensão transatlântica, marcada por tarifas comerciais e pela polémica em torno da Gronelândia, Lídia Pereira defende uma estratégia firme, através do diálogo.
Em entrevista ao programa Fontes Europeias, no dia em que os líderes europeus se reúnem para concertar posições e discutir instrumentos de defesa comercial e eventuais contramedidas, a eurodeputada sublinha que Bruxelas deve manter uma postura responsável, distinguindo entre o que considera "ruído" político e decisões estruturais.
Tensão
Questionada sobre a escalada de tensões com Washington, Lídia Pereira diz olhar para o momento "com preocupação, como é evidente", mas também com "o sentido de responsabilidade que a União Europeia tem tido ao longo deste processo". A eurodeputada considera que existe "um ruído tremendo à volta de tudo aquilo que Donald Trump, o Presidente dos Estados Unidos, tem vindo a dizer", mas destacou a "grande consistência por parte dos líderes europeus e dos representantes da União Europeia".
Em particular, aponta o papel da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que tem procurado, segundo Lídia Pereira, "apelar à calma e, à margem do ruído, avançar com decisões verdadeiramente importantes".
Confrontada com a necessidade de uma resposta europeia às ameaças norte-americanas, a eurodeputada é clara quanto ao grau de firmeza exigido.
"A União Europeia tem de ir até às últimas consequências", sublinhou, defendendo que, neste momento, deve ser privilegiada "a plataforma do diálogo", garantindo "canais de contacto abertos ao diálogo" e tentando "chegar a bom porto nas negociações pelo diálogo".
Ainda assim, reconhece que existe "apreensão perante os avanços do Presidente norte-americano", mas insiste que é essencial manter o foco "naquilo que é essencial", lembrando que estão em curso "acordos comerciais e decisões geopolíticas bastante importantes que também pesam neste equilíbrio político da cena internacional".
Contramedidas
A propósito de referências a um pacote de contramedidas com um impacto potencial de cerca de 93 mil milhões de euros, Lídia Pereira rejeita uma lógica de escalada precipitada. "Não faz sentido nós estarmos a empenhar tanto esforço no tal diálogo que eu falava e que resultou num acordo no verão do ano passado com os Estados Unidos e de repente, num golpe de asa, quase, colocar tudo em causa", afirma.
A eurodeputada recorda que a União Europeia é "o maior bloco comercial do mundo" e que está a fazer uso dessa posição como "uma força geopolítica" nas negociações, procurando, "dentro daquilo que é aceitável", chegar a um entendimento com "o parceiro e aliado histórico" que são os Estados Unidos.
Segundo Lídia Pereira, a estratégia passa por "tirar partido da União Europeia, da Europa, ser um grande bloco comercial" e fazer uso desse peso "no plano das negociações", evitando decisões que possam comprometer um processo diplomático ainda em curso.
Sobre a possibilidade de um calendário de aplicação de novas tarifas norte-americanas, a eurodeputada defende a continuidade da linha seguida até agora.
"A União Europeia deve fazer aquilo que tem vindo a fazer, que é, com calma e serenidade, preparar os vários cenários e tentar gerir de acordo com a evolução", disse, referindo-se à "manutenção da estratégia" como um fator que "tem sido bem-sucedido".
Lídia Pereira volta a evocar o acordo alcançado no verão de 2025, considerando que é possível, "dentro das diligências que os canais diplomáticos estão a fazer e também a nível político", voltar a "serenar os ânimos", desde que exista "confiança entre as partes".
Mercosul
A eurodeputada estabelece uma ligação direta entre a assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, ocorrida no passado fim de semana, e o atual contexto geopolítico. Segundo relata, numa reunião com o comissário europeu para o Comércio Internacional, Maroš Šefčovič, foi sublinhado que, "o momento da assinatura do Acordo de Mercosul (...), coincidiu com o tweet de Donald Trump sobre a Gronelândia".
Para Lídia Pereira, esta coincidência é reveladora da importância do comércio internacional no atual contexto. "É uma afirmação de como o comércio internacional é tão importante e, por isso, estas negociações são tão importantes, no plano geopolítico", afirmou.
Sobre o conteúdo do acordo, explica que, apesar de ainda ser necessário o consentimento do Parlamento Europeu, existe uma cláusula de aplicação provisória que permitirá a sua entrada em vigor "nas próximas semanas". A eurodeputada destaca as salvaguardas incluídas no texto, concebidas para proteger o setor agropecuário europeu, funcionando como "um travão de emergência" caso os parceiros do Mercosul não respeitem as condições acordadas.
Lídia Pereira sublinha a dimensão do acordo, referindo que está em causa "a criação da maior zona de comércio livre alguma vez estabelecida" entre a União Europeia e outros parceiros, abrangendo "700 milhões de consumidores". A eurodeputada cita ainda estimativas que apontam para um aumento de "30 a 50% nas exportações anuais da União Europeia" para os países do Mercosul, com ganhos económicos que podem chegar a "nove mil milhões de euros por ano".
Para Portugal, considera tratar-se de "uma grande oportunidade", nomeadamente nos setores dos vinhos, azeite e laticínios, sublinhando que o acordo abre um mercado de mais de 270 milhões de consumidores, incluindo "210 milhões de falantes da língua portuguesa".
Índia
Na entrevista, abordam-se ainda as relações entre a União Europeia e a Índia, antes da cimeira prevista para 27 de janeiro, em Nova Deli. Lídia Pereira classifica estas negociações como "outra grande oportunidade" e uma nova expressão da "afirmação geopolítica da União Europeia num contexto altamente turbulento".
A eurodeputada considera que, se a União Europeia não assumir a liderança na assinatura destes acordos, "é claro que vai haver vontade e apetite por outras geografias do mundo a ocuparem esse espaço". Lídia Pereira destaca ainda que o setor agrícola está fora do acordo com a Índia, o que, na sua perspetiva, reduz potenciais tensões.
Para Lídia Pereira, a diversificação de parcerias económicas tornou-se "uma evidência", face à instabilidade e "inconsistência" da administração norte-americana, defendendo que acelerar acordos não significa "abrir outras frentes", mas sim "abrir outros canais de comunicação, outras parcerias e, eventualmente, outros potenciais aliados no mundo".
A eurodeputada sublinhou ainda a importância do respeito pelo "level playing field", considerando que sem esse princípio "não haveria credibilidade por parte da União Europeia nos acordos que está a assinar".
Defesa
Lídia Pereira afirma que os acordos comerciais são hoje "provavelmente dos instrumentos mais eficazes" da política externa europeia, ainda que não sejam os únicos. Refere que estes instrumentos permitem tanto o estabelecimento de regras comuns, como o cumprimento de metas ambientais, incluindo as previstas no Acordo de Paris.
Num mundo em que, segundo diz, "parece que se fecham portas à União Europeia através do multilateralismo", a eurodeputada considera que os acordos comerciais continuam a ser "exemplos desse multilateralismo" e um sinal de que a União Europeia "está a fazer um bom trabalho", mesmo perante críticas e vozes negativas sobre o seu papel internacional.