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A atriz e realizadora Maria de Medeiros afirmou hoje que a atual crise económica na Europa está a causar problemas graves a que só é possível resistir a «pensar».
«A resistência chama-se pensar», afirmou a atriz numa entrevista à agência EFE em Madrid, onde apresentou o seu último documentário, "Repare bem", com o título em espanhol "Los ojos de Bacuri", no Festival de Cinema Brasileiro Novocine.
Artista pela Paz da UNESCO, Maria de Medeiros afirmou que é nos momentos de crise, como o atual, que «a arte é essencial».
«Temos uma crise também de identidade de pensamento, a atividade criativa é justamente a que poderia ajudar-nos a sair desta depressão económica, e psicológica, que atravessamos, mas nem isso nos permitem», afirmou.
Esta é uma referência de Maria de Medeiros aos governos do mundo ocidental, a quem acusa de colocar obstáculos às soluções e deixa duas perguntas: «Pergunto-me o que têm na cabeça os atuais dirigentes, qual é o seu propósito? Onde estão os intelectuais que os detenham?».
A atriz, conhecida pela sua participação nos filmes "Pulp Fiction" e "Henry e June" e pela realização do filme "Os capitães de Abril", referiu-se também às «lutas» da geração dos seus pais, quando havia «um monte de ideólogos e milhares de propostas».
«Agora há um défice muito grande e até me culpo a mim mesma por apenas fazer canções e filmes», disse.
Do seu ponto de vista, as soluções para os problemas «teriam que ser tão globais como os problemas e, neste caso, a resistência chama-se pensar».
«Quanto mais tempo passa, mais bonita me parece a 'Revolução dos Cravos', o modo como a democracia chegou ao meu país», a 25 de abril de 1974, acrescentou.
Ainda mais agora, afirmou, «quando alguém diz que vai implantar uma democracia só causa caos e violência, morte e repressão, miséria total».
«E os portugueses conseguiram esse milagre de uma revolução feita por militares num golpe de Estado militar que restituiu de imediato o poder à sociedade civil», disse.
O documentário "Repare bem", realizado por Maria de Medeiros, acompanha três gerações de mulheres afetadas pela antiga ditadura brasileira, e conquistou, em agosto, três prémios no Festival de Cinema de Gramado, Brasil.
O filme, já exibido em 2012 na Mostra de Cinema de São Paulo, regista depoimentos de duas mulheres (mãe e filha) que sofreram com a ditadura militar brasileira, a partir da história de Eduardo Collen Leite, militante da extrema-esquerda, conhecido como Bacuri", preso e torturado até à morte em 1970, aos 25 anos.
No documentário, Maria de Medeiros regista os depoimentos da antiga companheira de Eduardo Leite, Denise Crispim, que foi perseguida no Brasil quando ainda estava grávida, e da filha de ambos, Eduarda. Há ainda a avó, Encarnación, com um testemunho através de cartas e fotografias.