Tribunal japonês condena a prisão perpétua assassino de ex-primeiro-ministro Shinzo Abe

Créditos: Yuichi Yamazaki/AFP (arquivo)
Yamagami, de 45 anos, foi acusado de disparar contra o ex-líder japonês - que tinha deixado o cargo dois anos antes - com uma arma caseira durante um comício de campanha a 8 de julho de 2022
Tetsuya Yamagami, o homem julgado por ter assassinado a tiros o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe em julho de 2022, foi esta quarta-feira considerado culpado por um tribunal japonês e condenado a prisão perpétua.
O juiz Shinichi Tanaka proferiu a sentença durante uma audiência no tribunal da cidade de Nara, perto de Quioto.
Yamagami, de 45 anos, foi acusado de disparar contra o ex-líder japonês - que tinha deixado o cargo dois anos antes - com uma arma caseira durante um comício de campanha a 8 de julho de 2022, em Nara, perto de Kyoto.
No início do julgamento, em outubro, Tetsuya Yamagami confessou ter matado o ex-dirigente. O Ministério Público, de acordo com a comunicação social, tinha pedido prisão perpétua, dizendo que se tratava de um crime "sem precedentes" na história pós-guerra do Japão e citando as "consequências extremamente graves" para a sociedade.
No Japão, esta sentença deixa em aberto a possibilidade de liberdade condicional, embora, na prática, muitos morram sob custódia, de acordo com especialistas.
O assassínio de Shinzo Abe provocou um trauma num país onde crimes com armas de fogo são extremamente raros. E o fato de o agressor ter como alvo Abe pelos supostos laços com a Igreja da Unificação, também conhecida como 'Moonies', levou ao escrutínio das práticas dessa organização religiosa, acusada de exercer pressão financeira sobre os seguidores e de ter fortes ligações ao mundo político japonês.
Fundada em 1954 na Coreia do Sul por Sun Myung-moon, a organização rapidamente se aproximou dos intervenientes do palco político, com Moon a associar-se a chefes de Estado estrangeiros, como o ex-presidente dos EUA, Richard Nixon. Shinzo Abe chegou a discursar em eventos organizados por grupos ligados à Igreja da Unificação.
O Ministério Público detalhou, durante uma audiência em outubro, que Yamagami desenvolveu um profundo ressentimento em relação à organização. O réu descreveu, além disso, tentativas, iniciadas em 2020, na construção de uma arma de fogo através de informações obtidas na internet, e os testes de disparo executados numa área montanhosa remota.
Os advogados de defesa relembraram o suicídio do pai de Tetsuya Yamagami, quando este tinha quatro anos, e a impotência do filho ao ver a mãe, desesperada, a procurar consolo na Igreja da Unificação.
A mãe doou perto de 100 milhões de ienes (aproximadamente 850 mil euros na época) à organização, levando a família à ruína financeira. Tetsuya Yamagami abandonou os estudos e tentou suicidar-se em 2005. A morte do irmão, dez anos antes, foi considerada suicídio. "Ele começou a pensar que toda a sua vida havia sido arruinada" pela Igreja da Unificação, afirmou um dos advogados.
"Pensou que se matasse alguém tão influente quanto o ex-primeiro-ministro Abe, poderia atrair a atenção pública para a Igreja [da Unificação]", disse a acusação no início do julgamento.
A investigação revelou laços estreitos entre a Igreja da Unificação e vários membros do Partido Liberal Democrático (PLD, nacionalista de direita) no Japão, levando à renúncia de quatro ministros na época.
Uma investigação interna do PLD, em setembro de 2022, mostrou que metade de 379 membros do Parlamento na altura tinha ligações à Igreja da Unificação.
Em abril de 2025, um tribunal ordenou a dissolução da filial japonesa da organização, citando "danos sem precedentes" causados à sociedade japonesa.
O assassínio de Abe também sublinhou falhas no sistema de segurança, já que os agentes da polícia presentes não identificaram imediatamente o som do primeiro disparo, intervindo já tarde.
A tragédia levou ao endurecimento das leis de armas no Japão em 2024. Partilhar instruções sobre fabricação de armas ou informações sobre a venda de armas nas redes sociais é punível com até um ano de prisão.
