"Assassinaram o meu pai para me calarem! Enquanto for viva, não me calo"

Foi autarca em Maidan Shar, perto de Cabul, quando tinha só 26 anos. Dois anos depois, quando os taliban tomaram o poder, fugiu à morte certa. Agora quer ser voz das mulheres afegãs no mundo. Está em Lisboa e falou com a TSF.

Sentada de frente para dezenas de pessoas na zona de Belém em Lisboa, com Catarina Furtado do seu lado esquerdo, bate o pé ao ritmo da canção que Carolina Deslandes, à sua direita, lhe dedica, o tema "Eco", que fala de milícias, bombas que caem do céu, famílias que ninguém socorreu e apelos à liberdade. Antes, Zafira falou com a TSF.

Zafira Ghafari acaba de ser nomeada para o Prémio Sakharov dos Direitos Humanos e Liberdade de Pensamento: "Na verdade, é importante para o meu povo e para mim principalmente como mulher, porque assim sabemos como o nosso trabalho é reconhecido por pessoas que realmente conhecem a nossa força e estão a valorizar isso. Sabe muito bem."

Sendo o prémio anualmente atribuído pelo Parlamento Europeu um dos mais importantes na Europa nesta área, Zarifa Ghafari sabe que isso vai dar mais visibilidade à sua luta: "Sim, vai mostrar mais aos países europeus e aos cidadãos europeus que lutamos incansavelmente pelos direitos humanos, em particular, pelos direitos da mulher. Sinto-me muito bem com isso e fico muito feliz em ter sido indicada ao lado de tantas mulheres, mas é sempre uma surpresa."

Convidada para falar em Cascais numa cimeira sobre liderança através da organização WomenTech e em Lisboa, a convite da associação Corações Com Coroa, de Catarina Furtado, Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas, para a População desde 2001, Zarifa Ghafari diz que é tempo de a comunidade internacional dar a mão à palmatória: "é importante corrigir o erro da comunidade internacional, os cérebros que colocaram o governo afegão fora das negociações com os Taliban e fizeram acordos diretamente com os Taliban, o que realmente provocou uma grande confusão no Afeganistão".

"Assassinaram o meu pai para me pararem"

Aos 26 anos, foi das primeiras mulheres a assumir um cargo de relevo no Afeganistão, presidente da câmara de Maidan Shar, a sudoeste de Cabul, a menos de trinta quilómetros da capital. Não esquece o primeiro dia em funções, em 2019: "Foi difícil, mas foi sempre muito difícil. Fui atacada três vezes, perdi o meu pai por causa disso. Foi muito duro mas o mais assustadora era ser a única mulher caminhar pela cidade sendo a única mulher no governo da cidade, a liderar uma equipa só de homens, numa sociedade dominada por homens. Foi bom enquanto mudança na sociedade mas foi duro, como pode imaginar". Tem ideia das razões que levaram ao homicídio do pai, um antigo coronel do exército afegão? "Foi só para me pararem, mas não foi uma coisa dos Talibã locais, foi sempre algo planeado pelo ISI (serviços secretos paquistaneses) para me impedirem de falar contra eles e trazer para cima da mesa os seus jogos sujos". Mataram-lhe o pai apenas vinte dias depois de, pela terceira vez, a terem tentado assassinar. Não receia que agora a tentem eliminar, estando fora do país? "De facto, quando se trata do ISI e dos serviços secretos do Paquistão, se conseguem atacar o Black Lives Matter nos EUA, eles podem encontrar-te e apanhar-te em qualquer sítio. Eu não tenho medo de perder a vida; se saí do país, não foi por isso, foi para poder usar todas as plataformas para falar. Enquanto estiver viva, continuarei a fazer o mesmo".

Depois de ter sido alvo de três tentativas de assassinato por parte dos Taliban, depois de lhe terem deixado no corpo marcas para a vida, depois de lhe terem matado o pai a tiro à porta de casa, a 15 de agosto decidiu não fugir, esperar por eles, mas a mãe e o marido convenceram-na a fazer as coisas de forma diferente: "Eu estava à espera deles e estava a esconder-me de sitio em sítio durante cinco dias com a cidade sob controlo dos Taliban ... Foi muito difícil. Mas no último momento, quando levei toda a minha família para o aeroporto, a questão passou a ser mais sobre a minha responsabilidade para com a minha família, trazê-los para um abrigo seguro".

"O meu país é a minha casa"

Morta só seria uma vítima, viva poderia ser no mundo uma voz pelas mulheres afegãs, pegou num bocado de areia do aeroporto, terra chão da pátria que meteu dentro de um lenço e aconchegou ao peito e saiu do país... decisão difícil como nunca tinha tido outra: "Essa decisão foi a pior da minha vida, no sentido de que foi a mais difícil decisão da minha vida. Eu realmente conto os dias, horas, minutos e segundos para voltar para o meu país porque é a minha casa. Onde mais pode ser a nossa casa fora do nosso país?"

Aponta o dedo ao Paquistão por aquilo que acontece em solo afegão. Diz que o primeiro-ministro paquistanês faz lóbi, "de forma cobarde e vergonhosa" a favor dos Taliban: "O Paquistão é o único país a apoiar, alimentar e financiar grupos de turistas, em particular os Taliban. Então, preciso pressionar o Paquistão para parar suas interferências no Afeganistão, porque hoje em dia eles estão desesperadamente a invadir o meu país, o projeto de violação dos direitos humanos é executado pelo Paquistão, desenhado pelo Paquistão".

Procura a solidariedade europeia para ajudar aqueles que precisam de sair do país e para desenvolver projetos de apoio à educação das mulheres afegãs. Sabe que, hoje em dia, fazer chegar ajuda humanitária ao país, implica estabelecer pontes de diálogo com o novo poder no país. Mas Zarifa está disposta a conversar com os Taliban: "Estou muito ansiosa e interessada em conversar com eles, realmente quero falar com eles, dizer-lhes como nos sentimos a olhar para eles, dizer como estupidamente estão a abandonar o povo, como estupidamente estão a invadir nosso país, por causa de agendas estrangeiras, agendas paquistanesas".

Zarifa Gahfari sem medo de falar e a pensar num Afeganistão diferente. O jardim da associação Corações Com Coroa encheu-se para ouvir uma das primeiras mulheres autarcas do Afeganistão.

"Lutar contra os populismos, nacionalismos e negacionismos"

Catarina Furtado, que receberia o médico e ex-diretor-geral de Saúde Francisco George poucos minutos após conversar com a TSF, e que na sessão pública com Zarifa Ghafari diria que este é tempo para "lutar contra os populismos, nacionalismos e negacionismos", destaca o fundo criado pela associação que dirige e pela Cruz Vermelha presidida por George, "que tem como objetivo colmatar algumas necessidades específicas das pessoas que estão na situação de refugiadas e acolhidas em Portugal". 50% do fundo que recebe contributos até ao final do ano vai "para mulheres crianças e raparigas", sendo os restantes 50% especificamente "para mulheres crianças e raparigas do Afeganistão que estão a chegar".

A apresentadora de televisão e ativista dos direitos humanos refere que "estas necessidades específicas são aquelas que não estão incluídas nos critérios dos programas de acolhimento". Dá o exemplo de "cuidados de saúde específicos que não estão incluídos e que, por vezes, são urgentes e não há uma resposta rápida para isso, um reforço grande daquilo que é o ensino do português que, temos de ser honestos, não está a correr inteiramente bem. Queremos também reforçar o apoio às raparigas que querem ir para a universidade, bem como ajudar também nas questões de literacia institucional, que é uma das falhas que estão a acontecer". Tendo aprendido que o sofrimento não tem medida nem peso, "o sofrimento é o sofrimento" , Catarina Furtado ouve a história de Zafira Ghafari e afirma que "perante esta mulher coragem, que vai receber o prémio Corage, em Washington, que sobreviveu a três tentativas de homicídio, que tem o corpo todo queimado de uma delas, que viu o pai morrer, precisamente porque foi ele o grande suporte do seu empoderamento, que lhe deu a possibilidade de ter educação e de ser hoje uma mulher na política, as nossas problemáticas tornam-se, digamos, mais pequeninas".

Apesar dos problemas com que nos confrontamos e com as desigualdades profundas que a pandemia veio aprofundar, "nesta humanidade partilhada, nós temos a obrigação - e se ainda nos definimos como uma Europa humanista - de perceber que estas pessoas precisam do nosso apoio".

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