Boris vs Covid-19. Da teoria da imunidade de grupo aos cuidados intensivos em 11 dias

A derrota política no combate à Covid-19 tinha chegado dois dias antes do teste positivo. Boris Johnson deu agora entrada nos Cuidados Intensivos e o combate passou para o plano pessoal.

Boris Johnson, homem, 55 anos, com teste positivo para a Covid-19 a 27 de março foi levado esta segunda-feira para a unidade de Cuidados Intensivos do hospital St Thomas, em Londres.

Este podia ser só mais um caso de infeção por coronavírus que leva ao estado mais sério do combate à doença. Mas não é: este é o caso do primeiro-ministro britânico que, 11 dias depois do teste, viu o seu internamento agravado.

Este é também o homem que defendeu a abordagem da imunidade de grupo: a ideia de que, se se deixasse o vírus circular livremente pela comunidade, grande parte da população seria infetada e adquiriria imunidade.

O teste positivo

A 27 de março, Boris Johnson fez saber ao mundo, através do Twitter, que tinha testado positivo para o novo coronavírus. Num vídeo com pouco mais de dois minutos, o primeiro-ministro britânico anunciava que começara a sentir sintomas ligeiros, incluindo febre e tosse persistente. O teste à Covid-19 tinha dado positivo.

"Estou em auto isolamento, mas vou continuar a liderar a resposta do Governo por videoconferência enquanto enfrentamos o vírus", anunciava Boris Johnson.

E a imunidade de grupo?

Dois dias antes, o governante vira-se obrigado a reverter a aposta na "imunidade de grupo" e via o Parlamento britânico aprovar a legislação de emergência que dava poderes reforçados ao governo para combater a pandemia, incluindo a detenção de pessoas que sejam consideradas um risco para a saúde pública.

É que, de Itália, vinham más notícias para a estratégia da imunidade de grupo: o vírus circulou no país - que não adotara medidas de contenção e viu-se a braços com uma crise de infetados e mortos com que o serviço nacional de saúde italiana não tinha capacidade para lidar.

A situação depressa foi extrapolada para o Reino Unido. De acordo com os modelos matemáticos do Imperial College, "30% dos doentes que chegariam infetados aos serviços de urgência iriam para os cuidados intensivos", algo incomportável para qualquer sistema de saúde, caso a maior parte da população estivesse infetada.

Com o colapso à vista, Boris Johnson via-se obrigado a mudar de estratégia no combate à doença. O governo impôs um regime de confinamento, só permitindo às pessoas que saíssem para fazer compras de bens essenciais, exercício, para ajudar uma pessoa vulnerável ou para ir para o emprego, quando não for possível trabalhar remotamente.

Quem desrespeite as regras está sujeito a multas de 30 libras (33 euros) pela polícia, que também ganhou poderes para dispersar ajuntamentos de mais de duas pessoas.

Os sintomas que não passaram

Politicamente derrotado pela doença, Boris Johnson voltava ao Twitter este sábado. Dizia sentir-se "melhor", mas um dos sintomas "menores" mantinha-se: a febre. Por isso, e de acordo com "as indicações do Governo", mantinha-se em isolamento.

A manutenção do isolamento durou um dia. Dez dias depois do diagnóstico, em casa, Boris Johnson ainda tinha sintomas. Passaram a ser considerados "persistentes". Este domingo, e à falta de sinais de melhoria, o primeiro-ministro britânico foi internado para fazer análises.

O gabinete de Boris Johnson informava que o governante tinha sido levado para um hospital, por "precaução" e para fazer mais exames. Uma certeza mantinha-se: continuava "aos comandos" do governo apesar de ter sido hospitalizado, disse já esta segunda-feira ministro da Habitação.

"Hoje, ele [Boris Johnson] está no hospital para realizar testes mas vai continuar a ser informado sobre o que se passa e continua aos 'comandos do governo", disse hoje à BBC Robert Jenrick ministro da Habitação do governo de Londres.

O próprio primeiro-ministro já tinha ido, esta segunda-feira, ao Twitter dizer que estava "bem-disposto" e continuava em contacto com a sua equipa.

Cuidados Intensivos por "precaução"

Ainda não tinham passado 24 horas desde que Boris dera entrada no hospital e a mensagem que de lá vinha não era a melhor para o primeiro-ministro: tinha sido transferido para os Cuidados Intensivos.

Um comunicado de Downing Street dá conta de que "ao longo da tarde, o estado do primeiro-ministro piorou e, a conselho da sua equipa médica, foi transferido para a unidade de Cuidados Intensivos do hospital".

A BBC dá conta de que o governante foi transferido "consciente" e "por precaução, caso venha a necessitar de ventilação".

E, desta vez, não há mesmo forma de "continuar a governar": as funções do primeiro-ministro foram delegadas em Dominic Raab, que as cumprirá "onde forem necessárias".

Os antecessores David Cameron e Theresa May já recorreram ao Twitter para lhe desejar as melhoras. A antiga primeira-ministra sentiu mesmo necessidade de sublinhar que este vírus "não discrimina".

A Rainha Isabel II está a ser informada diretamente por Downing Street.

De acordo com a BBC, dois terços dos pacientes que dão entrada nos Cuidados Intensivos no Reino Unido são ventilados ao fim de 24 horas. As próximas vão ser cruciais para Boris Johnson.

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