Candidatos assassinados, muitos nomes bizarros e alianças impossíveis. Eis as municipais do Brasil

Matam um candidato a cada três dias numa eleição a que concorrem três Trumps (e 26 Hulks e 8 Batmans) e onde lulistas e bolsonaristas podem estar do mesmo lado. Politólogos não veem, entretanto, o sufrágio como teste real ao presidente, à exceção, talvez, dos casos de Rio e de São Paulo.

Perto de 150 milhões de brasileiros vão escolher neste domingo os seus novos, ou velhos, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores de entre uma imensidão de perto de 700 mil candidatos a mais de 5570 municípios.

Uma eleição que, mais do que o sufrágio para presidente da República e para o poder legislativo, deixa expostas as idiossincrasias da política à brasileira.

Um número chama, desde logo, a atenção: desde o início da pré-campanha, em setembro, a cada três dias é morto um candidato, na maioria dos casos por ação das milícias, no espaço urbano, ou por matadores profissionais, nas áreas rurais.

Cássio Remis, candidato a vereador do município de Patrocínio, em Minas Gerais, mostrava ao vivo numa gravação por telemóvel as obras executadas com dinheiro público no passeio em frente à sede da campanha de reeleição do atual prefeito Deiró Marra. O secretário de obras da cidade, Jorge Marra, que é irmão do prefeito, não gostou, dirigiu-se ao local e arrancou o telemóvel das mãos da pessoa que filmava Remis.

Indignado, o vereador foi ao escritório de Jorge Marra tentar recuperar o aparelho. O resto foi filmado pelas câmaras de vigilância no local: cinco tiros disparados por Jorge contra Cássio, que morreu de imediato.

A execução de Cássio Remis, do PSDB, de centro-direita, às mãos de Jorge Marra, do DEM, também de centro-direita, é o caso mais emblemático de todos os assassinatos durante a campanha eleitoral porque foi filmado.

Mas desde 17 de setembro, data do início oficial do período de pré-campanha eleitoral, já foram mortos mais 16 candidatos aos cargos de prefeito (presidente da câmara), vice-prefeito ou vereador, além de Remis.

Dá, segundo o estudo do politólogo Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, revelado pelo jornal Folha de S. Paulo, aquela média de um assassinato com fins eleitorais a cada três dias.

Se o período em análise for todo o ano de 2020, o número de mortos sobe para 80. Não são contabilizados no estudo casos passionais ou mortes na sequência de assaltos.

"E o pior é a sensação de impunidade, só 10% dos homicídios são resolvidos no Brasil", disse o politólogo. O caso de Marielle Franco, vereadora carioca morta em março de 2018, é pois uma ponta do icebergue.

"Tia Carmen, a dona do puteiro"

Outra especificidade das eleições é a multiplicação de candidatos exóticos com nomes de guerra como Gato Preto, Cachorro Quente, Gordinho da Usina, Tadeu Tô Contigo, Sallim Solução Amor no Coração, Professor Goiaba, Capitã Cloroquina.

Há ainda 26 Hulks e oito Batman. E três Trumps, para quem, como para o outro, a eleição ainda não acabou.

E os slogans arrasadores, como o de Tia Carmen, ex-dona da boite Carmen Club, de Porto Alegre: "Tia Carmen, Dona do Puteiro: Vote em mim ou eu conto."

Um dos slogans que mais vem viralizando é de um candidato, de Matinhos, Santa Catarina, que nem participa nas municipais deste ano. No entanto, o lema de Cassiano Piccoli, que nasceu com deficiência de crescimento, ficou na memória: "vota Anão, dos males o menor".

"Moro em Campinas, a maior metrópole do Brasil de entre as cidades que não são capitais estaduais, há 25 anos, mas sou de Muzambinho, Minas Gerais, licenciei-me em administração de empresas, com gestão em beleza, mas o meu talento específico sempre foi cuidar de sobrancelhas", contou à TSF o candidato Doutor Sobrancelha, de nome real Romário Martins.

"Entretanto, como sempre estive ligado aos media, um dia foi convidado para um evento televisivo, no qual surgi com um jaleco [casaco] todo branco, a apresentadora disse que eu parecia um doutor e assim me tornei o dr. Sobrancelha".

Dilma e Temer juntos?

Finalmente, como cada eleição regional é um microcosmos, muitas vezes independente da política nacional, o PT, de Lula da Silva, aparece coligado em mais de 300 municípios ao PSDB, do seu rival tradicional Fernando Henrique Cardoso.

E em mais de 600 cidades ao MDB, de Michel Temer, o tal que puxou o tapete a Dilma Rousseff no impeachment de 2016.

E até em 145 praças ao PSL, partido onde Jair Bolsonaro ainda dá cartas.

Entre os partidos com mais de 2000 candidatos às mais de 5000 prefeituras do Brasil há praticamente todas as combinações de alianças possíveis - as exceções são o partido Novo, que tem como política evitar coligações, e uniões entre o PSOL, um dos partidos mais à esquerda do país, com ideário semelhante ao Bloco de Esquerda, e o PSL, a força pela qual Bolsonaro se elegeu presidente em 2018.

De acordo com o cientista político Vinícius Vieira "no Brasil há dificuldade em encontrar partidos ideologicamente coerentes, a nível nacional não tanto, mas nos confins do país há interesses pessoais que se sobrepõem a interesses ideológicos".

"Por isso há tantos políticos que passam por inúmeros partidos, o Bolsonaro é um desses" completou ao DN o professor da Fundação Armando Álvares Penteado.

Por isso também as eleições regionais brasileiras, ao contrário do que sucede com sufrágios intermédios noutros países, nem sempre devem ser lidas como um teste ao governo.

IURD + Bolsonaro

Para o politólogo Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Análise, "não há que ler os resultados municipais como vitória ou derrota do presidente em exercício". "Eu pelo menos não li quando foi Lula, Fernando Henrique Cardoso ou outro e não leio agora com Bolsonaro."

Ainda assim, por razões óbvias, o presidente arrisca colar a sua imagem à dos candidatos que apoia nas duas maiores cidades - por acaso, ou talvez não, ambos dos Republicanos, o partido controlado pela IURD de Edir Macedo.

No Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo e atual prefeito, pode nem chegar à segunda volta. Em São Paulo, Celso Russomanno, mesmo depois do amem presidencial, ou sobretudo depois dele, começou a cair a pique nas sondagens.

Em ambos os casos lideram as corridas representantes da chamada "velha política", aquele que foi dizimada em 2018 no rescaldo da Operação Lava-Jato.

Na Cidade Maravilhosa, está quase certo o regresso à prefeitura de Eduardo Paes, que esteve no cargo de 2009 a 2017, como resume o politólogo da Universidade Federal do Rio Paulo Baía: "É o fim da "nova política", nascida nas eleições de 2018, com a eleição de Wilson Witzel como governador do estado e de Jair Bolsonaro como presidente", sentencia.

Enquanto isso Bruno Covas, atual prefeito pelo tradicional PSDB, neto de Mário Covas, histórico político paulistano, lidera na maior cidade do Brasil.

A esquerda, embora fragmentada, sonha com as segundas voltas nas duas metrópoles, sobretudo em São Paulo, onde Guilherme Boulos, candidato à presidência em 2018 pelo esquerdista PSOL, segue em segundo lugar. Em ambos os casos, o PT de Lula não passa de outsider.

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