"É preciso fazer muito mais para construir a paz e prevenir a violência"

Investigadora em zonas de conflito, Séverine Autesserre propõe uma abordagem alternativa de construção da paz. Acaba de publicar The Frontlines of Peace, livro que faz governos e ONU pensarem mais nas pessoas.

Franco-americana, 44 anos, autora premiada, investigadora, Séverine Autesserre é professora de Ciência Política no Barnard College e na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, com pós-doutoramento em Yale e um percurso académico que começou no país natal, em França, na Sciences Po e na Sorbonne.

Com longo trabalho de terreno na República Democrática do Congo, mas também em Timor-Leste, na Colômbia, Somália, Israel e territórios palestinianos, acaba de publicar The Frontlines of Peace, um livro sobre as linhas da frente, não da guerra, mas da paz. Como a construir de baixo para cima, a partir das pessoas que vivem nas zonas de conflito, dando relevo ao trabalho das organizações comunitárias e não como imposição do catálogo padronizado das missões internacionais.

Professora Séverine Autesserre, a sua relação com o mundo humanitário, seja ajuda humanitária ou estudos nessa área, de alguma forma tudo começou com o jornalismo e até mesmo, para ser mais preciso, com a rádio e, provavelmente, um gravador de fita Nagra?

Sim, absolutamente. O meu pai era jornalista. Foi técnico de som da estação de rádio francesa, Radio France. Então, tudo o que ouvi enquanto crescia era sobre Nagra, fitas e gravações de som e como melhor transmitir histórias com base no que estava a acontecer no mundo, sobre guerra e paz, para pessoas que, muitas vezes, não querem saber do assunto.

Então, é uma verdadeira criatura da rádio...

Eu sou filha da rádio. Sim, eu cresci a ir a toda a hora para a Casa da Rádio em Paris, a Maison de la Radio e vivi rodeada de jornalistas e de pessoas que faziam esse trabalho. Portanto, como sendo um deles.

O que é este livro sobre as linhas da frente da paz, no título Frontlines of Peace? Quando olhamos para guerras e conflitos, e mesmo que se trate de lidar com contextos pós-conflito, ouvimos muito mais sobre linhas da frente da guerra do que sobre as linhas de frente da paz...

É exatamente por isso. Porque tudo o que ouvimos sobre zonas de guerra é sobre como a paz não funciona, como a violência continua. E eu quis escrever um livro sobre o que funciona na construção da paz após a violência em massa. Portanto, Frontlines of Peace é sobre histórias de sucesso de indivíduos e comunidades locais comuns, que conseguiram construir a paz, mesmo nas piores circunstâncias possíveis.

Como Leymah Gbowee escreve no prefácio, o seu livro cobre exatamente o que é necessário para construir a paz a partir do zero. Portanto, a minha pergunta é: o que é necessário, afinal? Pela leitura do seu livro, acredito que o tempo, muito tempo, pode ser um dos fatores determinantes...

Sim, o tempo é muito importante. Mas o mais importante é garantir que todos estejam envolvidos. Porque, normalmente, quando pensamos em construção da paz, pensamos em envolver governos e líderes rebeldes e elites que estão nas capitais, enquanto, na verdade, se quisermos realmente construir a paz no terreno, precisamos de envolver todos, as pessoas comuns, ativistas locais, porque eles são os únicos que têm a capacidade, a rede e a experiência para realmente construir a paz nas suas comunidades.

Portanto, é mais sobre esperança e perseverança do que sobre guerra e, e o fracasso dos processos de construção da paz; ou seja, muito baseado em soluções locais para problemas locais. Mas porque é que essa abordagem foi tão amplamente negligenciada ao longo dos anos?

Essa é a pergunta do milhão de dólares. E tenho-me perguntado isso: porquê? Quando se pensa sobre isso, é óbvio que devemos colocar as pessoas envolvidas no conflito como capazes de resolver o seu próprio conflito. Quando vejo que essa abordagem foi negligenciada, penso que há muito pouco tempo, há 20 ou 30 anos, as pessoas nem pensavam nisso. Estava completamente fora do quadro mental das pessoas. Há 10 anos, alguns começaram a defender uma forma diferente de fazer a paz. Mas embora soubéssemos que deveríamos agir de maneira diferente, era muito difícil fazer. E agora temos um discurso focado em trabalhar no nível local, de que devemos incluir atores locais, mas ainda não se concretizou. E é isso que o livro Frontlines of Peace está a fazer, mostrando que há maneiras de traduzir a teoria em prática real, porque há pessoas que já estão a fazer isso na prática.

E já estão a fazer isso há algum tempo...

E eles têm feito isso há décadas. E funciona. É que o mais importante é que, novamente, quando se olha para os esforços de paz ao redor do mundo, vemos que os recursos da comunidade local conseguiram ajudar a construir a paz, mesmo nas piores zonas de guerra possíveis, como na República Democrática do Congo. Esse é o palco de um dos conflitos mais mortais desde a Segunda Guerra Mundial, ou na Somália, ou em Israel e nos territórios palestinianos, ou na Colômbia; realmente, em todo o mundo, podemos ver esse tipo de histórias de sucesso.

Mas, para chegar a essas histórias de sucesso, para as conseguirem, os países, agências e ONGs precisam de mudar o foco principal, deixando de abordar tanto as consequências e mais as causas do conflito?

Bem, depende. Se está a falar sobre organizações humanitárias, sim, com certeza, elas concentram-se em lidar com as consequências da violência. E isso é muito importante. Mas o meu ângulo é nas que chamo de agências de construção da paz, as agências que se concentram em abordar as causas da violência, como as forças de manutenção da paz das Nações Unidas, muitas missões diplomáticas em zonas de guerra e muitos doadores e organizações não-governamentais. É verdade que já se concentram em abordar as causas da violência. Mas, neste livro, mostro que a maneira como o fazem, geralmente, não funciona. E é altamente problemático. Portanto, estou a sugerir outra forma de melhorar a construção da paz.

A Peace Inc, Peace Incorporated, que a Severine identifica como a forma convencional de tentar acabar com as guerras, fracassou mais do que teve sucessos?

O que eu chamo de "Paz, Inc "é o padrão da forma tradicional de construir a paz. E é assim que a maioria de nós está familiarizada com a abordagem para construir a paz, que depende de governos, elites e líderes rebeldes, que se concentra em apertos de mão entre presidentes e acordos abstratos de paz e negociações entre governos e líderes rebeldes. E é algo que exclui completamente os cidadãos comuns e ativistas locais. É uma forma de construir a paz que vemos, por exemplo, se olharmos para o conflito atual em Israel e nos territórios palestinianos, no acordo de cessar-fogo recente. Isso é "Paz, Inc", isso é garantir que os líderes assinem um acordo de paz. Temos esse tipo de acordo de paz em todo o mundo. Já os tivemos várias vezes em Israel e nos territórios palestinianos. E não funciona. Esta abordagem não funciona porque não aborda as verdadeiras causas da violência ou ignora todas as verdadeiras causas da violência e também não inclui as pessoas comuns e os ativistas sociais comunitários. É preciso fazer muito mais para realmente construir a paz e prevenir a violência. E o que eu mostro no livro são realmente formas de construção da paz quotidianas e algo que, todos nós, no dia-a-dia, podemos fazer.

Ao mesmo tempo, afirma que o foco deve ser mais sobre o que foi alcançado, mesmo que em pequena escala, do que sobre os fracassos numa escala mais ampla e abrangente. O que deu resultado, em vez do que fracassou? É isso?

Sim, absolutamente. Porque quando você olha a pesquisa, ou quando fala com as pessoas, a gente sabe o que deu errado, todo o mundo sabe o que deu errado. Todos podem contar histórias de acordos de paz fracassados ​​e apontar relatórios e livros que explicam por que houve todos esses fracassos. Mas penso que é mais interessante pensar sobre por que é que às vezes houve sucessos. E é também isso que nos ajuda a ter um caminho a avançar.

Porque, olhando para o que tem sucesso, mesmo contra todas as probabilidades, mesmo nas piores circunstâncias possíveis, podemos ter um modelo sobre o caminho a seguir, podemos ter ideias sobre o que fazer quando queremos resolver um conflito, seja na própria comunidade, seja em Portugal, em Nova Iorque, ou em zonas de guerra ao redor do mundo, como na Colômbia, na Somália, em Israel, enfim, onde quisermos ajudar a diminuir a violência no mundo.

Os conflitos também evoluíram. O discurso de ódio em 1994, no Ruanda, foi através das ondas de rádio da Rádio Mil Colines, e não no Twitter, não no Facebook. O armamento também mudou muito. Isso também afeta o modo como devemos abordar os problemas?

Bem, tecnicamente, sim, claro, as redes sociais são muito mais importantes agora. Podemos usar a internet, mas as grandes ideias, a ideia de que não devemos contar apenas com os internacionais, mas também com as pessoas que estão a viver o conflito; a ideia de que, como estrangeiro, não sabemos o que é melhor, não temos a teoria, as capacidades e os conhecimentos certos e não construímos as soluções ideais para os problemas das pessoas; a ideia de que o tempo é importante, que leva muito tempo para construir a paz, que devemos conhecer o contexto local,... Quer dizer, todas essas ideias que desenvolvo no Frontlines of Peace eram tão relevantes há 30 ou 40 anos quanto são hoje.

O foco e o dinheiro investido nos esforços de construção da paz precisam de ser mais pragmáticos, mais de acordo com objetivos alcançáveis, em vez de... 'vamos lá promover a paz e a reconciliação e fazer eleições em seis meses'?

O que eu mostro é que, infelizmente, todas as coisas boas não andam sempre juntas. Normalmente, quando tentamos construir a paz numa zona de conflito, seja no Iémen ou na Somália, ou em Angola, promovemos tudo como um pacote. Temos a tendência de tentar construir a paz e a democracia e promover os direitos humanos e a igualdade de género, a boa governação, o combate à corrupção e essas coisas boas todas juntas. E a justiça, é claro. E o que mostro é que há tensões entre os diferentes componentes deste pacote. Às vezes, se quisermos promover a paz, vamos minar os direitos humanos ou minar a justiça. E isso é algo muito claro, por exemplo, em Israel e nos territórios palestinianos, onde temos esse conflito entre promover a paz e promover a justiça. Ou, um exemplo óbvio é quando se pensa em paz e democracia, organizar eleições é uma das melhores maneiras para ajudar a promover a democracia. Mas também sabemos que organizar eleições logo após o fim de uma guerra civil geralmente aumenta a violência, em vez de promover a paz e o fim da violência. Portanto, há realmente tensões entre os vários componentes e temos de saber escolher.

O mais importante é que, porque há escolhas difíceis a serem feitas, pessoas como você e eu, pessoas que vivem fora das zonas de conflito, não devemos ser nós a fazer essas escolhas, devem ser antes as pessoas que têm que conviver com as consequências da decisão. E isso remete para a ideia de realmente trabalhar com as pessoas que vivem o conflito no dia-a-dia.

É evidente que se correm riscos, mas a verdade é que, quando vamos para esses lugares, temos sempre um bilhete de regresso no bolso... Esse facto deveria ajudar-nos, a nós que somos de fora, deveria fazer-nos abordar a população local de uma forma diferente, talvez tratando as pessoas de uma forma mais digna?

Deveria. Mas nem sempre funciona assim. Como diz, quando vamos a esses locais, temos muitos privilégios, que nos deixam muito mais seguros, porque podemos sair quando as coisas correm mal. E também quando estamos lá, os senhores da guerra e os combatentes não podem ameaçar as nossas famílias, não podem ameaçar as pessoas que são realmente queridas para nós. Já as pessoas que vivem em zonas de conflito estão sujeitas a muita pressão e trauma, diariamente.

E então, como gente que vem de fora, temos muitas coisas para trazer, já que podemos ajudar a fornecer segurança, algum tipo de segurança, algum tipo de proteção para pessoas que vivem em zonas de conflito, também podemos estar um pouco mais distantes, emocionalmente falando, do conflito, e temos um papel de ajudar a mediar e construir confiança entre quem está a lutar.

Mas o que é importante é que temos de estar realmente cientes do nosso privilégio e honra, do facto de que podemos partir, do facto de virmos de fora, e, cientes disso, não chegarmos e sermos arrogantes e pensarmos que sabemos tudo mais e melhor. Mas, infelizmente, é assim que funcionam muitos intervenientes. E também temos de perceber que os ativistas locais, as pessoas comuns, têm muito conhecimento sobre o que está a acontecer nos seus países. E também têm muito a contribuir para os esforços de paz.

No livro, você fala sobre as relações tensas entre pessoas de dentro e de fora. Essa relação é crucial para o sucesso de qualquer esforço de construção da paz?

Sim, é, absolutamente. Quando vemos a relação entre os de dentro e os de fora de um conflito, quando os de fora trabalham no caminho da "Paz Inc", ou seja, quando chegam e pensam que trazem as soluções ideais para o problema, que tentam impor a solução tão obviamente, as pessoas no terreno ficam sentidas com isso, vão ser muito relutantes em fazer as coisas, vão recusar participar em reuniões. Por vezes, usarão a violência e rejeitarão completamente os internacionais que vêm para ajudar. Por exemplo, no Congo, tem havido protestos massivos contra as missões de manutenção da paz das Nações Unidas recentemente, pedindo a saída da missão de paz, o que é surpreendente de certa forma, porque são os únicos que podem realmente proteger as populações da violência por parte dos grupos armados.

Mas, por outro lado, temos de nos colocar na pele de alguém que está numa zona de conflito e que vê completos estranhos a chegar e a dizer: 'Eu sei tudo, vou resolver os problemas, vou resolver o próprio conflito', e essa pessoa não fala a sua língua, não entende nada da história da sua aldeia, do seu país, da sua comunidade, nada na sociedade, é alguém totalmente estranho ao contexto. Claro, você vai ter uma reação estranha e tenderá a não confiar nessa pessoa ou a querer que ela vá embora.

Enquanto as pessoas que eu tenho visto, que usam a abordagem alternativa, que são humildes, que permanecem por muito tempo numa dada comunidade, que aprendem a falar a língua local, que reservam um tempo para conversar com as pessoas do povo para entender as causas do conflito e o problema com as pessoas que o vivem, e que depois então discutem soluções com as pessoas afetadas pelos conflitos, essas pessoas ganham a confiança da comunidade e, obviamente, têm relacionamentos muito melhores com a população local. E, novamente, não é apenas em zonas de conflito; se você olhar o que acontece no meu país, nos Estados Unidos, é o mesmo tipo de padrão, o mesmo tipo de dinâmica e, no Reino Unido é o mesmo, e na França é o mesmo. Portanto, realmente, essa relação entre internacionais e locais é central para saber se podemos diminuir a violência de forma eficaz.

O que nos leva à sua conclusão de que existem modelos alternativos de construção da paz...

Sim, exatamente. Existem modelos alternativos de construção da paz. Não apenas para pessoas que vivem em zonas de conflito, eles podem seguir os modelos de pessoas que vivem em Idjwi (Congo), que vivem na Somalilândia, etc., mas também de pessoas que vivem fora e que querem ajudá-los. Existe uma maneira diferente de construir a paz. E existe uma maneira de ser humilde, de ser respeitoso e de construir a paz de baixo para cima, de uma forma que realmente possa durar décadas.

Numa secção do livro chamada "comédia de erros", fala-nos de uma anedota muito popular que vem do erro de tentar aplicar as mesmas políticas e as mesmas estratégias em cenários de conflito diferentes...

Essa é uma história que ouvi no Kosovo. E também no Afeganistão. E, para mim, é uma história que realmente resume tudo o que há de errado com a "Peace, Inc". Então, a história é a seguinte: um alto funcionário das Nações Unidas foi transferido da Libéria para Kosovo. E, quando chegou, organizou a sua vida da mesma maneira que a costumava viver. Ia para os bares, para os hotéis, para os restaurantes que eram apenas para estrangeiros, para expatriados, para pessoas como ele, para funcionários das Nações Unidas. E, então, interagiria apenas com um grupo muito seleto de pessoas, alguns líderes kosovares, muitos construtores de paz estrangeiros. E ele fazia o seu trabalho exatamente da mesma maneira, aplicando o mesmo modelo para construir a paz, usando as mesmas técnicas. E assim, no final do ano, teve de escrever um relatório para ver o que havia feito para enviar ao seu supervisor e aos doadores e tornar público. E então o que ele fez foi pegar no relatório que tinha escrito no ano anterior, na Libéria, apenas teve de clicar em pesquisar e encontrar, e substituiu a Libéria por Kosovo. E o problema é que, quando ele divulgou o relatório, de alguma forma, ele tinha falhado algumas ocorrências. E assim, o relatório que ele divulgou falava extensivamente sobre a Libéria no meio de um grande relatório sobre Kosovo. E todos entenderam o que tinha acontecido. É uma história que ouvi em muitos contextos diferentes. Para mim, é realmente como as pessoas dizem: 'bem, funcionários das Nações Unidas, muitos deles usam a mesma maneira de trabalhar, usam os mesmos modelos, as mesmas estratégias em qualquer lugar do mundo, seja na Libéria, Kosovo ou Afeganistão". E essa é uma das razões pelas quais a abordagem padrão para a construção da paz não funciona. Porque não se pode usar o mesmo modelo em todos os lugares, porque os conflitos são muito diferentes.

Portanto, uma paz duradoura, como escreveu, requer dar poder aos cidadãos comuns. Mas as conquistas das organizações sociais e comunitárias, - a professora Séverine também o escreve - não são muito frágeis? Isto é, não será sempre necessária a forma mais institucional, mais de cima para baixo, para ajudar a paz a durar?

Precisa de ambos, de cima para baixo e de baixo para cima, assim como precisamos de locais e de internacionais para construir a paz. E o ponto é que, atualmente, estamos a concentrar muitos esforços e recursos de tempo no trabalho com líderes na abordagem de cima para baixo, e estamos a dar apenas um pouco de apoio, dinheiro, tempo e esforços para os construtores da paz locais. Se olhar para as estatísticas, a última que vi é que apenas menos de 3% de todos os fundos para o desenvolvimento humanitário e a ajuda à construção da paz vão diretamente para organizações locais e representantes da sociedade civil. Então, o que estou a dizer é que precisamos de reequilibrar, precisamos de apoiar mais os esforços de base e precisamos de continuar a trabalhar de cima para baixo, porque a paz vai durar apenas quando for construída tanto de cima para baixo quanto de debaixo para cima.

Que conselhos daria a pessoal de organizações humanitárias ou a jornalistas que vão a zonas de conflito para evitarem serem veículos de reprodução de estereótipos duradouros?

Eu diria, em primeiro lugar: não pense que sabe tudo. Melhor, não pense que tem as teorias certas, as habilidades certas, a experiência certa, que traz as soluções ideais para os problemas das pessoas. Em vez disso, eu diria: por favor, ouça os residentes locais. Seja humilde, seja respeitoso. E tente manter a mente aberta, perceba que outras pessoas podem ter uma compreensão diferente da paz, da democracia, do desenvolvimento e de prioridades diferentes. Eu diria, certifique-se que conhece o contexto local bem, certifique-se que consegue falar pelo menos algumas das línguas locais, que tem um bom entendimento da história, política e cultura locais. Eu diria também que se pudesse tentar ficar no local o maior tempo possível, por anos ou décadas, é isso que os meus modelos de construtores da paz modelos fazem. Idealmente, isso seria bom e há pessoas que o fazem. E é por isso que existem bons trabalhadores humanitários, bons construtores da paz. É possível, eu diria, ser flexível. Tente adaptar as suas estratégias com base nos resultados e feedback que obtém e na forma como a situação evolui. E eu diria, também, pare de colocar os seus logótipos em todos os lugares. É algo que realmente enfurece as pessoas em zonas de conflito, ver doadores e as Nações Unidas e organizações não-governamentais colocarem os seus logótipos em todos os lugares.

Porque isso significa que entendem que os projetos não são das pessoas locais, não lhes pertence aquilo que está a ser feito. Ou seja, é entendido que está a ser imposto por estrangeiros. Portanto, é muito simbólico. E eu diria: tente ser discreto, tente realmente colocar os holofotes nos feitos dos seus parceiros locais, do seu tradutor local, da sua equipa local, das autoridades locais.

E a última coisa que eu diria, com base no que vi pessoas fazerem em zonas de conflito, o modo como trabalham aqueles que para mim são um modelo e a maneira como eles realmente fazem a diferença, é perceber que, às vezes, há escolhas difíceis a serem feitas. Portanto, às vezes, podemos ter de escolher entre objetivos muito valiosos, por exemplo, entre paz e justiça, ou paz e democracia. Os melhores construtores da paz que já vi dizem-me que não devem ser eles que fazem as escolhas, mas as pessoas que vão viver com as consequências das decisões; são elas que devem poder fazer isso.

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