"Esta é a batalha final: a Ucrânia representa a civilização europeia, a Rússia é passado"

Sergii Rudenko, o biógrafo (que não o é) de um presidente que também não pensou ser chefe de estado de um país invadido e em guerra com a Rússia. "Volodymyr Zelensky, biografia", o livro, já está nas bancas.

O livro revela, em 38 capítulos, as diferentes etapas da vida do presidente ucraniano, desde a infância em Kryvy Rih até à guerra atual com a Rússia. Os últimos capítulos do livro foram escritos num abrigo antibombas durante os ataques do exército russo sobre a Ucrânia.

Sergii Rudenko é jornalista, tem 52 anos, nasceu em Sumy. É editor-chefe do site Espresso TV, escreve uma coluna semanal no site da alemã Deutsche Welle. Trabalhou em vários meios de comunicação ucranianos como a Rádio Svoboda e a Gazeta 24. Foi editor de política no semanário Business Week, fundou um portal de livros e já tinha publicado livros sobre outros políticos ucranianos de renome: Viktor Yushchenko, Yulia Timoshenko e Viktor Yanukovitch.

Sergii, como e quando surgiu a ideia de escrever esta biografia?

Gostaria de dizer que não sou biógrafo, e nunca quis ser biógrafo oficial de Volodymyr Zelensky. Eu só decidi escrever a sua biografia quando ele ganhou a eleição presidencial. E então, deparei-me com uma enorme falta de informação sobre ele. E eu só queria saber mais e partilhar esse conhecimento com outras pessoas. Então o livro foi escrito e finalizado em setembro de 2020, e foi publicado na Ucrânia em janeiro de 2021. Depois de a guerra na Ucrânia ter começado, recebi uma sugestão do Thomas Linden, e decidimos fazer uma nova edição do meu livro com alguns episódios separados sobre a guerra.

O homem que queria ser o presidente da paz acabou por ser, por forças das circunstâncias, um presidente de guerra. Embora possa ser um pouco desagradável colocar a questão desta maneira... podemos dizer que como uma personalidade política de topo no cenário internacional, Zelensky foi feito por Putin?

Sim, podemos dizer isso. Acho que a guerra, que começou em 24 de fevereiro, nos mostrou outro Zelensky. E não apenas para os ucranianos, mas para o mundo inteiro. Porque antes da guerra começar, ele era um ator que fazia o papel de presidente que conseguia fazer alguma coisa e não conseguia fazer muitas coisas. Apenas fingia ser um grande político, mas estava longe disso. Então, a 24 de fevereiro vimos outro presidente, podemos dizer que a 24 de fevereiro, Zelensky nasceu como New World Leader, novo líder mundial. Posso dizer que não há outro presidente no mundo inteiro que esteja a lutar na guerra contra o agressor. E ele está a defender o seu país, o seu estado, a Ucrânia, deste agressor. E, com certeza, esta situação elevou o seu estatuto no mundo e ele entrou no topo dos líderes mundiais graças às suas ações, à sua bravura, pela sua liderança de pessoas corajosas; um estado corajoso que está a lutar pela sua independência, pelo direito e pelas suas vidas.

Como é que avaliaria o desempenho de Zelensky, não como ator, mas como político, depois de 24 de fevereiro. Tem feito sempre tudo certo ou cometeu erros, e se cometeu quais foram os principais?

Sobre os seus erros e algumas desvantagens, só podemos conversar depois de a Ucrânia vencer esta guerra. Porque agora é irrelevante falar mal do líder do estado, que está na guerra contra o agressor russo. Decidimos ficar longe desses argumentos. Em relação à avaliação das suas ações, nós jornalistas e os seus opositores, decidimos que agora a nossa principal tarefa é apoiar as suas ações e a sua liderança. E foi decidido pelos seus oponentes manter a calma e não dizer nada de mal para não piorar a sua liderança e apoiar o que ele está a fazer para vencer a guerra. Para mim, foi uma situação realmente demonstrativa dessa liderança quando os países ocidentais várias vezes sugeriram que ele saísse da Ucrânia. Mas ele decidiu ficar aqui. Ele não estava com medo. E ele ficou com o seu povo. Nos dias 24, 25 e 26 de fevereiro, eu estava em Kiev, e ele também estava em Kiev. E mesmo quando os grupos russos estavam a entrar na cidade, ele ficou aqui, mesmo quando percebeu que ele próprio era o objetivo número um de Putin, ele não teve medo disso. Uniu os ucranianos nesta luta contra os russos e agora não tem outro objetivo. É o seu principal objetivo: ganhar esta guerra. Antes de 24 de fevereiro, algumas pessoas na Ucrânia entendiam que a música russa, a língua russa, o cinema russo podiam ter lugar na Ucrânia. Mas agora todos estão unidos e unidos como nunca antes. E a partir de agora, nada de russo estará na Ucrânia. E esta união de pessoas é a mais incrível dos últimos 300 anos.

Mas quão bom ou quão mau foi o governo de Zelensky no país até 24 de fevereiro?

Digamos que todo o período anterior ao início desta Grande guerra foi cheio de reivindicações: queixas sobre corrupção na sua equipa, queixas de que ele foi levando para a sua equipa de trabalho os seus parentes, os seus aliados e amigos... E como analista político, escrevi muito sobre isso. Muitas vezes o que estava a acontecer era errado. E isso não era o que ele tinha prometido quando anunciou a candidatura em 2019. Acho, por exemplo, que ele subestimou o perigo da invasão. Várias semanas antes do início da guerra, os americanos tentaram-nos avisar e ele disse que os russos estavam apenas a criar pânico todos os dias. "OK, vamos fazer um piquenique em maio, descansaremos no verão, faremos as colheitas em setembro". Talvez ele não tenha acreditado. Mas os serviços de informações americano e britânico deram-nos uma visão completa desta invasão russa. E, na verdade, eu também não acreditei. Mas no dia 24 de fevereiro, quando vários mísseis caíram perto da minha casa, entendi que era real. E acho que provavelmente Zelenski não queria acreditar que a Rússia pudesse começar a matar ucranianos e a enviar mísseis contra as nossas cidades.

Depois de ler o teu livro, fica-se com a ideia de que... se o Bloco Poroshenko (o partido do ex-presidente) não tivesse criado a lei Boghdan para tirar Andri Bohdan das suas listas provavelmente este não teria convidado Zelensky e Zelensky não teria iniciado a carreira política. Isto faz sentido para ti?

Eu poderia adivinhar que ele se tornaria presidente com Bohdan ou sem ele. De qualquer forma, entradria na política, porque não dependia apenas de Bohdan, Naquela época, a sua popularidade era bastante alta. E poderia até competir com alguns políticos. Eu não disse que era com reputação de presidente, mas com alguns políticos famosos porque na sua carreira e popularidade como ator, ele era realmente reconhecível e tinha o forte apoio das pessoas. Não menos do que alguns deputados ou ministros. Bohan apenas o motivou, deu-lhe um pequeno empurrão, mas foi uma decisão coletiva. Porque concorrer para a presidência, é uma grande campanha, que exige recursos. E estes recursos estavam nas mãos de um oligarca, Kolomoisky e Kolomoisky era cliente de Bohdan, uma vez que Bohdan é advogado.

Mencionas no livro que este período da história da Ucrânia será conhecido como o período da rutura final com a Rússia. A minha pergunta é se não há caminho de volta, na relação entre as duas nações?

Estamos a lutar pela nossa independência e liberdade durante os últimos 300 anos, e durante todo esse período, o exército russo venceu constantemente em diferentes períodos, seja soviético ou Federação Russa. E agora, esta é a batalha final entre a Federação Russa e a Ucrânia pelo nosso futuro. É uma batalha entre dois estados, ou duas civilizações. A Ucrânia representa a civilização europeia, e a Rússia é civilização do passado. E para nós, essa batalha é muito importante, pois estamos a lutar pela nossa vida, e pelo nosso futuro ou pelo futuro dos nossos filhos e netos. E se voltarmos a alguma comunicação com a Rússia, eu gostaria que isso acontecesse não antes de 100 ou 200 anos, porque há coisas que a Rússia está a fazer agora que não podem ser perdoadas, pelo menos pelas pessoas que estão a viver agora, porque são testemunhas dessas ações, e não vão ser capaz de perdoar o que está a acontecer. Talvez depois de algum tempo, depois de 100 ou 150 anos, nas gerações futuras, falaremos sobre esses eventos de uma maneira diferente. Talvez a Rússia se desmorone e os nossos descendentes e os descendentes deles tenham alguma comunicação. Pode acontecer, mas não tão cedo.

Sergii, estás em Kiev?

Agora temporariamente estou a viver e a trabalhar em Liviv, de facto. Porque o prédio do meu canal de TV foi fechado. No caso, para ser reconstruído para se tornar um abrigo antiaéreo, então simplesmente não tínhamos lugar para transmitir a emissão. Então o meu canal mudou para Lviv e agora estamos a transmitir a partir daqui.

Como é que pensas que as coisas vão evoluir no futuro próximo, nas semanas e meses que aí vêm?

Na verdade, ninguém sabe. E acho que nem Putin sabe. Parece que esta guerra pode acabar tão rápido como foi com a União Soviética, lembro-me claramente de 19 de agosto de 1991, quando o partido queria ganhar a autoridade, o poder no estado, mas em quatro ou cinco dias, a independência da Ucrânia foi declarada. E espero que desta vez, eu quero acreditar, que as coisas possam acontecer da mesma forma e que esta guerra possa terminar tão rápido quanto começou.

OUÇA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA NO PROGRAMA CONSELHO DE GUERRA

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de