Mussassa
Reportagem TSF

"Estamos Juntos" por Moçambique

Um ano depois do ciclone Idai, a TSF regressa à Beira, a cidade devastada pela maior catástrofe natural da história de Moçambique. "Estamos Juntos" é uma reportagem de Cristina Lai Men.

De bata branca, os olhos de Zeferina ficam mais escuros de tristeza, quando sobe ao terraço do Hospital Central da Beira (HCB). No topo do edifício principal, o horizonte espraia-se até ao mar revolto e castanho, enlameado pela chuva dos últimos dias. Sempre que aqui sobe, Zeferina Simião fica triste, ao ver os sinais de destruição na cidade, incluindo a sua própria casa. "A árvore quando caiu, partiu tudo", recorda a directora de enfermagem do HCB, apontando para a casa sem tecto. "Tudo aquilo destruído é meu", lamenta, contando como colocou recentemente, 20 chapas no anexo, junto ao coqueiro, "mas com o vento de ontem, já se partiram quatro".

Sempre que chove ou há uma ventania, volta "a imagem do Idai". As pessoas interrogam-se sempre "vai voltar de novo?", acrescenta o director administrativo do HCB, Abu Júlio. "Estamos a tentar esquecer, mas ainda existe medo. Foi uma situação que marcou as nossas mentes" e "se voltar a acontecer, será o caos total".

Na noite de 14 para 15 de Março de 2019, a fúria do Idai devastou a cidade da Beira e toda a província de Sofala, fazendo mais de 600 mortos. O ciclone obrigou ainda à deslocação de mais de um milhão e meio de pessoas. Um ano depois, milhares continuam em campos de realojamento.

Acordar no meio do mar

O gabinete da direcção do HCB parece semi-abandonado.

Uma vassoura descansa junto à porta, cercada de cabos pendurados. Plásticos amarelos junto a um painel esvoaçam ao sabor do vento, enquanto como barulho de fundo, se ouvem sempre máquinas a trabalhar. As obras continuam, mas as consultas externas "não tiveram qualquer intervenção", relata Abu Júlio.

Enquanto percorremos os corredores, há utentes cabisbaixos. Nas escadas, escorre água pelos degraus. Choveu durante a noite e sempre que isso acontece, "continuamos a limpar a água", relata Zeferina. Quando chove mais, os médicos e enfermeiros têm de "procurar botas", porque "a chuva até ajuda a lavar os pés, mas temos de continuar a trabalhar".

A directora de enfermagem lembra que no dia do Idai, foi como dormir, acordar e estar "no meio do mar". Zeferina correu para o hospital, trabalhou horas sem fim, ficou traumatizada. No banco de socorro, estiveram a "limpar o sangue durante toda a manhã. O material acabou. Usámos gaze, porque havia muitos cortes, por causa de vidros e chapas que voavam". Muitos pensos foram feitos com compressas sem esterilização, sem respeitar as regras de higiene. Era demasiada "gente ferida".

No berçário, "o tecto saiu todo". Os cerca de 30 bebés foram retirados à pressa para outro bloco do Hospital Central. Um ano depois, os bebés continuam a ser levados para o mesmo edifício, longe da sala de partos, porque o berçário continua destruído. Os recursos são tão limitados, que o pessoal de enfermagem assume "fazer o trabalho com improviso", relata a directora Zeferina Simião. Mas nem tudo é mau. O bloco operatório recomeçou a funcionar e as tendas onde há um ano, funcionou o hospital de campanha italiano, começaram a ser desmontadas. "Provou-se que não vamos voltar a usar (as tendas)", explica Zeferina, "estão todas estragadas, por causa do vento". A intenção é guardar apenas uma tenda, para o eventual aparecimento de doentes com o novo coronavírus.

Zeferina Simião quer "esquecer tudo". Não é fácil, mas "o melhor é mesmo esquecer. Erguermos a cabeça e fazer de conta que nada aconteceu". Caso contrário, salienta a directora de enfermagem do HCB, "quase não ia andar".

Os filhos do Idai

"Os centros de saúde estão destruídos", afirma o director geral de saúde da Beira, Fino Massalambane. "Depois do ciclone, faltou tudo. Muitos centros de saúde não foram reabilitados". Basta chover, para não haver local onde armazenar os medicamentos.

Com o Idai, também triplicou a taxa de mortalidade materna. Após o ciclone, morriam sete a dez mulheres em cada 100 partos com complicações, enquanto antes da tragédia, registavam-se apenas duas a três mortes. O aumento de óbitos devia-se, em grande parte, ao mau estado das estradas, atingidas pelo Idai. Por isso, os Médicos com África (CUAMM) criaram um programa de ambulâncias, para transporte das mães e bebés.

"Começámos com três ambulâncias nos três centros sanitários com mais partos", explica à TSF Giovanna de Meneghi, responsável das actividades do CUAMM em Moçambique. Depois, com o apoio da União Europeia, o programa passou a ter cinco ambulâncias, que cobrem não só "a população inteira nos cinco centros" mais povoados, mas também as unidades de saúde vizinhas. Quando chove e os buracos nas estradas se tornam crateras inultrapassáveis, o CUAMM chega a trocar a mulher de uma ambulância para outra, para que a paciente "não fique pendurada" a meio do socorro. Com este programa, a taxa de mortalidade materna caiu a pique, para uma a duas mortes em cada 100 mulheres com complicações no parto.

O centro de saúde de Chingussura, um dos maiores da Beira, é um dos beneficiados com o programa de ambulâncias do CUAMM. A directora clínica, Laura Estanislau, recorda que com a destruição de todo o piso superior da maternidade, as grávidas tiveram de ser transferidas para outra sala.

"Não tínhamos condições. Era normal termos uma cama para quatro doentes ou mais. Os partos eram feitos no escuro, à luz da lanterna. Não havia comunicação, água ou luz".

Maria Luís estava grávida de gémeos, na altura do Idai.

Os bebés, Manuel e Carmone, têm agora 10 meses.

Um repousa no chão, embrulhado numa capulana. O outro está nos braços da mãe, enquanto Maria Luís recorda a fuga no dia do ciclone: "a ventania está a vir e eu disse se morrer, o destino chegou". A família correu para a casa de uma vizinha, onde encontrou abrigo. Algumas semanas depois, Maria Luís deu à luz, na maternidade de centro de saúde de Chingussura. Os bebés prematuros tinham dificuldade em respirar e, sem dinheiro para pagar uma ambulância, Maria Luís agradece ao CUAMM, os Médicos com África, que transportaram as crianças para Macuti.

No centro de saúde de Munhava, o número de bebés prematuros duplicou, por altura do Idai. De 6 a 7, passaram a 12 a 13 prematuros por mês, revela a responsável pela maternidade, Iolanda Vitorino, que se recorda de uma mãe que teve o bebé em casa no dia do Idai. Apesar da destruição, conseguiu chegar ao centro de saúde, no dia seguinte, ainda com a placenta por retirar. Com um ano, o bebé está agora "grandinho" e é como se fizesse parte da família. O pessoal da maternidade até brincava com a mãe, sugerindo que o chamasse de bebé Idai, conta Iolanda, entre gargalhadas de ternura.

Outro filho do Idai, o pequeno Abrãao, tem cerca de um mês de vida. A mãe Alzira, de 19 anos, ainda estava a estudar, na altura da tragédia. Agora, vive em casa da avó, que sustenta a família. O marido, electricista, ainda não arranjou trabalho. "Já estávamos a namorar", mas o Idai aproximou-os ainda mais. Alzira engravidou em Maio, cerca de dois meses depois da catástrofe. "É graças ao ciclone que temos este bebé", afirma sorridente.

A árvore é uma sala de aula

Um ano depois da passagem do Idai, muitas escolas na província de Sofala continuam sem tecto, sem carteiras ou livros para os alunos. Na escola primária de Mussassa, no distrito do Dondo, os tectos voaram há um ano, levados pelos ventos. De bata branca, a professora Joana tenta manter o silêncio na aula de Português, em dia de avaliação. Os alunos, entre os 6 e 8 anos, sentam-se nas carteiras ou no chão, mas a sala de aula não ajuda à concentração. Desde que o ciclone Idai destruiu os tectos da escola, as aulas são ao ar livre, à sombra da maior árvore na zona que serve de pátio.

"Não podemos ficar sem dar aulas", justifica a professora Joana, que tem na mesma turma cerca de 80 alunos, embora hoje estejam apenas 50 a 60. Com o Idai, "algumas crianças saíram de Mafambisse (o posto administrativo a que pertence o bairro de Mussassa) e não voltaram mais".

"Todo o tecto foi embora", recorda a professora Linetz Josefa. Após a passagem do Idai, não houve aulas durante duas semanas. Depois, "juntámos duas, três turmas", mas para quem estuda ao ar livre, "quando chove, não há aulas", acrescenta José João Costanja, o secretário do bairro de Mussassa.

Sorte diferente têm os alunos que se abrigam nas duas tendas montadas pela UNICEF. Aqui, as carteiras também não chegam, muitas foram vandalizadas na altura do Idai, mas quando a chuva volta, só o chão fica molhado. Nada que desanime as crianças, que gostam de estudar e cantar, sentadas sobre as capulanas estendidas no chão ou aos pulos, em cima das carteiras.

Ninguém sabe dizer quando a escola estará recuperada. Talvez até ao fim do ano lectivo, espera José João Costanja, mas Linetz Josefa é mais contida: "é fácil destruir, mas recompor leva muito tempo", salienta a professora.

Água para saciar a fome

Enquanto as crianças estudam, os mais velhos aguardam a chamada, para receberem uma senha que lhes dará acesso ao programa de assistência do Programa Alimentar Mundial (PAM) e da organização Food for the Hungry (FH). O apoio para 12.125 famílias (60 mil pessoas) começou em Novembro, no bairro de Mussassa, um dos mais castigados pelo Idai, mas termina com o fim da época de escassez.

O coordenador do projecto da FH, Ilídio Sitoe, explica que depois de receberem uma senha, os beneficiários são identificados através de uma impressão digital, levantam um voucher e passam por uma acção de sensibilização, num processo que demora cerca de três horas.

"Aconselhamos as pessoas a não correrem todas para a loja, porque o voucher é válido por 30 dias, para evitar as enchentes", sublinha Ilídio Sitoe. Nas acções de sensibilização, procura-se também incentivar a auto-suficiência, lembrando que "a ajuda não é para sempre". Portanto, os beneficiários devem continuar a actividade, cultivando as "machambas".

Cada família beneficiária recebe um voucher no valor de 2500 meticais (o equivalente a 35 euros) por mês, para gastar em compras nas três lojas identificadas pelo PAM. Arroz, farinha de milho, óleo, sabão e produtos frescos como frango e peixe são dos produtos mais procurados, mas para famílias de oito pessoas, como a de Celina Zionjo, os 2500 meticais por mês têm de ser esticados.

Com seis filhos, Celina conta que é preciso "aguentar, pouco a pouco, comer e saciar com água", mas esta beneficiária considera até que "o Idai foi bom", porque antes do ciclone as pessoas estavam a "morrer de fome". Agora, com a ajuda internacional, "ficou melhor".

O programa de assistência alimentar em Mussassa cobre a época de escassez, terminando no final de Março. O coordenador das verbas do PAM, Ryan Webb, admite que o fim do programa vai levar muitas famílias a sofrer de fome, até porque "a época de escassez vai continuar por mais tempo do que o normal", entrando pelo mês de Abril e até Maio. "Infelizmente, os nossos recursos são limitados", lamenta Ryan Webb, explicando que o PAM vai dirigir todos os esforços para os campos onde se encontram os deslocados do Idai.

Um ano depois, há ainda 27 campos no distrito do Dondo, num total de 40 mil desalojados. Entre os moradores e os provenientes de outras zonas da província de Sofala, mais de 100 mil moçambicanos continuam a receber ajuda alimentar, no Dondo, a cerca de 50 kms da Beira.

Voltar a sonhar

Nas oficinas da Young Africa (YA), uma associação que dá formação profissional a jovens entre os 17 e 24 anos, há um número recorde de estudantes, neste semestre: 900 jovens na Beira e 500 no Dondo. Numa cidade em reconstrução, a directora do Centro de Formação, Aksana Varela, nota que o Idai "criou muitas oportunidades", sobretudo nas áreas de construção civil, electricidade e carpintaria.

O responsável pelo curso de serralharia civil, Nelo Armando, conta com 50 alunos. "Muitos jovens aderiram à formação", depois do Idai, embora a YA tenha perdido cerca de 5% dos alunos, logo após o ciclone. Uns foram realojados com as famílias, outros deixaram de ter condições para se deslocar. Os que voltaram, ficavam isolados e macambúzios.

"Foi um dia muito triste na minha vida, porque vi muitas mortes. Foi uma destruição enorme", recorda Adamo Adeleite, aluno do curso de refrigeração. O jovem ainda baixa a cabeça e aperta as mãos quando fala do Idai. "Perdi um dos primos e até agora, não se sabe onde está".

Adamo vê no curso, uma forma de esquecer e deposita uma "fé grande" em conseguir um emprego assim que acabar a formação.

No curso de corte e costura, Dólica Mussore também quer "saber ser e saber fazer", para criar um auto-emprego. A jovem e a família estiveram dois dias à procura do corpo do padrinho dos pais, levado pela força das águas do Idai, quando uma barragem rebentou, em Lamego. Dólica recorda também uma prima que ficou internada no hospital durante um mês, com ferimentos graves, mas que "está viva".

O Idai "veio para destruir, para tirar tudo o que é sonho", lamenta Dólica, enquanto Adamo salienta "aquilo veio para marcar o coração das pessoas".

Colega de Adamo no curso de refrigeração, Sílvia Elias estava grávida do terceiro filho, no dia do Idai. As lágrimas ainda correm, quando recorda a aflição com que tentou fugir com as crianças e depois, as feridas nos pés, a diarreia provocada pela água suja que beberam do poço, durante uma semana.

O filho mais novo "não nasceu saudável". Com 8 meses, é "muito pequeno e não está a desenvolver-se como deve ser". No entanto, o curso na Young Africa dá-lhe esperança. "É outra vida", afirma confiante no hino da organização, que todos os alunos entoam nas primeiras horas da manhã: "o futuro de Moçambique estará nas nossas mãos".

A directora do Centro de formação da YA admite que "as pessoas ainda não se reergueram". Apenas "30% dos danos na Beira estão superados e a cidade vai demorar cinco anos para recuperar", antevê Aksana Varela, mas "estamos juntos".

"A Beira esteve muito mal, mas pelo menos, estou viva", era essa a mensagem que Aksana transmitia sempre aos jovens: "imagina que estás com vida. Tens de voltar a acreditar que a vida existe, que daqui, temos mais 100 anos de vida e que o ciclone não volta mais. Ele veio, mas não volta mais".

Nota do editor: a autora escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

* A TSF viajou a convite da Comissão Europeia

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