"Estou fechada em casa há três dias." Em Nova Deli, ar limpo é "luxo de alguns"

O ar está perto de se tornar irrespirável em Nova Deli e há problemas de saúde que surgem até a quem está dentro de casa. As autoridades já iniciaram o combate ao problema, mas falta educar a população.

Respirar livremente está a tornar-se num luxo em Nova Deli, na Índia. O nível de poluição na cidade aumentou no final do mês de outubro devido ao fogo de artifício lançado na noite de "Diwali" (o festival do Ano Novo hindu, em 27 de outubro) e às queimadas realizadas na zona norte de Nova Deli, mas mantém-se alto.

Mas, mesmo fora das ruas, é difícil respirar. Célia Mendes é professora de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Nova Deli, vive há três anos na cidade e contou esta manhã à TSF que este tem sido o pior ano de todos.

"Estou fechada em casa há três dias com um purificador de ar", começa por explicar. A luz do purificador está vermelha há três dias. "Das três cores, como deve imaginar, é a pior."

As dificuldades físicas provocadas pela poluição não deixam Célia Mendes indiferente. "Tenho dores no peito, tenho ardor nos olhos, dói-me a garganta. E estou em casa fechada, sem falar praticamente com ninguém", destaca.

Em Nova Deli, o ar limpo tornou-se, ao invés de um direito, num "luxo de alguns". Sair à rua está praticamente fora de questão: "Não há visibilidade, pouco ou nada se consegue ver a 100 ou 200 metros de distância." Ainda assim, o céu está "visivelmente melhor" depois de esta manhã a professora portuguesa quase não ter conseguido ver o prédio em frente ao seu.

Uma espécie de combate

As autoridades da cidade já começaram a tentar combater a poluição. Esta segunda-feira, entrou em vigor um programa conhecido como #OddEven (Par-Ímpar) que limita a entrada de automóveis na cidade de acordo com a matrícula. Esta é a terceira vez que o programa entra em vigor e as regras são simples: se o último dígito da matrícula for par, o veículo só pode circular em dias "pares". O contrário também se aplica: dígito ímpar, dia ímpar.

Os motociclos e outras 29 categorias de veículos - como veículos de Estado, escolares ou de emergência médica - estão excluídos, assim como veículos ocupados por apenas uma mulher, veículos ocupados apenas por mulheres ou ocupados por mulheres acompanhadas por crianças com menos de 12 anos. Veículos que transportem crianças de escolas também vão ter circulação autorizada, com base apenas e só na "confiança".

As regras vigoram entre as 8h e as 20h, exceto aos domingos, e o programa está em prática até ao dia 15 de novembro. A multa é de 4 mil rupias (50,6 euros).

Célia Mendes refere também um "aumento dos meios de transporte públicos", o fecho das escolas e a proibição de "obras de construção civil" durante três dias.

"Há muita conversa política, muitos jogos de atribuição de culpas ao estado vizinho e a este ou aquele ministro", explica a professora, que lamenta a inexistência de verdadeiras medidas de prevenção. "Infelizmente as medidas de precaução que deveriam ter sido tomadas há bastante tempo, e que deviam ser permanentes, não existem. Nem sequer são discutidas."

O que falta?

Célia Mendes consegue identificar as principais causas para a poluição e os problemas a combater. Entre eles há negociações mal conduzidas, incumprimento de regras e falta de educação ambiental dos cidadãos.

"Deve haver uma negociação com os estados do Punjab e Haryana, que são dois estados vizinhos que fazem a queima da palha nesta altura do ano. A fazê-la, devia ser em setembro, numa altura em que os ventos têm um comportamento diferente na região e não trariam o fumo para Deli", nota.

As fábricas locais, que "deveriam ter por lei certos limites de emissões", não lhes obedecem.

Por último, a questão "complicada" dos transportes numa cidade com uma população de 25 milhões de pessoas. "É precisa muita mais eficiência e uma educação da população a nível geral para que o parque automóvel seja renovado, para incentivar outro tipo de energias não tão poluentes e para incentivar coisas tão simples como andar de bicicleta", sublinha a professora. Em suma, "é precisa uma reestruturação a sério da cidade".

Está marcada para esta semana uma manifestação para exigir a tomada de medidas de prevenção por parte do Governo. Célia Mendes espera lá estar, assim o ar lho permita.

Dados do gabinete de Controle da Poluição mostram que a concentração de partículas PM 2,5 (as mais finas e suscetíveis de se infiltrarem nos pulmões) varia entre os 158 e os 372 por metro cúbico de ar, enquanto a concentração de partículas PM 10 atingem os 334. No último sábado, estes valores chegaram a ser de PM 2,5 460 e PM 10 632.

A Organização Mundial de Saúde considera que concentrações de partículas PM 10 superiores a 100 são perigosas para grupos de risco e, acima de 300, o ar torna-se tóxico para os seres humanos.

Segundo as autoridades ambientais, a exposição a estas partículas aumenta o risco de infeções agudas nas vias respiratórias, assim como de problemas cardíacos e cancro do pulmão.

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