Jesuítas vão pagar milhões de dólares de indemnização por comércio de escravos. Mas não é às famílias

Vários descendentes das pessoas escravizadas há quase dois séculos reclamam um novo acordo, que inclua uma compensação às famílias das vítimas.

Os jesuítas, ordem proeminente de padres católicos que escravizaram os seus ancestrais, prometeram reunir cem milhões de dólares (mais de 83 milhões de euros) como expiação pela sua participação no comércio de escravos norte-americano.

O dinheiro deverá ser transferido para uma nova fundação, cujo orçamento anual vai ser alocado, em parte, a projetos de reconciliação racial. Mas alguns descendentes dos escravos lesados contestam, por não serem incluídos na indemnização, adianta o jornal The New York Times.

O acordo foi firmado durante uma série de reuniões privadas com três líderes descendentes, mas muitas famílias sentem-se desconsideradas. As duas irmãs Ronda Thompson e Chanda Norton contam ao New York Times que, depois de os antepassados terem sido escravizados pelos jesuítas em Maryland, este acordo "é como se os descendentes também estivessem a ser injustiçados".

No mês passado, na conferência de padres jesuítas, foi anunciado um plano para arrecadar dinheiro de forma a indemnizar os descendentes dos escravos que a ordem submeteu e para promover projetos de reconciliação racial. Na altura, a iniciativa foi encarada por responsáveis da igreja e por historiadores como o maior esforço da Igreja Católica Romana para reparar a compra, venda e escravidão de pessoas. No entanto, a decisão final não agradou a todos, e já foram até lançadas petições para que Roma reabra as negociações.

Até agora a ordem de jesuítas recusou considerar. Kevin Porter, um arquivista cujos ancestrais também foram escravizados pelos jesuítas em Maryland, começou por elogiar o plano, por tratar-se de "um passo sem precedentes para reparar a injustiça da escravidão". Neste momento, contudo, diz-se preocupado por ser reservada tamanha quantia para iniciativas de reconciliação racial, em detrimento de outras necessidades. O descendente lamenta que não haja "mais programação para beneficiar a saúde mental, a educação financeira e o ensino, aspetos para capacitar os afro-americanos".

Além do apoio a projetos de reconciliação racial, um quarto do orçamento anual da nova fundação servirá para criar oportunidades educacionais para descendentes na forma de bolsas de estudo e subsídios. Outra fatia mais modesta do orçamento servirá para responder a necessidades de emergência de descendentes idosos e doentes.

Já foram identificados, por genealogistas do Georgetown Memory Project, um grupo sem fins lucrativos, perto de cinco mil descendentes vivos das pessoas vendidas pelos jesuítas em 1838. Só que há cálculos que sugerem que mais de dez mil sucessores de pessoas escravizadas pelos jesuítas encontram-se ainda vivos.

Os jesuítas serviram-se de trabalho escravo, bem como do dinheiro da comercialização de seres humanos, durante mais de um século. Essa quantia era usada para sustentar o clero e ajudar a financiar a construção e as atividades diárias de igrejas e escolas, incluindo Georgetown, a primeira instituição católica de ensino superior do país.

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