José Eduardo dos Santos (1942-2022). O presidente da guerra e da paz que se confunde com Angola

Entre 1979 e 2017, ninguém teve mais influência na história de Angola do que José Eduardo dos Santos. Estes são alguns dos momentos da vida de um dos maiores líderes africanos no pós-colonialismo.

Os últimos 80 anos da história de Angola confundem-se com a vida de José Eduardo dos Santos, que nasceu em Luanda há exatamente oito décadas.

Corria o mês de agosto de 1942 e, em Luanda, o colonialismo português atravessava tempos inatacáveis.

O filho do calceteiro Avelino e da dona de casa Jacinta foi batizado José Eduardo Van Dunem, e herdou do pai o apelido Dos Santos.

Viveu e estudou em Luanda até aos 16 anos, quando integrou a luta pela independência - em termos políticos e militares - integrando o MPLA.

Brazzaville, no vizinho Congo Belga, passou a ser a base de José Eduardo dos Santos, mas a estada foi curta.

Menos de dois anos depois, rumou a Baku, a atual capital do Azerbaijão, onde se licenciou em engenharia petroquímica e recebeu formação em comunicação militar.

É também em Baku que se casa com uma campeã de xadrez russa, Tatiana Kukanova, a mãe da mais famosa herdeira de José Eduardo dos Santos, Isabel.

Eduardo dos Santos regressa a Angola para integrar a componente militar e política do MPLA, mas a guerra contra Portugal não corria bem.

Quando a revolução acontece em Portugal, feita por militares descontentes com a Guerra Colonial, as portas da independência ficam entreabertas, e José Eduardo dos Santos já é mais um político do que um militar.

Em 1975, com a independência oficializada, Agostinho Neto assume a presidência do país e Eduardo dos Santos é o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Mas a liderança de Agostinho Neto e o regime de partido único instaurado abre uma nova guerra em Angola, que há de durar duas décadas.

Neto morre em 1979 e o poder do partido e do país passa para José Eduardo dos Santos.

A visita do presidente angolano à Alemanha de Leste, em 1981, consolida uma ideia de Angola alinhada com os países comunistas, com apoio soviético e cubano contra a UNITA, financiada por norte-americanos e sul-africanos e com mercenários sul-africanos.

No plano pessoal, o presidente, que foi tendo outras companheiras depois de se divorciar de Kukanova, volta a casar em 1991 com Ana Paula, hospedeira do avião presidencial, com quem tem quatro filhos.

E a guerra em Angola não é fria, é, aliás, muito quente. José Eduardo dos Santos tem, nesta fase, um inimigo que serve de desculpa para muito do que acontece no país. Visto do lado do presidente, a guerra é com Jonas Savimbi.

Muitas iniciativas de paz são tentadas, mas aquela que parece melhor encaminhada acontece por iniciativa do governo português. Em 1991, em Bicesse, no Estoril, Eduardo dos Santos e Savimbi aparecem ao lado do primeiro-ministro português Cavaco Silva e anunciam um acordo de paz e a realização de eleições em 1992.

Um ano depois, a campanha chega aos últimos dias e as palavras usadas por Eduardo dos Santos têm um alvo claro.

No dia das eleições, o MPLA ganha e a UNITA não aceita a derrota. Há combates em Luanda e Savimbi leva o seu estado-maior de novo para a mata.

Serão necessários mais dez anos de guerra para a derrota final da UNITA e um progressivo crescimento económico de Angola.

Em 2001, 26 anos depois da independência, José Eduardo dos Santos perguntou à multidão se queria levar a guerra até ao fim ou se preferia a paz negociada. Menos de um ano depois, Jonas Savimbi é morto após vários dias de perseguição e o corpo apresentado pelas tropas angolanas.

De visita a Lisboa, José Eduardo dos Santos é curto nas palavras que usa para reclamar a vitória na guerra.

A década que se segue é de reconstrução económica do país, começando pelo sistema financeiro, passando pelas infraestruturas e pela imagem externa de Angola.

A classe média angolana cresceu, mas as desigualdades persistem e os protestos sociais vão aparecendo, quase sempre, reprimidos pela polícia.

Durante mais de trinta anos, José Eduardo dos Santos foi presidente de Angola sem nunca ser eleito. Em 2012, as eleições gerais que o MPLA venceu nas urnas com 74% dos votos levaram à eleição indireta do presidente.

A crise seguinte foi desencadeada pela descida do preço do petróleo. Foi a crise definitiva para José Eduardo dos Santos. As vozes críticas que denunciavam a corrupção de estado e alguma oligarquia ligada ao presidente e à família ganharam força e acabaram por determinar a sucessão para João Lourenço.

O último discurso oficial do presidente Dos Santos aconteceu em 2017, numa reunião do conselho de ministros angolano.

A transição do poder não foi pacífica e João Lourenço quis mostrar que com ele as coisas seriam diferentes.

Não poupou os familiares de Eduardo dos Santos e o próprio antecessor ao denunciar, numa entrevista ao semanário Expresso, que tinha encontrado os cofres vazios.

Eduardo dos Santos teve de vir a público responder, numa inédita conferência de imprensa em Luanda.

A partir desse dia, só silêncio. Mesmo durante a revelação dos "Luanda Leaks", que obrigaram Isabel dos Santos a desaparecer da vida pública e a vender algumas das empresas que controlava em Angola, Portugal e noutros locais.

Os restantes elementos da família foram afastados dos cargos que ocupavam em empresas angolanas. José Eduardo dos Santos, doente, rumou a Barcelona para receber tratamento.

Regressou a Angola, no último natal, e foi visitado no domicílio pelo presidente João Lourenço com a televisão de Angola a filmar o encontro sem registo de declarações, mas dizendo que foi um encontro enquadrado pelo espírito natalício.

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