Morte de dissidentes russos. Coincidência ou braço longo do Kremlin?

Ao todo são mais de 15 casos em que se suspeita que o Kremlin, ou aliados seus, tenham estado por trás das mortes ou tentativas de assassinato. Entre todos só três sobreviveram: Alexei Navalny, Sergei Skripal e Viktor Yushchenko.

As primeiras vítimas foram identificadas em 2003, ano em que morreram o jornalista Yuri Shchekochikhin e o político Sergei Yushenkov.

Os dois tinham estado a investigar o atentado contra um edifício de apartamentos em Moscovo no ano de 1999. Em setembro uma bomba com 400 quilos de explosivos destruiu o edifício causando a morte a 97 pessoas.

Terroristas chechenos foram responsabilizados pelo ataque mas houve sempre quem suspeitasse de uma intervenção do Kremlin, na altura ainda nas mãos de Boris Yelstin.

O jornalista morreu 16 dias depois de ter sido atingido por uma misteriosa doença e o político foi atingido a tiro.

Em 2006 a vítima foi Anna Politkovskaya que caiu, junto ao elevador da casa onde morava, com 3 tiros no corpo e um na cabeça. A jornalista há muito que era ameaçada pelo trabalho que fazia na Chechénia denunciando os abusos de poder e pelas criticas a Putin que acusava de estar a tornar o país num estado policial.

A autora de diversos livros como "A Rússia de Putin" e "Guerra suja" era considerada a consciência moral do país.

Antes de ser abatida a tiro no prédio onde morava Politkovskaya, de 48 anos, foi vítima de pelo menos mais uma tentativa de assassinato. Em 2004, durante o cerco de Beslan, onde mais de 1000 crianças e adultos foram feitos reféns numa escola, ela sentiu-se doente depois de beber uma chávena de chá.

Anna Politkovskaya tinha sido envenenada mas sobreviveu, 2 anos depois não resistiu. Ela foi assassinada no dia de aniversário de Vladimir Putin e dois dias depois das comemorações do dia de nascimento de Ramzan Kadyrov, líder checheno pró russo. Isso levantou suspeitas de que alguém lhes quis dar um presente de aniversário.

Em 2006 começavam as mortes dos dissidentes no estrangeiro. O primeiro foi Alexander Litvinenko, um membro do Serviço federal de segurança russo que, em 1998, acusou os superiores de terem ordenado a morte do oligarca Boris Berezovsky.

Depois de ter sido detido duas vezes na Rússia ele fugiu para Inglaterra onde recebeu asilo. Durante o tempo que viveu em Londres, Litvinenko escreveu dois livros, "Terror na Russia - revelações de um ex espião do KGB" e "Lubyanka Criminal Group", em que acusou os serviços secretos russos de terem encenado os atentados à bomba contra apartamentos em diversas cidades russas e outros atos terroristas, como as crises de reféns da escola de Beslan e do teatro de Dubrovka. Tudo para levar Putin ao poder e justificar a guerra na Chechénia. Ele também acusou o chefe de estado de ter ordenado o assassinato de Politkovskaya.

Em novembro de 2006 Litvinenko encontrou-se com 2 antigos colegas dos serviços de segurança russos. Pouco depois ficou gravemente doente e foi hospitalizado. Após muitas análises os médicos conseguiram perceber que tinha sido envenenado com Polonium 210. 22 dias depois estava morto, mas antes teve tempo de garantir à policia que uma morte como a dele só podia ter sido ordenada por uma pessoa: Vladimir Putin.

A morte seguinte foi a de um advogado e auditor tributário de Moscovo que estava a trabalhar para a maior empresa de investimento estrangeiro na Rússia quando se deparou com um caso de corrupção que envolvia um grupo de membros do ministério do interior. Divulgado o escândalo, Serguei Magnitsky foi o único envolvido nas investigações que não quis fugir.

Ele foi preso e espancado quase até à morte e acabou por não resistir depois de lhe ter sido recusada assistência médica. Magnitsky tinha 37 anos.

O patrão, Bill Browder, que geria a empresa de investimento estrangeiro, ficou horrorizado. Sabendo que os responsáveis eram altos funcionários do regime e por isso dificilmente seriam detidos, ele decidiu atacar outro ponto doloroso para Putin. Browder conseguiu que vários países aprovassem a lei Magnitsky que passa pelo congelamento de bens e proibição de viagens ao estrangeiro de quem não respeite os direitos humanos.

Quanto a Boris Berezovsky era um oligarca russo que ajudou Putin a subir ao poder mas depois zangou-se com o protegido. Antigo empresário e político ele beneficiou do período de liberalização económica do período pós soviético. A dada altura era um dos homens mais ricos da Rússia mas a zanga com o sucessor de Yeltsin obrigou-o a fugir para Inglaterra.

Beresovsky foi vítima de várias tentativas de assassinato mas nunca se calou, mesmo no exílio continuou a atacar Putin e alguns dos parceiros do presidente como Roman Abramovich, dono do Chelsea.

Em 2013 depois de diversos associados terem sofrido mortes suspeitas Berezovsky foi encontrado morto em casa. Tinha uma ligadura à volta do pescoço, e sinais de asfixia, mas as causas da morte nunca foram esclarecidas.

Outro dos dissidentes que estava na lista negra do Kremlin era Mikhael Lesin. Também ele colaborou de forma muito próxima com Putin. Foi Lesin que ajudou a reduzir a liberdade de imprensa no país e inventou a RT (televisão russa), o canal que é actualmente o maior veículo de propaganda do Kremlin.

Incompatibilizado com o chefe de estado ele fugiu para o ocidente. Em 2015 estava em Washington para se encontrar com o governo americano, mas na noite anterior à reunião foi espancado até à morte no quarto de hotel.

Boris Nemtsov, um antigo vice primeiro ministro de Boris Yeltsin, foi assassinado a tiro num crime nunca resolvido. Forte opositor de Putin e um duro crítico da guerra na Ucrânia, duas semanas antes de ser morto a tiro perto da Praça Vermelha manifestou receio de ser assassinado.

A juntar a todos estes casos estão ainda os nomes de Badri Patarkatsishvili, sócio do Berezovski; Alexander Perepilishnyy, responsável pela lavagem de dinheiro; Nikolai Glushkov, antigo director da Aeroflot e ainda 4 líderes chechenos defensores da independência.

Apenas três pessoas desta longa lista sobreviveram a tentativas de envenenamento. Serguei Skripal, um antigo oficial dos serviços secretos militares, envenenado em 2018 com Novitchok. A Inglaterra que lhe tinha dado asilo acusou o Kremlin pela tentativa de assassinato dando inicio a uma guerra diplomática que envolveu também a União Europeia.

O segundo foi Viktor Yushchenko, na altura candidato à presidência da Ucrânia. Em 2004 foi envenenado com uma potente vacina que integrava o chamado Agente Laranja usado pelos americanos no Vietname. Tratado na Austria, Yushchenko sobreviveu mas ficou desfigurado.

Mais recentemente o mais forte opositor de Putin foi alvo de uma tentativa de assassinato quando estava em trabalho na Sibéria. Foi durante a viagem de avião de regresso a Moscovo que Navalny ficou gravemente doente. O avião aterrou de emergência e o opositor deu entrada no hospital já em coma. Os médicos russos garantiram que não havia qualquer sinal de envenamento mas a mulher, Yulia Navalnaya, não se conformou e exigiu que ele fosse transferido para o estrangeiro.

No Hospital alemão ficou provado que Navalny tinha sido envenenado com Novitchok. Ao fim de vários meses de convalescença o homem que tem denunciado diversos casos de corrupção ligados a Putin regressou a Moscovo onde foi detido.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de