O Brexit cumpre-se, mas o reino fica mais unido? Cenas dos próximos episódios

Da noite eleitoral do Reino Unido emergiu um vencedor claro - o Partido Conservador - e uma consequência óbvia - o Brexit vai mesmo acontecer. Boris Johnson conseguiu uma maioria absoluta e é o líder conservador mais bem-sucedido desde Margaret Thatcher na eleição de 1987.

O que até agora parecia extremamente difícil, longo e complexo, pode ter-se transformado num processo simples, fácil e relativamente rápido. Boris Johnson fez uma espécie de "all in" e saiu-lhe o pote. Se o Reino Unido também saiu a ganhar, isso já é muito mais difícil de prever.

E agora? A pergunta mais vezes repetida nos últimos anos volta a colocar-se depois destas eleições. Que futuro para terras de Sua Majestade? Que Europa sobra deste processo traumático? Que questões ainda procuram resposta? Eis um guia para compreender melhor as consequências destas eleições.

"Get Brexit done"

Com uma maioria absoluta, Boris Johnson tem caminho livre para "cumprir o Brexit". Esse foi, de resto, o único mote de toda a campanha do primeiro-ministro britânico: aprovar até 31 de janeiro o acordo de saída e retirar o Reino Unido da União Europeia até ao final de 2020.

Uma vez aprovado o Acordo de Saída, o Reino Unido entra num período de transição em que precisa de fazer aprovar um acordo comercial com a UE, de forma a evitar uma saída sem acordo no final de 2020. Johnson pode ainda optar por pedir que o período de transição seja estendido, sendo que tem de o fazer até junho de 2020, embora o próprio já tenha garantido que não vai pedir essa extensão.

Boris Johnson terá então de correr contra o tempo, isto porque os 27 Estados-membros restantes e o Parlamento Europeu têm de estar em acordo para iniciar novas negociações formais, o que pode acontecer só em março. Se, em junho, não houver acordo, o Reino Unido terá de assumir a saída sem acordo em dezembro de 2020. Em caso de acordo, o documento tem de ser ratificado, processo que pode demorar meses.

Johnson já garantiu que o Reino Unido tem seguido as regras da UE, pelo que as negociações devem ser simples, mas há quem aponte o dedo a Johnson para o acusar de querer que o Reino Unido tenha liberdade para contornar as regras europeias e poder fazer acordos com outros países.

Em último caso, o Reino Unido entrará num novo loop de discussões sobre o Brexit.

UE pronta para o Brexit

Conhecidos os números da vitória conservadora, a União Europeia já fez saber que está pronta para dar os "próximos passos" e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, quer começar a discutir o Brexit com os líderes dos Estados-membros, já esta sexta-feira.

Apesar dos primeiros passos terem que ser dados pela Câmara dos Comuns - que tem de fazer a sua parte e aprovar o Acordo de Saída -, a presidente da Comissão Europeia quer ouvir "imediatamente" Boris Johnson. Depois, garante, a Europa estará pronta para "negociar o que é necessário", ou seja, o acordo comercial.

No documento apresentado em outubro, ficou a saber-se que foi encontrada uma alternativa ao backstop que pode tornar-se permanente "com o consentimento da Irlanda do Norte".

Os regulamentos quanto a mercadorias vão estar alinhados entre Reino Unido e UE "quer digam respeito à ilha britânica ou à Irlanda, com controlos nos portos".

A Irlanda do Norte deve "permanecer no território alfandegário do Reino Unido", sendo que "beneficia de quaisquer novos acordos comerciais que o Reino Unido possa assinar". Ainda assim, alguns dos produtos que entrem, através da Irlanda do Norte, na República da Irlanda, terão mesmo de pagar taxas de importação.

Os pontos de controlo na fronteira terrestre também caíram.

Há outros temas que já tinham sido negociados por Theresa May, como os direitos dos cidadãos britânicos na UE e vice-versa.

O futuro do Reino Unido: uma nova guerra interna?

As eleições desta quinta-feira trouxeram uma nova questão à mesa do Reino Unido: o Partido Nacionalista Escocês ganhou força, praticamente tirando os partidos Conservador e Trabalhista do mapa político escocês e deixando antever um novo referendo sobre a independência escocesa.

O ministro Michael Gove já fez saber que "não acredita" que um segundo referendo sobre a independência "fosse a coisa certa para a Escócia ou para o Reino Unido". Mas essa é uma questão que promete marcar os próximos anos, tendo em conta que a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, já afirmou que a oposição do país ao Brexit reforçou a vontade de ser independente e que, por isso, quer um referendo já em 2020 ou 2021.

Também na Irlanda pode haver um referendo: o acordo negociado por Boris Johnson implementaria uma fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. Por isso, já vários nacionalistas irlandeses pediram um referendo à unificação das Irlandas.

Fim da linha para Corbyn

O cenário parece estar traçado. A noite trabalhista começou com lamentos sobre os resultados "desoladores" e de um "golpe devastador" para o partido. O braço-direito de Corbyn admitiu desde cedo que a direção do partido vai estar sob discussão nos próximos dias e os críticos internos até já pediram a saída do líder trabalhista.

Com o pior resultado do Labour em 80 anos, o processo de sucessão de Corbyn deve começar em breve. Resta saber daqui a quanto tempo ao certo e quem são os candidatos vindos da alas da esquerda radical e moderada.

Uma coisa já é certa: o líder trabalhista não vai estar à frente do partido nas próximas eleições. Palavra do próprio.

Acompanhe aqui ao minuto tudo sobre as eleições no Reino Unido

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