Olga Tokarczuk e Peter Handke vencem Nobel da Literatura

Os prémios Nobel de 2018 e 2019 foram ambos atribuídos nesta edição depois de, no último ano, um escândalo sexual ter afetado a Academia Sueca.

Os Prémios Nobel da Literatura de 2018 e 2019 foram atribuídos, esta quinta-feira, à escritora polaca Olga Tokarczuk e ao escritor austríaco Peter Handke, respetivamente.

A Academia Sueca anuncia, esta quinta-feira, os vencedores do Nobel da Literatura de 2018 e 2019, depois de o prémio ter sido suspenso, no último ano, devido a um escândalo que abalou a reputação da instituição e levou a várias demissões.

Olga Tokarczuk, de 57 anos, estreou-se enquanto escritora de ficção em 1993, com "Podróz ludzi Księgi" ("The Journey of the Book-People"), mas tornou-se reconhecida com a publicação, em 1996, de "Prawiek i inne czasy" ("Primeval and Other Times"). Em 2018, venceu o Prémio Internacional Man Booker pelo romance "Bieguni" ("Flights" - ou "Viagens", na versão portuguesa, editada pela Cavalo de Ferro).

Mas, para o comité que atribui o Nobel, o expoente máximo da obra de Tokarczuk, até ao momento, é "Księgi Jakubowe" ("The Books of Jacob") - no qual a autora "mostra a suprema capacidade de representar um caso quase fora do entendimento humano".

A Academia justifica a atribuição do prémio a Olga Tokarczuk pela "imaginação narrativa que, com uma paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiros enquanto forma de vida". Segundo o comité que atribui o Nobel, a autora "nunca vê a realidade como algo estável ou duradouro. Ela constrói os seus romances a partir de uma tensão entre opostos culturais; natureza versus cultura, razão versus loucura, masculino versus feminino, casa versus alianação".

Já Peter Handke, de 76 anos, estreou-se no mundo da literatura em 1966, com "Die Hornissen" ("The Hornets"). Foi o texto dramático "Publikumsbeschimpfung" ("Offending the Audience"), em 1969, que o catapultou na cena literária.

"Tendo produzido um grande número de obras nos mais diversificados géneros literários, Peter Handke estabeleceu-se como um dos mais influentes escritores na Europa após a a Segunda Guerra Mundial", declarou o comité que atribui o Prémio Nobel.

O autor mereceu a distinção pelo seu "influente trabalho com ingenuidade linguística que explorou a periferia e a especificidade da experiência humana".

O escândalo sexual que assombrou o Nobel

A polémica remonta a novembro de 2017, quando, entre a campanha de denúncias de abusos sexuais #MeToo, 18 mulheres revelaram, de forma anónima, no jornal diário Dagens Nyheter, abusos cometidos pelo dramaturgo Jean-Claude Arnault - ligado à academia através do seu clube literário e marido de um dos seus membros, Katarina Frostenson -, em instalações pertencentes à Academia Sueca.

Quando o escândalo surgiu, a Academia Sueca cortou a relação privilegiada que mantinha com o dramaturgo e pediu uma investigação externa, enquanto várias mulheres interpunham processos judiciais e o ministério público abria um inquérito, entre duras críticas do mundo cultural à instituição.

Várias divergências internas quanto às medidas a adotar surgiram então, desencadeando demissões, acusações e saídas de vários membros da academia, entre os quais a secretária permanente em exercício, Sara Danius.

Entretanto, os membros que continuavam a ocupar as suas cadeiras na academia decidiram divulgar os resultados da auditoria e entregá-los às autoridades.

O relatório rejeitava que Arnault tivesse influenciado decisões sobre prémios e subsídios, embora o apoio económico que recebeu violasse as regras de imparcialidade, pelo facto de a sua mulher ser coproprietária da empresa que geria o clube literário, e confirmava que a confidencialidade sobre o vencedor do Nobel fora diversas vezes violada.

Em junho, Jean-Claude Arnault foi acusado de dupla violação de uma mulher, em 2011.

Por esta altura, a Academia já tinha menos oito elementos (embora dois já tivessem saído antes por outros motivos), de um total de 18 que compunham aquela instituição cultural, e a decisão de não atribuir o Prémio Nobel relativo a 2018 já tinha sido tomada e anunciada.

No mês seguinte, como forma de protesto ao cancelamento do prémio, um grupo de mais de cem figuras culturais suecas, que se intitulou de Nova Academia, uniu-se para criar a sua versão do Prémio Nobel da Literatura.

O prémio alternativo distinguiu a escritora francesa Maryse Condé, em outubro, no mesmo mês em que o Tribunal de Estocolmo condenou Jean-Claude Arnault a dois anos de prisão por violação.

Entretanto, a Academia Sueca começou a eleger novos elementos, conseguindo completar em novembro todos os lugares deixados vazios na sequência do escândalo.

Por sua vez, Jean-Claude Arnault, que recorreu da decisão judicial, viu a sua pena ser confirmada e agravada, em dezembro, pelo Tribunal de Recurso de Estocolmo, com uma condenação a dois anos e meio de prisão pelos dois casos de violação.

No meio de todas estas convulsões, Katarina Frostenson, mulher de Jean-Claude Arnault, manteve-se na academia até janeiro deste ano, altura em que abandonou o lugar, após chegar a um acordo com a Academia, que aceitou atribuir-lhe um subsídio mensal em troca da sua renúncia voluntária.

Um relatório encomendado pela instituição havia concluído que a expulsão de Katarina Frostenson se justificava por ter violado os estatutos, ao informar o marido, o artista francês Jean-Claude Arnault, sobre os vencedores do Nobel e diversas nomeações.

Em fevereiro, essa última cadeira vazia foi ocupada e, em março, a Fundação Nobel anunciou que iria conceder o Prémio Nobel de Literatura de 2018 ao mesmo tempo que o de 2019, cumprindo o calendário de atribuição destes prestigiados prémios suecos.

Os responsáveis estão agora confiantes de que o prémio poderá ajudar a recuperar a imagem da instituição, com o secretário da Academia, Anders Olsson, a apostar numa escolha que evite a perspetiva "eurocêntrica" e "orientada para homens", que dominou as escolhas do júri no passado.

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