ONU alerta para agravamento dramático da fome no mundo devido à pandemia

Covid-19 dificultou ainda mais meta global de erradicar fome até 2030.

Cerca de 660 milhões de pessoas no mundo ainda irão sofrer de fome em 2030, ano fixado pela comunidade internacional para erradicar o flagelo, em parte devido aos efeitos da pandemia de Covid-19, apontaram esta segunda-feira as Nações Unidas.

O alerta consta no relatório anual "O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo" (conhecido pela designação SOFI), divulgado esta segunda-feira, que é elaborado por cinco agências do sistema da Organização das Nações Unidas (ONU): Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Programa Alimentar Mundial (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Com base nas atuais tendências, (...) estima-se que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número dois (Fome Zero até 2030) não será alcançado por uma margem de quase 660 milhões de pessoas. Destes 660 milhões de casos, cerca de 30 milhões poderão estar ligados aos efeitos duradouros da pandemia", lê-se no documento.

Erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a conhecida Agenda 2030, que foram estabelecidos, em 2015, pela ONU.

De acordo com o relatório, a crise pandémica, ainda em curso, desencadeou, em muitas partes do mundo, recessões graves e comprometeu o acesso aos alimentos.

No entanto, segundo frisam as cinco agências da ONU, mesmo antes da pandemia, o cenário já não era otimista, principalmente em nações afetadas por conflitos, por condições climáticas extremas, por outras recessões económicas ou por elevadas desigualdades sociais.

"A principal descoberta deste ano do SOFI é que, mesmo antes da pandemia da doença Covid-19, o mundo ainda não estava no caminho certo para acabar com a fome e a desnutrição mundial em todas as formas até 2030. Conflitos, alterações climáticas, recessões económicas também desafiaram os esforços para alcançar a segurança nutricional total", frisa o economista-chefe da FAO, o peruano Maximo Torero, sobre as conclusões do relatório.

Para o representante, todos estes fatores, "as verdadeiras razões que estão por detrás da fome (...) e do aumento da subnutrição" que o mundo enfrenta na atualidade, foram "exacerbadas devido à Covid-19".

"Observamos também hoje que o acesso a dietas alimentares saudáveis é um grande desafio", acrescenta Maximo Torero.

Os números e as informações reveladas no SOFI 2021 indicam, segundo frisam as cinco agências da ONU, que será necessário "um tremendo esforço para o mundo honrar a (sua) promessa de acabar com a fome até 2030".

À semelhança de anos anteriores, as cinco agências reiteram no relatório que é "essencial" a transformação dos sistemas alimentares, "para alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e colocar dietas alimentares saudáveis ao alcance de todos".

Mas, este ano, as agências quiseram ir mais longe e propõem aos líderes mundiais seis "caminhos de transformação" que podem, segundo acreditam, contrariar os fatores que estão a potenciar a fome e a desnutrição à escala global.

Integrar políticas humanitárias, de desenvolvimento e de construção da paz em zonas de conflito através, por exemplo, de medidas de proteção social para evitar que as famílias vendam bens escassos em troca de alimentos é uma das propostas explanadas no relatório.

Outra é aumentar a resiliência climática em todos os sistemas alimentares, algo que pode passar, nomeadamente, pela oferta aos pequenos agricultores de um amplo acesso a seguros contra riscos climáticos e a linhas de financiamento fundamentados em previsões.

"Fortalecer a resiliência dos mais vulneráveis à adversidade económica", através de programas de apoio em espécie ou em dinheiro para diminuir o impacto de crises ou da volatilidade dos preços dos alimentos, ou "intervir ao longo das cadeias de abastecimento para reduzir o custo dos alimentos" são outras duas propostas mencionadas no documento.

As cinco agências da ONU destacam ainda "o combate à pobreza e às desigualdades estruturais", bem como a necessidade de promover mudanças no comportamento do consumidor.

Neste último item, as organizações frisam a necessidade de eliminar as gorduras trans industriais da cadeia alimentar (associadas a doenças cardiovasculares), de reduzir o teor de sal e açúcar no abastecimento alimentar e proteger as crianças do impacto negativo do marketing alimentar.

Para "tornar possível a transformação" rumo a 2030, as agências apelam igualmente a um "ambiente propício" para mecanismos de boa governança e instam os decisores políticos a apostarem, entre outros aspetos, numa maior capacitação das mulheres e dos jovens e num aumento de dados e de novas tecnologias disponíveis.

"Acima de tudo", segundo exortam as cinco agências da ONU, "o mundo deve agir agora" ou "irá assistir a um intenso reaparecimento dos fatores relacionados com a fome e a desnutrição nos próximos anos, muito depois do impacto da pandemia ter passado".

Dados do relatório não surpreendem especialista português

Os dados deste relatório não surpreendem Pedro Graça, professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Este antigo responsável pela plataforma nacional contra a obesidade receia que só existam mudanças quando as consequências da fome atingirem os países mais ricos.

"Tal como a Covid nos obrigou a olhar, com outros olhos, para aquilo que são as nossas políticas internas e a forma de olhar para a saúde, talvez uma situação de calamidade, que nos está a chegar, obrigue, mais rapidamente, a pensar no que podemos fazer para mudar esta situação em termos globais. Espero que esses números ajudem a acelerar processos de mudança que às vezes demoram muito tempo, as pessoas sentem que não estão a vivenciá-los de perto e acredito que, à medida que se aproximarem dos países que, geralmente, tomam mais decisões, vão obrigar a mudanças mais radicais. Quando as consequências dessa fome começarem a bater, cada vez com mais força, às nossas portas", explicou à TSF Pedro Graça.

O professou salienta também que o fecho das fronteiras, por causa da pandemia, contribuiu para tornar os alimentos ainda mais inacessíveis a muita gente.

"Quando nos sentimos ameaçados, tanto na saúde como noutras áreas, a nossa primeira tendência é fechar fronteiras, para evitar que as pessoas circulem, mas esquecemos muitas vezes que o facto de as fronteiras estarem abertas também permitem que os alimentos, quando são produzidos em locais de forma mais barata, também possam circular. O que acontece é que não são só os alimentos que não podem circular, são pessoas de menor capacidade económica que dependem da produção e exportação desses alimentos para destinos que os podem comprar e que acabam por ser prejudicadas", acrescentou o professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de