Seis milhões de testes e 300 milhões de euros. Será que valeu a pena o esforço da Eslováquia?
Covid-19

Seis milhões de testes e 300 milhões de euros. Será que valeu a pena o esforço da Eslováquia?

Na Eslováquia, o exército saiu à rua e em apenas quatro dias foram diagnosticados mais de 57 mil novos casos de Covid-19. Quase duas vezes o número que tinha sido diagnosticado nos primeiros oito meses de pandemia. À TSF, o ministro eslovaco da Defesa explica que os números não foram uma surpresa para o Governo do país.

"Testar, testar, testar!" O apelo lançado em março pela Organização Mundial da Saúde parece ter sido levado à letra pela Eslováquia: em apenas dois fins de semana, foram feitos mais de 5,8 milhões de testes à Covid-19, um número superior à população do país. Para isso, foram precisas 40 mil pessoas - entre as quais oito mil militares e 15 mil médicos e outros profissionais de saúde - e 300 milhões de euros. "Sem dúvida a maior operação logística da nossa história", resume à TSF o ministro eslovaco da Defesa, Jaroslav Nad.

Apesar de ser uma ação de saúde pública, a "Operação Responsabilidade Partilhada" foi coordenada pelo exército. No entanto, no terreno estiveram também meios dos ministérios do Interior, da Saúde e até das Finanças", explica o governante. Mas a realização dos testes foi só o culminar desta gigantesca operação logística: "O tempo foi o maior obstáculo que encontrámos. Tivemos de encomendar vários milhões de testes, demos formação às autarquias e fizemos uma campanha de informação muito forte e assertiva. Tudo isto em menos de três semanas, que foi o que mediou desde que tomámos a decisão até ao primeiro teste."

Os testes voluntários e destinados à população com mais de dez anos, foram realizados em três fases: entre 23 e 25 de outubro, foi feito um primeiro ensaio em quatro dos 79 concelhos do país. Satisfeito com o resultado obtido, o Governo decidiu avançar, no fim de semana seguinte, com a testagem a nível nacional. "Abrimos 5.000 locais a que as pessoas se podiam dirigir para fazer o teste", explica Jaroslav Nad. O Executivo de Bratislava optou ainda por repetir, no fim de semana que se seguiu, a experiência nos 45 municípios em que a taxa de incidência foi mais elevada. "De uma forma geral, penso que esta operação foi um verdadeiro sucesso", conclui o governante. Contas feitas, foram realizados 5.811.163 testes, um número ligeiramente superior ao total da população do país.

"Esperávamos testar 3,8 milhões de pessoas e apareceram apenas menos duzentas mil do que as elegíveis - os antivacinação, os negacionistas, os que não acreditam nos testes ou os que consideram que o teste servia para implantar chips e embustes semelhantes. Mas a esmagadora maioria dos eslovacos compareceu e isso para nós é fantástico", conta o titular da pasta da Defesa.

Menos de 1% dos testes realizados deram positivo - foram 57.467 - e Jaroslav Nad não se mostra surpreendido. "Pensávamos que 2 a 3% da população estaria infetada. Tendo em conta que a sensibilidade dos testes de antigénio é de cerca de 50%, estes números vão ao encontro das nossas expectativas", explica o governante. Todos os que tiveram resultado positivo estão agora em confinamento.

Segundo o Infarmed, "os testes de deteção de antigénio, por princípio, têm uma sensibilidade menor do que os testes moleculares (PCR)". Mas a sensibilidade não é a única diferença. Habitualmente, os testes de antigénio são mais baratos, e permitem resultados mais rápidos - demoram entre 20 a 30 minutos.

A rapidez na obtenção do resultado foi, de resto, um dos fatores que ponderou na decisão eslovaca. "Retirámos de circulação 58 mil infetados. Antes de avançarmos para esta operação, o nível de reprodução do vírus variava entre 1.3 a 1.5. Estas 58 mil pessoas podiam facilmente infetar outras 100 mil que também iriam transmitir o vírus. Portanto, decidimos não esperar por um processo muito lento com os testes PCR", avança à TSF o responsável.

A satisfação é tal que o Governo não fecha a porta à repetição dos testes à escala nacional. "Por agora, estamos a considerar fazer uma nova ronda de testes, mas apenas nas regiões em que a percentagem de positivos foi mais elevada. Quanto ao resto, depende da evolução que observarmos nas próximas semanas. Mas, se tivermos de o repetir, estamos prontos."

Com a esperança de aceder à vacina em janeiro, Jaroslav Nad lembra que também nessa altura a experiência pode ser útil. "Algumas das lições que aprendemos com esta operação podem se utilizadas para uma campanha de vacinação em massa."

Quem teve o teste antigénico negativo recebeu um certificado que lhe permite circular livremente. O confinamento para quem está infetado é das poucas medidas em vigor no país.

"Na sexta-feira passada, tivemos uma reunião do gabinete de crise para a pandemia e os especialistas explicaram que estes testes massivos tiveram um efeito muito positivo na situação pandémica no país", assegura Jaroslav Nad.

Reino Unido, França e Alemanha interessados

O modelo tem despertado o interesse de outros países europeus. "Uma delegação do gabinete de Boris Johnson veio assistir in loco à operação. Já fizeram uma prova em Liverpool,. A Áustria anunciou esta semana que vai avançar com uma medida semelhante. Também temos recebido muitos telefonemas de outros Governos: da Alemanha, da França ou da República Checa", conta Jaroslav Nad acrescentado que, "Portugal ainda não nos contactou de forma oficial".

O Governo eslovaco mostra-se pronto a partilhar a experiência com os parceiros comunitários. "Irei apresentar as nossas conclusões na reunião dos ministros da Defesa europeus, mas posso adiantar-lhe que os dados oficiais mostram que, após cada sessão de testes, a taxa de novas infeções baixou drasticamente".

"Claro que esta medida pode ser adotada por outros países. Mas cabe a cada um decidir o que é melhor para si", lembra Jaroslav Nad. "A Eslováquia tem cerca de 5,4 milhões de habitantes. Isso corresponde a qualquer estado federado da Alemanha, portanto, o modelo será facilmente replicável."

Do Algarve para Bratislava

O português João Mariano é um dos vários milhões de pessoas que se sujeitaram voluntariamente ao teste.

"Quando estive de férias em Portugal, tive de fazer um teste PCR para poder voltar a entrar na Eslováquia. Este foi diferente, é feito apenas numa narina e não tive de sair do carro. Meia hora depois, deram-me o resultado. Felizmente, também deu negativo", relata à TSF.

O português, que há seis anos se mudou para a capital da Eslováquia, explica ainda que, com o resultado do teste, veio um certificado que lhe permite continuar com as rotinas diárias. "Posso ir à Áustria, onde trabalho, e regressar ao país sem problemas, posso ir às compras, não tenho qualquer restrição de movimento. Bem, não posso ir às compras entre as 9h00 e as 11h00, porque essas horas estão reservadas à população mais idosa, mas é a única restrição", acrescenta o algarvio.

De resto, João Mariano garante que são poucos os sinais de pandemia em Bratislava. "Diria que 90% das pessoas que circulam na rua andam de máscara, apesar de o uso ser obrigatório apenas nos transportes públicos." Um ambiente reforçado pelos resultados dos testes de antigénio. "Para surpresa de muitos, aqui na capital não há muitos casos. No oeste do país, em Kosice e Presov, a pandemia está mais ativa", conta João Mariano. Os números parecem dar razão ao português: desde o início da pandemia, a região da capital eslovaca registou menos de 8500 casos.

Portugal teria a ganhar em implementar uma estratégia semelhante à eslovaca?

Mas afinal o que são os testes de antígeno? "Antigénio é o nome que se dá às proteínas de um determinado micro-organismo - neste caso, o vírus -que são reconhecidas pelo sistema imunológico." A explicação é do virologista Pedro Simas. O investigador do Instituto de Medicina Molecular esclarece que a grande vantagem deste tipo de testes é a rapidez na obtenção do resultado: "Não elimina a necessidade de pessoas capacitadas para a recolha da zaragatoa, mas o teste de antigénio é muito bom como complemento ao teste PCR na gestão de surtos, porque permite tomar medidas imediatas, mas não o substitui". O virólogo deixa ainda um alerta: "O teste de antigénio negativo não quer dizer que a pessoa não esteja infetada e não seja transmissora".

Pedro Simas explica que "o teste de antigénio não tem esse passo de replicação, logo, é menos sensível. Também em função do ciclo de vida do vírus, deteta as proteínas virais numa fase mais tardia da sua replicação, porque deteta as proteínas da estrutura do vírus". O investigador tem-se batido há vários meses pelo recurso intensivo aos testes sorológicos, um tipo de provas que detetam anticorpos produzidos pelo organismo como resposta à infeção e permitem saber quem já esteve infetado e, por isso, já tem alguma imunidade.

A capacidade dos testes de PCR para encontrarem a infeção é maior, "porque este deteta o genoma, mas tem um método que é como se se amplificar o genoma milhões de vezes. Depois, como há esses milhões de cópias, tem uma sensibilidade maior e permite encontrar nem que seja apenas uma cópia ou duas do genoma".

Ainda assim, Pedro Simas defende que "os testes de antigénio podem ser usados de forma preventiva". "Como esta infeção produz muitos doentes assintomáticos, funcionários de lares ou profissionais de saúde, por exemplo, podem ser testados regularmente, mesmo sem sinais de infeção, para não transmitirem o vírus a pessoas vulneráveis e não só."

A população da Eslováquia - 5,4 milhões de pessoas - é sensivelmente metade da portuguesa. Tomando como referência os custos eslovacos, uma medida semelhante custaria aos cofres do Estado cerca de 600 milhões de euros. Este é um esforço que Portugal deve fazer? A resposta de Pedro Simas não podia ser mais perentória: "Não. Na situação em que Portugal está, não vejo grande utilidade em testar a população toda em poucos dias. Não vejo porque é que isso seria útil, penso que seria um grande desperdício de recursos."

Ressalvando desconhecer a realidade do país do leste europeu, o investigador diz não encontrar vantagens para Portugal, "porque a maior parte das pessoas iam ser negativas, apesar de algumas estarem infetadas. Vejo vantagens apenas na utilização destes testes integrados numa estratégia mais ampla e inteligente na mitigação dos efeitos da pandemia, como Portugal tem feito" conclui Pedro Simas.

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