"Todos estes políticos imbecis espanhóis estão a trair o silêncio de quem viveu a guerra"
ARTURO PÉREZ REVERTE

"Todos estes políticos imbecis espanhóis estão a trair o silêncio de quem viveu a guerra"

Linha da Frente, romance de Arturo Pérez Reverte sobre a Guerra Civil espanhola, podia ser sobre a Ucrânia ou qualquer outro conflito. E sobre seres humanos nas trincheiras. Uma conversa sobre os "impreparados" políticos atuais.

Arturo Pérez Reverte este é um livro que nos mostra que podem ser poucos os que ganham a guerra, mas são muitos os que perdem, quase todos, isto é, os jovens que a combatem em ambos os lados...

Sim. Se olharmos para a Guerra Civil Espanhola, na minha família vários combateram e lutaram de ambos os lados como aconteceu frequentemente. E nem aqueles que ganharam nem os que perderam se consideraram vencedores. Todos eles disseram que tinham perdido. E é verdade, numa guerra todos perdem. Os quatro ou cinco que lucram com isso, aqueles que manipulam bandeiras e hinos nacionais e negócios, ganham. Mas a grande maioria das pessoas perde.

Ou seja, se uma pessoa pensar na Guerra Civil espanhola, havia um grupo bom que era o lado republicano e havia um grupo mau que era o franquista, mas se uma pessoa se aproxima vê que já não está tudo tão claro... Há vítimas e carrascos em ambos os lados, há bons e maus sentimentos em ambos os lados, há gente desesperada em ambos os lados... Há criminosos em ambos os lados, como se percebe quando se leem as palavras do camarada capitão Bascuñana para a sua camarada de armas Pato...

Claro. Quando falamos sobre a Guerra Civil, obviamente, de uma forma ideológica é claro que havia um lado que estava do lado da lei e da justiça, que era a legalidade, que era a República, e havia um lado que era um lado que era o lado mau da história, que era o lado nacionalista ou o lado de Franco. Mas quando nos aproximamos do ser humano, só há seres humanos com as suas virtudes e as suas misérias. E eu vi a guerra civil. Cobri várias guerras civis como repórter e é sempre o mesmo. A condição humana vem à superfície no bom e no mau. Solidariedade, bondade, camaradagem, compaixão, bem como mesquinhez, maldade e crueldade. Assim, uma guerra civil é um lugar onde é muito difícil traçar linhas entre o bem e o mal, porque é tudo muito confuso. O problema em Espanha agora é que há pessoas que não conheceram a guerra, que não a viveram e estão a fazer um discurso absolutamente pernicioso sobre a Guerra Civil, como se houvesse realmente um lado bom onde não houvesse culpa e um lado mau onde não houvesse virtude. E isto é até perigoso. É por isso que este romance visa equilibrar as coisas. Ou seja, de ambos os lados houve heroísmo e crueldade, maldade e coisas admiráveis. Isso é porque os seres humanos são assim.

Será assim também na guerra entre a Ucrânia e a Rússia, mesmo não se tratando de uma guerra civil, mas sim um país que invadiu outro. É possível seguir a mesma linha de raciocínio?

Vejam, a guerra é a mesma. De Troia à Ucrânia. A forma técnica de fazer a guerra, de matar e destruir, mudou. Mas o ser humano é o mesmo. Assim, na guerra ucraniana, que é a guerra mais recente que todos nós temos, todos vimos na internet imagens dos dois lados a fazer atrocidades e a fazer coisas heroicas. Os russos fazem coisas terríveis e belas, e também vimos prisioneiros mortos, prisioneiros russos mutilados por ucranianos ou ucranianos mutilados por russos. Esse é o ser humano. Assim, é claro, a guerra é o ser humano levado ao extremo da sua bondade e do seu mal. E foi exatamente isso que aprendi quando era repórter de guerra, que os seres humanos não são desprezíveis nem admiráveis, e que ambos o são ao mesmo tempo. Essa é a lição que tentei trazer para o romance no livro Linha da Frente.

Na guerra no território ucraniano, parece haver muito aquilo que escreve na página 260...

Sim, foi por isso que escolhi a Batalha do Ebro. A Batalha do Ebro é a batalha mais dura e mais sangrenta da Guerra Civil Espanhola. Morreram 20.000 pessoar, houve vinte mil baixas de ambos os lados. Portanto, é uma batalha que começa por uma razão que é, digamos, estrategicamente importante, e acaba por ser um simples choque de carneiros, um confronto para ver quem tem mais tomates e quem consegue resistir mais tempo. E foi disso que se tratou a Guerra Civil Espanhola, essa crueldade complementar que é produzida não pela ideia, mas pela teimosia, pelo "vamos ver se posso ganhar, vamos ver se posso ganhar a todo o custo". Isso tornou-a uma guerra muito sangrenta e muito difícil.

Como é que tem visto essa guerra no leste da Europa?

A Ucrânia é apenas mais uma guerra. Cobri a guerra dos Balcãs. Uma coisa é que os eslavos são um povo muito duro, um povo muito cruel, um povo muito violento, porque historicamente, por razões históricas. Por isso é claro, tal como a guerra na Jugoslávia e a guerra no Kosovo, há um fator local muito importante, são guerras particularmente cruéis por causa disso. Mas bem, é uma guerra de atrito, uma guerra em que, insisto, o bem e o mal são relativos. Obviamente que se está com os ucranianos e não se está com Putin, mas quando se trata de abordar o ser humano, qual é a diferença entre um rapaz russo de 18 anos e um rapaz ucraniano de 18 anos na linha da frente? Nada, nada. É isso. Essa é a grande lição da guerra. De todas as guerras.

O livro é também uma homenagem à geração dos seus avós e do seu pai, por aquilo por que tiveram de passar?

Sim, há também algo muito interessante, que é o meu pai, o meu tio, toda a minha geração; os nossos pais e avós viveram durante a Guerra Civil e não nos disseram nada sobre isso. Não queriam envenenar-nos com ideologias ou ressentimentos, foram muito prudentes connosco. Falavam muito pouco. E quando falaram sobre a Guerra Civil fizeram-no mais com silêncio do que com palavras. Eles queriam manter-nos afastados do ódio que tinham experimentado. E quando essa geração morreu, quando outras gerações de jovens políticos que não tinham conhecido a Guerra Civil apareceram, trouxeram de volta o discurso do ódio, trouxeram de volta o confronto que tinha sido ultrapassado. O que é triste é que neste momento a Guerra Civil é uma arma, um instrumento político nas mãos dos políticos, quando nos anos 70 e 80 tudo tinha sido mais do que perdoado, serenado e superado.

Ou seja, a guerra usada como instrumento de contaminação ideológica...

Exatamente, exatamente. Agora constantemente falam de Franco ou da República, ou dos comunistas ou dos fascistas, quando isso estava superado. Assim, o que acontece quando uma geração de jovens políticos, sem formação cultural, sem argumentos intelectuais sólidos, não tem nada a discutir, utilizam a história como arma, como ferramenta, como arma de guerra. E é isso que eles estão a fazer. Estão a contaminar a história e a utilizá-la como elemento pernicioso para encobrir a sua falta de coerência política e a sua falta de estatura intelectual.

Portanto, existe também aqui uma motivação pedagógica da sua parte...

Bem, eu sou um escritor profissional. O meu dever é contar histórias e contar boas histórias. O que acontece é que por vezes as histórias têm uma leitura moral, ética ou pedagógica. Talvez este romance o tenha. Talvez este romance tenha uma leitura, uma tentativa de contar a memória com equanimidade, não com equidistância. Eu sei onde estou. Sou republicano em termos da Guerra Civil, mas com equanimidade. Por outras palavras, sou republicano, mas posso compreender as razões dos que não o eram, e é isso que é importante. O problema é que em Espanha, hoje em dia, não se aceitam falhas do próprio lado, nem quaisquer virtudes do lado oposto. Esta falta de equanimidade está a causar muitos danos.

Mesmo no campo de batalha, o soldado nunca deixa de ter o seu contexto de origem. Como o dinamitador Julian Panizo, quando escreve: "Fez o possível no mundo que lhe foi concedido, e por isso não se envergonha das suas limitações nem da sua falta de cultura. Aonde ele não chega com livros que outros leram, chega com sofrimentos e perigos. Com o tempo que anda a dar a cara na frente, a matar fascistas a sério, em vez de passear o fato-macaco e a espingarda levantando o punho em bares e bordéis da retaguarda"... Isto é, o contexto nunca abandona a pessoa mesmo na linha da frente.

Não, não, claro. Uma pessoa é sempre presa da sua própria memória, do seu próprio passado e quase da sua própria ideologia. Mas também, tal como o dinamitador Panizo, também aparece do outro lado um jovem alferes da Legião, um jovem que está lá a lutar pelos motivos opostos a este, que tem motivos tão poderosos como os de Panizo para lutar. E é isso que quero dizer, que em qualquer guerra, os dois lados, os seres humanos, todos têm motivos igualmente poderosos. A linha do bem e do mal, quando nos aproximamos do ser humano, fica muito, muito, muito desfocada. É por isso que é tão perigoso e tão prejudicial esquecer isso.

Há também da parte deles, que estão na linha da frente, um certo ressentimento, em relação aos que dão ordens mas ficam na retaguarda.

Sim, normalmente, na minha experiência pessoal, tenho visto muitos chefes incompetentes enviarem jovens para a morte sem qualquer remorso. E eu vi-o na Nicarágua, em El Salvador, no Líbano, nos Balcãs. Já o vi muitas vezes. Assim, o ressentimento do combatente que se defende, que luta contra aquele que está na retaguarda, envia-o e não luta, é óbvio. E também queria refleti-lo neste caso.

A guerra é sempre guerra. "Não mudou nada, é sempre guerra a mais", como diz o major O'Duffy?

Sim, é verdade. Porque eu também quis, neste romance, mostrar o ponto de vista de como fomos vistos de fora, o ponto de vista estrangeiro, como os meios de comunicação internacionais e os jornalistas estrangeiros veem os espanhóis, os ibéricos em geral, porque bem, e foi por isso que introduzi certos elementos e personagens. Para dar uma visão exterior que não fosse visceral e interior. E a propósito, isto faz-me pensar que Portugal também viveu essa guerra de uma forma muito intensa...

Houve gente que participou, que foi para lá combater...

Foi uma guerra que foi vivida com grande interesse aqui. Eu sempre disse que nada do que acontece em Portugal e Espanha é estranho um ao outro. Para mim continuamos a ser o mesmo espaço. Para mim, a Ibéria existe. Eu sou como Saramago, sou iberista. Não acredito que nada do que acontece em Portugal possa ser estranho à Espanha. E entristece-me muito quando a Espanha esquece que Portugal está lá e quando a Espanha vira as costas a Portugal e à sua história. A Guerra Civil Espanhola foi uma guerra civil que se viveu com grande interesse e paixão também em Portugal.

O livro acaba com uma frase sobre o personagem Saturiano Bescós, que nunca disse uma palavra sobre a Guerra civil. Depois de um relato de mais de 600 páginas e de muitos diálogos na guerra, fica o silêncio, a que já fez referência. É o silêncio pesado, por vezes insuportável, que muitos carregam depois de terem vivido e estado na guerra, por vezes até ao fim da vida?

Este silêncio a que me referi anteriormente é um silêncio que tem duas razões; antes de mais, uma razão prudente. Em primeiro lugar, eles não querem envenenar os jovens com as suas memórias e o outro é pessoal, eles não querem reviver. Foi tão difícil, tão cruel. O meu pai foi para a guerra e o meu tio Lorenzo foi para a guerra e o meu avô foi para a guerra. Eles nunca me disseram nada. Nunca me disseram nada porque era doloroso para eles lembrarem-se. Imagine uma criança de 20 anos com toda a sua vida à sua frente. Ou de 18 ou 19 anos, que deixa a escola, que deixa a sua família, que vê a morte, que é mutilado, que vê sangue, mata, que pode ser morto. A enorme tragédia, o tremendo choque psicológico traumático para uma pessoa jovem viver isso. É natural que não queiram recordar. É normal que eles não se quisessem lembrar, que queiram manter o silêncio. Um silêncio terapêutico, digamos psicoterapêutico. Eles queriam esquecer. E que nós jovens não soubéssemos. E todos estes imbecis de políticos espanhóis estão a recuperar um certo discurso e a trair o silêncio dos homens que fizeram a guerra civil. O que mais me irrita é que estes políticos espanhóis indocumentados de hoje, sem memória e sem cultura, estão a trair o silêncio prudente e compassivo de homens bons que fizeram de ambos os lados a guerra civil.

Fala em políticos incompetentes, impreparados, imbecis espanhóis. Isso atravessa todo o espetro político? Do Unidas Podemos ao Vox, passando pelo PSOE e PP?

Absolutamente todo o espetro político. Qualquer pessoa que me tenha lido sabe muito bem que quando falo disto, refiro-me a todos eles, não? Se há uma coisa que como espanhol, eu não gosto profundamente, é a baixa estatura intelectual do espetro político espanhol, desde a extrema-direita até à extrema-esquerda.

Linha da Frente é «Um romance maduro sobre descontrolo, desamparo e medo» para o El Mundo. Para o El Cultural, uma obra que se impõe "como o grande romance da reconciliação nacional". Segundo Júlia Navarro, "há muito mais verdade histórica em Linha da Frente do que na História que os políticos nos querem contar." Era isto que pretendia, um livro definitivo sobre a Guerra Civil, que funcione como o grande romance da reconciliação nacional num tema que ainda divide bastante Espanha?

Não, porque isso de "livro definitivo" soa muito pedante e também não é muito objetivo.

Nada é definitivo...

Nada, nada, ninguém e nada. Nem nada é perfeito. Foi uma tentativa de contar a Guerra Civil com equanimidade, porque a Guerra Civil em Espanha foi sempre contada por um lado ou pelo outro. Sempre houve romances, franquistas ou pró-franquistas ou romances republicanos ou pró-republicanos. Mas não havia nenhuma novela que abrangesse ambos os lados de forma equânime. E eu queria escrever o primeiro romance em que os dois lados... não as ideias, mas os seres humanos, que é o importante a salientar, - este não é um romance de ideias, é um romance de seres humanos - em que os dois lados são tratados humanamente de uma forma imparcial. Era essa a minha intenção e foi este o resultado.

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