Codogno
Covid-19

Um ano depois, a primeira cidade europeia a confinar faz figas para "regressar à vida"

Um ano depois, é com otimismo que o autarca da primeira cidade a conhecer uma cerca sanitária na Europa olha para o futuro. A TSF falou com o autarca local.

Na noite de 22 para 23 de fevereiro de 2020, a pandemia ainda não tinha sido declarada, mas os quinze mil habitantes do concelho de Codogno, no norte de Itália, tornaram-se nos primeiros europeus a enfrentarem o confinamento.

À TSF, Francesco Passerini, o presidente da câmara do primeiro epicentro europeu da Covid-19, faz um balanço de uma batalha que ainda não terminou.

Há um ano, a pandemia chegava a Itália. Codogno foi a primeira cidade europeia a entrar em confinamento, a ter uma cerca sanitária. Um ano depois, como é a vida na cidade?

Bom... um ano depois, continuam a ser tempos difíceis, mas a nossa vontade de recomeçar é cada vez maior. Estamos a tentar regressar, tão depressa quanto possível, à normalidade. Felizmente que a situação está controlada há vários meses.

O número de novos casos tem sido muito baixo. Hoje temos 19 casos ativos e apenas uma pessoa internada nos cuidados intensivos.

Portanto, se continuarmos com este ritmo de redução, fazendo figas e esperando que também a vacina faça a sua parte, esperamos chegar em breve à famigerada quota zero. Certamente que não vai acontecer nos próximos dias, mas será em breve, esperamos poder virar esta página, olhar em frente e pensar no futuro. Não podemos esquecer tudo aquilo que passámos, mas vamos tentar olhar para o futuro com mais confiança.

Oficialmente, tivemos mais de 700 casos de infeção. Digo oficialmente porque não podemos esquecer que nas primeiras semanas não tínhamos capacidade de testagem em massa. Por isso, acredito que o número real seja muito mais elevado.

Imagino que não tenha sido fácil declarar ou assinar, o fecho da cidade...

Penso, que nenhum presidente de Câmara quer tomar uma decisão deste género. Foi uma medida extrema. Foi difícil de tomar, mas foi fruto da avaliação feita durante uma noite. Tínhamos muitas perguntas e, infelizmente, poucas respostas, fizemos várias inspeções no terreno. Chegámos à conclusão que já nesse momento a situação era dramática, ou melhor, podia colocar em perigo a nossa comunidade. A saúde é, na minha opinião, o nosso maior bem. Portanto esse foi o caminho que decidimos tomar, porque entendíamos que era o mais acertado naquele momento. Claro que naquela altura havia uma perceção, hoje há outra. Mas, ainda assim, com tudo o que agora sabemos, penso que foi a decisão correta.

Como é que foram aquelas primeiras semanas?

Foi uma corrida contra o tempo. Era tudo novo, íamos fazendo novas descobertas aos poucos, por vezes de hora a hora. Era uma situação que parecia fora da história, uma realidade de que não havia memória, parecia quase um filme.

Durante vários dias, o único barulho que ouvíamos eram as sirenes das ambulâncias, ambulâncias, ambulâncias e ainda mais mais ambulâncias. Não havia outro som.

Os trabalhadores do cemitério estavam exaustos e tiveram de ser reforçados por elementos da proteção civil. Os avisos funerários eram divulgados sem datas, para desencorajar os enlutados a quebrar o confinamento. Parecia que estávamos a viver dentro de um pesadelo, num cenário pós-apocalíptico. Qualquer coisa de inimaginável até ao momento em que o vivemos. Depois também as exigências da população aumentavam de dia para dia.

Como é que as pessoas reagiram ao confinamento e à cerca sanitária?

No início, era preciso darmos tanta informação quanto possível. Tentávamos explicar os motivos para estas medidas sem precedente. Sobretudo nos primeiros dias, havia muita apreensão e preocupação.

Depois, houve uma partilha, um aceitar dos comportamentos que, desde então, tivemos de adotar: distanciamento físico, uso da máscara, evitar os ajuntamentos, sair de casa apenas em caso de necessidade extrema. Porque estávamos a combater contra um inimigo que, descobríamos, semana após semana, infelizmente, estava já bem presente não apenas no nosso concelho, mas por todo o país e quase toda a Europa.

Depois, as normas entraram em vigor a nível regional e nacional. A partir daí, a comunicação começou a ser feita de outra forma. Mas não era fácil explicar, sobretudo no início, na primeira semana, em que grandes cidades europeias, as grandes multinacionais incitavam a que não se fechasse nada, a continuar a andar em frente, nós estávamos já a combater este inimigo.

Sobretudo de Bergamo, chegaram relatos de pressão por parte da indústria para não parar a atividade, com os resultados que todos conhecemos. Também sentiu esse tipo de pressão?

Não sei o que aconteceu em Bergamo. Aqui, o tecido empresarial percebeu o que era necessário fazer e tiveram até grandes gestos de solidariedade com a comunidade. Apoiaram muito as instituições sociais. Fizeram grandes donativos de bens e de fundos, durante a fase mais crítica. Houve um grande trabalho de equipa para juntos atingirmos o objetivo de superar um momento dramático da nossa história.

Sentiu-se sempre apoiado pelo Governo central e pela região administrativa a que pertence, a Lombardia?

A região da Lombardia criou, desde o primeiro dia, um gabinete de crise, desde que foi decretada a primeira zona vermelha. Sentimos, sobretudo, proximidade por parte das instituições regionais. Talvez as instituições nacionais estivessem um pouco mais distantes.

Mas ainda vivemos uma situação de emergência. Quando tudo isto passar, talvez possamos avaliar os méritos e deméritos. Por agora, ainda é o momento em que precisamos de trabalhar em conjunto, de olhar em frente, combater e vencer esta batalha, que é o mais importante.

Há um ano disse-me que estava a viver uma situação de guerra... mantém essa ideia?

Sim, seguramente. Nos primeiros tempos, a situação parecia uma guerra. Para muitas gerações, esta foi a primeira vez em que se depararam com limitações drásticas à liberdade pessoal, de movimento e ao seu modo de vida.

Por isso é que foi muito difícil, sobretudo para os mais jovens, aceitar esta suspensão do quotidiano, da vida e dos momentos felizes. Infelizmente, encontram-se com uma situação que teve repercussões a nível escolar, a nível social e comunitário. Viram-se obrigados a viver esta batalha, porque esta é uma batalha de todos. A frente está em todo o lado, não está só nos hospitais. O inimigo pode estar em qualquer lado. Como hoje sabemos, só com esta metodologia podemos ultrapassar este momento e regressar à vida, à liberdade, que é do que todos sentimos falta. A termos a possibilidade de sermos realmente livres.

Sentiu-se estigmatizado em algum momento?

Nos primeiros dias ouvi muitas... parvoíces, para não ser mal educado, depois isso passou. Mas eu prefiro recordar a forte onda de solidariedade que recebemos de tantas partes até de fora do país. Admito que a confusão, o desconhecimento dos primeiros dias da primeira fase, possa ter levado alguns a terem raciocínios infundados, a tecer considerações sem qualquer tipo de lógica.

Por outro lado, houve também muito reconhecimento. Até do nosso Presidente da República, que definiu esta comunidade como a comunidade da coragem. A comunidade que fez frente a um inimigo desconhecido, com uma vontade desenfreada de salvar não só a nossa região, mas sobretudo os outros. Porque, ao início, acreditávamos que fosse apenas um surto e que, depois de controlado, não se iria estender ao resto do país. Infelizmente, em pouco tempo, descobrimos que não era bem assim. O vírus estava já muito disseminado em todas as comunidades. Mas nós tivemos a seriedade, a responsabilidade e toda a força possível para dar a primeira resposta a este inimigo infame, funesto, que nos trouxe tanto sofrimento e tanta tristeza.

Olhando para trás, há alguma decisão de que se arrependa, alguma coisa que hoje fizesse de maneira diferente?

O totobola à segunda-feira é a ciência exata por excelência. Esta é a única certeza que temos. Eu teria feito novamente quase tudo da mesma maneira. A situação era de tal forma dramática que não podia ter feito de outra forma.

Se calhar, daqui a uns tempos, podemos refletir e fazer outro tipo de avaliação. Mas esta região fez tudo o que pode, pagámos caro, mas fizemos o máximo. A 23 de fevereiro de 2020, a situação era... dramática é dizer pouco... era verdadeiramente apocalíptica.

O processo de vacinação já começou. Como é que está a correr?

Bem, os médicos, os enfermeiros e todo o pessoal sanitário já tomaram todas as duas doses. As forças de segurança já tomaram a primeira dose. Agora começam os maiores de 80 anos. Está a andar bem. Esperamos que o fornecimento de vacinas não sofra mais percalços. Bato na mesa e faço figas para que, em breve, possamos regressar à vida.

Portanto, já olham para o futuro com alguma esperança...

Sim. Queremos ver a luz. Queremos voltar a estar juntos, com proximidade a viver em conjunto e, sobretudo, mostrar ao mundo, depois da pandemia, o que é Codogno, o que é a região de Lodi em normalidade. Depois da tragédia que, tenho a certeza, vamos superar. Tornaremos depressa a ser o que éramos. Temos de começar a pensar na sustentação das atividades produtivas, porque, quando a emergência sanitária passar, essa vai ser a grande prioridade. Espero que nos possamos ver em breve, para celebrar o fim desta pandemia e olharmos para o futuro.

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