Não enfiem a cabeça na areia

Não há margem para dúvidas, a proposta de criar um plano de confinamento especifico para a comunidade cigana é racista e, por isso mesmo, inconstitucional. Ainda assim, o deputado de extrema-direita fez manchete num jornal e essa manchete foi mostrada por todos os canais de notícias na televisão a vários milhões de portugueses. Uma pesquisa nos motores de busca revela que praticamente todos órgãos de comunicação social, repito, praticamente todos os órgãos de comunicação social deram a notícia do plano do deputado de extrema-direita.


Um jogador da selecção nacional, o cigano Ricardo Quaresma, deu a resposta que o extremista merecia e todos correram ao Parlamento para ouvir uma vez mais o deputado do Chega responder a quem ele quis calar. Na Assembleia da República, o assunto foi levado a plenário pelo deputado extremista e teve resposta do primeiro-ministro e do Bloco de Esquerda.


É praticamente impossível que haja portugueses que não conheçam a proposta do Chega e há até um abaixo-assinado de figuras públicas repudiando as afirmações do deputado extremista sobre os ciganos. Nas redes sociais, milhares e milhares de pessoas disseram de sua justiça sobre esta polémica e não podemos ignorar que uma parte significativa revela intolerância em relação à comunidade cigana. Aconteceu tudo isto, há infelizmente muita gente a concordar com o deputado extremista, mas o politicamente correcto entendeu mostrar nas redes sociais que o assunto não deveria ter sido debatido no Fórum da TSF. A pergunta colocada para lançar o debate poderia não ter sido tão simples como concorda ou não concorda, mas essa questão coloca-se em todos os fóruns. Ainda assim, em tudo na vida a pergunta que fazemos nunca magoa tanto como a resposta que somos capazes de dar.


O Chega chegou onde chegou porque aceitamos publicitar todas as suas propostas, principalmente as mais polémicas, mas depois queremos enfiar a cabeça na areia e não as debater com quem as apoia. Estou à vontade para falar do assunto, porque logo depois das eleições do ano passado, defendi num texto escrito no JN que, em relação ao Chega, "a primeira barreira a ser levantada tem mesmo de ser a da dignidade do exercício da profissão de jornalista. Sim, é obrigação dos jornalistas censurar discursos xenófobos e racistas. Sim, os jornalistas não devem ter medo do politicamente correto e devem deixar o Ventura a falar sozinho." O que de todo não é desejável é dar-lhe o megafone para a mão sem contraditório. Se damos eco das suas propostas racistas, a nossa obrigação passa a ser a de dar combate sem tréguas ao vírus anti-social que ele lançou.

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